Canto I: A peste e a ira
canta, deusa, a ira de Aquiles, filho de Peleu, a ira funesta que impôs aos aqueus dores sem conta.
Explicação e análise
O poema começa com o narrador pedindo a uma deusa que cante. Antes de qualquer personagem falar, ele diz qual é o assunto: não é a guerra de Troia, que já dura nove anos quando o canto se abre, mas a ira de Aquiles, filho de Peleu. Quem ouve ou lê está avisado de que a história a seguir é a de um sentimento e do que ele custou.
A primeira palavra do verso grego é “ira”, e ela vem antes do nome do herói. Homero quase só usa essa palavra para os deuses e para Aquiles, e aplicá-la a um homem já indica o tamanho do que vai acontecer. O narrador também mede o preço: essa ira impôs “dores sem conta” aos aqueus, os próprios companheiros de Aquiles. Poucos versos depois o poeta acrescenta que tudo isso cumpria o desígnio de Zeus, de modo que a ira tem duas causas postas lado a lado, a escolha de um homem e a vontade de um deus.
Pode-se ler o proêmio como o anúncio de um poema sobre honra ferida, em que a guerra é só o palco onde uma ofensa pessoal se espalha por um exército inteiro. Pode-se ler também como a história de uma força maior que o próprio herói, uma ira “funesta” que o arrasta e arrasta os outros. O poema não escolhe entre as duas leituras, e é esse equilíbrio que o leitor leva para os cantos seguintes.
pois não vim para cá combater por causa dos troianos lanceiros, já que eles em nada são culpados comigo.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 54 citações de Ilíada está na assinatura.
mãe, já que me deste à luz para viver pouco, ao menos honra o Olímpio me devia pôr nas mãos.
Explicação e análise
Canto II: O sonho e o catálogo das naus
dizei-me agora, Musas que tendes moradas olímpicas, pois vós sois deusas, estais presentes e sabeis tudo, e nós só ouvimos a fama e nada sabemos.
Explicação e análise
não é bom o mando de muitos; seja um só o chefe, um só o rei, a quem o filho de Crono, de pensamentos tortuosos, deu o cetro e as normas, para que decida por eles.
Explicação e análise
Canto III: O duelo de Páris e Menelau
ela tecia uma grande teia, um manto duplo de púrpura, e nele bordava os muitos combates de troianos domadores de cavalos e de aqueus de couraça de bronze, que eles sofriam por causa dela sob as mãos de Ares.
Explicação e análise
para mim tu não és culpada; para mim os deuses é que são culpados, eles que lançaram contra mim a guerra de muitas lágrimas dos aqueus.
Explicação e análise
Canto IV: A trégua rompida
ela, pequena de início, se arma, mas depois firma a cabeça no céu e anda sobre a terra;
Explicação e análise
ela afastou a flecha da pele tanto quanto uma mãe afasta a mosca do filho quando ele dorme o doce sono,
Explicação e análise
Canto V: A aristeia de Diomedes
Considera, filho de Tideu, e recua, e não queiras pensar igual aos deuses, pois nunca é semelhante a raça dos deuses imortais e a dos homens que andam sobre a terra.
Explicação e análise
e retirou de novo a lança; e rugiu o brônzeo Ares tanto quanto rugem nove ou dez mil homens em guerra, ao juntarem a disputa de Ares.
Explicação e análise
Canto VI: Heitor e Andrômaca
tal como é a geração das folhas, assim é a dos homens. As folhas, umas o vento derruba no chão, outras a mata verdejante faz brotar, quando chega a estação da primavera; assim a geração dos homens: uma nasce, outra se acaba.
Explicação e análise
Heitor, tu és para mim pai, mãe veneranda e irmão, e és o meu jovem esposo.
Explicação e análise
pois isto eu sei bem, no espírito e no coração: virá o dia em que a sagrada Ílion será destruída, e Príamo, e o povo de Príamo, bom lanceiro.
Explicação e análise
e o menino recuou, gritando, para o seio da ama de bela cintura, assustado com a visão do pai querido, temendo o bronze e o penacho de crina de cavalo, que viu balançar terrível do alto do elmo.
Explicação e análise
Canto VII: O duelo de Heitor e Ájax
demos um ao outro presentes insignes, para que alguém entre aqueus e troianos diga: eles lutaram pela querela que devora o ânimo e de novo se separaram em amizade, reconciliados.
Explicação e análise
e que devolva o meu corpo à casa, para que os troianos e as esposas dos troianos me deem, depois de morto, a parte do fogo.
Explicação e análise
Canto VIII: A batalha interrompida
e então o Pai estendeu a balança de ouro; nela pôs duas Queres, as sortes da morte que abate, a dos troianos domadores de cavalos e a dos aqueus de túnica de bronze; tomou-a pelo meio e a ergueu: pendeu o dia fatal dos aqueus.
Explicação e análise
Como quando no céu os astros em torno da lua brilhante aparecem resplandecentes, quando o éter está sem vento; [...] tantas, entre as naus e as correntes do Xanto, as fogueiras dos troianos ardentes apareciam diante de Ílion. Mil fogueiras ardiam na planície, e junto a cada uma estavam sentados cinquenta, à luz do fogo ardente.
Explicação e análise
Canto IX: A embaixada a Aquiles
Pois minha mãe, a deusa Tétis dos pés de prata, diz que dois destinos de morte me levam ao termo: se eu ficar aqui e combater a cidade dos troianos, perdi o retorno, mas minha glória será imperecível; se eu voltar para casa, à querida pátria, perdi a boa glória, mas longa vida me será dada, e o termo da morte não me alcançará logo.
Explicação e análise
Pois me é odioso, tanto quanto as portas de Hades, aquele que esconde uma coisa no peito e diz outra.
Explicação e análise
A ti o filho de Crono, de pensamentos tortuosos, deu em duas partes: com o cetro deu-te ser honrado acima de todos, mas a coragem não te deu, que é o maior poder.
Explicação e análise
Canto X: A Doloneia
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon
ai de mim, que me acontecerá? Grande mal será se eu fugir, por temor da multidão; pior ainda se for capturado sozinho, pois o Cronida pôs em fuga os outros dânaos. Mas por que o meu coração me diz estas coisas? Sei que os maus se afastam da guerra, e que quem se distingue no combate, a este é preciso resistir com firmeza, seja ferido ou fira outro.
Explicação e análise
mas o pai Zeus, que habita no alto, lançou o medo em Ájax: ele parou atônito, lançou às costas o escudo de sete peles e recuou, olhando a multidão como uma fera, voltando-se a cada passo e trocando devagar um joelho pelo outro.
Explicação e análise
Canto XII: O assalto à muralha
meu caro, se, fugindo desta guerra, devêssemos ser para sempre sem velhice e imortais, eu mesmo não lutaria entre os primeiros nem te mandaria ao combate que dá glória aos homens; mas agora, de qualquer modo, as Queres da morte estão sobre nós, incontáveis, e nenhum mortal pode fugir delas ou escapar. Vamos, ou daremos glória a alguém, ou alguém a nós.
Explicação e análise
mas mantinham-se como a balança de uma mulher honesta, que trabalha a lã: ela segura o peso e a lã e, de cada lado, iguala os pratos, para ganhar para os filhos um salário miserável; assim, igual se estendia entre eles o combate e a guerra, até que Zeus deu glória maior a Heitor, o Priamida, o primeiro a saltar para dentro da muralha dos aqueus.
Explicação e análise
Canto XIII: A batalha junto às naus
de tudo há fartura, do sono, do amor, do canto doce e da dança sem defeito, coisas de que qualquer um deseja mais se fartar do que da guerra; mas os troianos não se fartam do combate.
Explicação e análise
Canto XIV: O engano de Zeus
disse, e desatou do peito a cinta bordada, de muitos matizes, onde estavam feitos todos os feitiços: nela havia amor, nela desejo, nela a conversa íntima, a sedução que rouba o juízo até de quem pensa com firmeza.
Explicação e análise
pois não há vergonha em fugir do mal, nem mesmo de noite; é melhor aquele que, fugindo, escapa do mal do que o que é capturado.
Explicação e análise
Canto XV: Os troianos nas naus
e ele fará levantar-se o seu companheiro Pátroclo, a quem o ilustre Heitor matará com a lança diante de Ílion, depois de Pátroclo ter feito perecer muitos outros jovens, e entre eles o meu filho, o divino Sarpédon. Irado por causa dele, o divino Aquiles matará Heitor.
Explicação e análise
e derrubava o muro dos aqueus com toda facilidade, como quando uma criança, junto ao mar, depois de fazer brinquedos de areia na sua puerilidade, volta a desmanchá-los com os pés e as mãos, brincando.
Explicação e análise
Canto XVI: A morte de Pátroclo
por que choras, Pátroclo, como uma menina pequena que, correndo ao lado da mãe, pede para ser levada no colo, agarrada ao vestido, e a detém quando ela tem pressa,
Explicação e análise
uma coisa o Pai lhe deu, outra recusou com um aceno: afastar das naus a guerra e o combate, isso concedeu; voltar são e salvo da batalha, recusou.
Explicação e análise
direi ainda outra coisa, e guarda-a no teu espírito: tu mesmo não viverás muito tempo; já se acha perto de ti a morte e o destino poderoso, que te dominará pelas mãos de Aquiles, o irrepreensível Eácida.
Explicação e análise
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo
mas, como a estela que permanece firme sobre o túmulo de um homem morto ou de uma mulher, assim ficaram, imóveis, segurando o belo carro, com a cabeça fincada no chão; e lágrimas quentes lhes corriam das pálpebras ao solo, enquanto choravam, de saudade do cocheiro.
Explicação e análise
ai, infelizes, por que vos demos ao rei Peleu, um mortal, vós que não envelheceis nem morreis? Foi para que tivésseis dores entre homens miseráveis? Pois de tudo o que respira e rasteja sobre a terra, nada há mais digno de lástima que o homem.
Explicação e análise
Canto XVIII: O escudo de Aquiles
Pátroclo jaz, e em volta do corpo nu os homens lutam; e as armas, quem as tem é Heitor, do elmo faiscante. Assim falou, e uma nuvem negra de dor cobriu Aquiles.
Explicação e análise
Que a discórdia desapareça entre os deuses e entre os homens, e a ira, que leva a se enfurecer até o muito sensato, a ira que, muito mais doce que o mel que escorre, cresce como fumaça no peito dos homens: foi assim que me irou, agora há pouco, o senhor de homens, Agamêmnon.
Explicação e análise
Nele fez a terra, nele o céu, nele o mar, e o sol incansável e a lua cheia, e nele todos os astros com que o céu se coroa.
Explicação e análise
Canto XIX: O fim da ira
Agora, de fato, eu faço cessar a ira, e não me convém ficar sempre enfurecido sem trégua;
Explicação e análise
Xanto, por que me profetizas a morte? Não precisas. Eu mesmo bem o sei: meu destino é perecer aqui, longe do pai querido e da mãe; mas, ainda assim, não pararei antes de levar os troianos a se fartarem de guerra.
Explicação e análise
Dele havia um ranger de dentes, e os olhos lhe brilharam como clarão de fogo, e no coração lhe entrou uma dor insuportável; e ele, furioso contra os troianos, vestiu os presentes do deus, que Hefesto lhe fez trabalhando.
Explicação e análise
Canto XX: A batalha dos deuses
Como o fogo divino devasta os vales profundos de um monte ressecado, e a densa mata se queima, e o vento, agitando-a por toda parte, enrola a chama, assim ele corria por toda parte com a lança, igual a um deus, perseguindo os que morriam; e a terra negra corria de sangue.
Explicação e análise
Volúvel é a língua dos mortais, e nela há palavras de toda espécie, e o pasto das palavras é largo de um lado e de outro. A palavra que disseres, tal ouvirás.
Explicação e análise
Canto XXI: Aquiles e o rio
Mas, amigo, morre também tu: por que te lamentas assim? Morreu também Pátroclo, que era muito melhor do que tu.
Explicação e análise
mortais miseráveis, que, semelhantes às folhas, ora ardem em pleno vigor, comendo o fruto da terra, ora murcham sem vida.
Explicação e análise
Canto XXII: A morte de Heitor
como em sonho não se pode perseguir quem foge: nem o outro consegue fugir, nem o primeiro alcançar; assim um não conseguia agarrá-lo com os pés, nem o outro escapar.
Explicação e análise
Heitor, execrável, não me fales de pactos; como não há juramentos fiéis entre leões e homens, nem lobos e cordeiros têm ânimo concorde, mas pensam mal uns dos outros sem cessar.
Explicação e análise
que eu não morra sem luta e sem glória, mas depois de fazer algo grande, que também os vindouros venham a saber.
Explicação e análise
pôs nela as duas Queres da morte que traz dor prolongada, a de Aquiles e a de Heitor, domador de cavalos; levantou-a segurando o meio: o dia fatal de Heitor pendeu, foi para o Hades, e Febo Apolo o deixou.
Explicação e análise
Canto XXIII: Os jogos fúnebres
veio a alma do infeliz Pátroclo, em tudo igual a ele, no tamanho, nos belos olhos e na voz, e com as mesmas roupas sobre o corpo.
Explicação e análise
ai de mim, existe então, mesmo na casa de Hades, alma e imagem, mas nelas não há entendimento algum.
Explicação e análise
Canto XXIV: O resgate de Heitor
suportei o que nenhum outro mortal sobre a terra ainda suportou: levar aos lábios a mão do homem que mata os meus filhos.
Explicação e análise
pois dois jarros jazem no chão de Zeus, de dons, dos que ele dá: um de males, o outro de bens. A quem Zeus, que se alegra com o raio, der misturando, ora topa com um mal, ora com um bem.
Explicação e análise
como jaz orvalhado, e o sangue está lavado, sem sujeira em parte alguma, e todas as feridas fecharam, as que lhe foram feitas, pois muitos lhe cravaram o bronze. Assim os deuses bem-aventurados cuidam do teu filho, mesmo morto, porque lhe era caro ao coração.