Resumo do capítulo
Enquanto a luta em volta do corpo de Pátroclo ainda arde, Antíloco, filho de Nestor, corre até Aquiles com a notícia. Aquiles está sentado diante das naus e já pressente o pior: vê os aqueus fugirem pela planície para os navios e lembra o que a mãe lhe anunciou, que o melhor dos mirmidões deixaria a luz do sol, ainda ele vivo, pelas mãos dos troianos. Conclui sozinho que Pátroclo morreu e o chama de teimoso, porque lhe mandara voltar às naus assim que apagasse o fogo, sem enfrentar Heitor. Antíloco chega em lágrimas e confirma: Pátroclo jaz, o combate continua em torno do corpo nu, e as armas estão com Heitor.
Uma nuvem negra de dor cobre Aquiles. Ele toma cinza com as duas mãos e a derrama na cabeça, suja o manto, estende-se no pó e arranca os cabelos, enquanto as servas que ele e Pátroclo tinham tomado na guerra correm para fora da tenda e gritam. Antíloco segura as mãos de Aquiles, porque teme que ele corte a própria garganta com o ferro. O gemido chega ao fundo do mar, onde Tétis está ao lado do velho pai, e as nereidas se reúnem na gruta, que Homero nomeia uma a uma. Tétis conduz o lamento: deu à luz o melhor dos heróis, criou-o como uma planta e o mandou a Troia, e agora sabe que não o receberá de volta na casa de Peleu. Decide ir vê-lo, para saber que dor o atinge, já que ele está afastado da guerra.
Tétis sobe à praia com as nereidas, abraça a cabeça do filho e pergunta por que ele chora, lembrando que Zeus já lhe deu o que ele pediu: os aqueus acuados junto às popas, com saudade dele. Aquiles responde que Zeus cumpriu o pedido, mas que isso já não lhe dá prazer, porque perdeu Pátroclo, a quem estimava como a si mesmo, e Heitor tirou as armas que os deuses haviam dado a Peleu no dia do casamento com Tétis. Chega a desejar que a mãe tivesse ficado entre as deusas do mar e que Peleu tivesse tomado uma esposa mortal, para que ela não carregasse agora essa dor. Diz que o coração não o manda viver entre os homens se Heitor não perder a vida pela lança dele e não pagar o despojo de Pátroclo. Tétis responde que então terá vida curta, porque logo depois de Heitor o fim está pronto para ele.
Aquiles não recua: pede para morrer já, porque não socorreu o companheiro, que pereceu longe da pátria precisando dele. Diz que ficou junto às naus como peso inútil da terra, o que nenhum aqueu iguala na guerra, embora outros o superem na assembleia. Deseja que a discórdia e a ira desapareçam entre deuses e homens, a ira que é mais doce que o mel e cresce como fumaça no peito, e foi assim que Agamêmnon o irritou. Mas ele deixará o passado, dominando o coração por necessidade, e vai atrás de Heitor; receberá a morte quando Zeus e os outros deuses quiserem, porque nem Héracles, o mais querido de Zeus, escapou dela. Se a ele coube destino igual, jazerá quando morrer. Por ora quer boa fama, quer fazer as troianas gemerem com as mãos nas faces e saberem que ele ficou muito tempo longe da guerra. Pede que a mãe não o detenha, porque ela não o convencerá.
Tétis concorda que é justo defender os companheiros em perigo, mas lembra que as armas de Aquiles estão com os troianos: Heitor as ostenta e, diz ela, não as gozará por muito tempo, porque a morte já está perto dele. Pede ao filho que não entre na batalha antes de vê-la voltar, pois ao nascer do sol ela trará armas novas, feitas por Hefesto. Manda as nereidas descerem ao palácio do velho do mar para contarem tudo ao pai e sobe ao Olimpo.
Enquanto isso, os aqueus fogem do clamor de Heitor até o Helesponto e as naus. Heitor, que o poema compara a uma chama, alcança o corpo de Pátroclo e três vezes o agarra pelos pés para arrastá-lo, gritando aos troianos; três vezes Ájax e o outro Ájax o repelem, mas ele não recua de vez, como o leão que os pastores não conseguem afastar da presa. Teria arrastado o corpo e ganho glória imensa se Íris não tivesse descido do Olimpo, enviada por Hera sem que Zeus nem os outros deuses soubessem. Íris diz a Aquiles que se levante: os aqueus lutam para proteger o corpo, os troianos para levá-lo a Ílion, e Heitor quer cortar a cabeça de Pátroclo e espetá-la numa estaca. Será vergonha para Aquiles se o morto virar brinquedo dos cães troianos.
Aquiles pergunta qual deus a enviou e como poderia lutar: os troianos têm as armas dele, a mãe proibiu que ele se armasse antes de vê-la voltar, e a única armadura que ele conhece que lhe serviria é o escudo de Ájax, o Telamônio, que decerto já luta na primeira fila. Íris responde que todos sabem que as armas estão com os troianos e propõe que ele vá assim mesmo até o fosso e se mostre: talvez os troianos, com medo, se afastem da luta, e os aqueus, exaustos, tenham um fôlego, que na guerra é curto.
Atena lança a égide sobre os ombros de Aquiles e coroa a cabeça dele com uma nuvem de ouro, da qual acende uma chama. Aquiles vai até o fosso, afastado do muro e sem se misturar aos aqueus, porque obedece à ordem da mãe, e grita; Atena, à parte, reforça o grito, que soa como trombeta numa cidade sitiada. Os troianos se perturbam, os cavalos giram os carros, e os aurigas se apavoram ao ver sobre a cabeça de Aquiles o fogo que Atena mantém aceso. Aquiles grita três vezes, os troianos e seus aliados se agitam três vezes, e doze dos melhores morrem entre os próprios carros e lanças. Os aqueus, aliviados, tiram Pátroclo do alcance dos dardos e o põem num leito; Aquiles os segue em lágrimas, vendo o amigo rasgado pelo bronze, aquele que ele mandara ao combate com carro e cavalos e não recebera de volta. Hera, contra a vontade do Sol, faz o astro mergulhar nas correntes do Oceano, e a luta cessa.
Os troianos se reúnem em assembleia de pé, porque o medo de Aquiles não deixa ninguém sentar. Polidamante, que vê ao mesmo tempo o que vem à frente e o que ficou para trás, e que nasceu na mesma noite que Heitor, propõe voltar à cidade em vez de esperar a aurora na planície, longe dos muros. Enquanto Aquiles estava irado com Agamêmnon, diz ele, era mais fácil enfrentar os aqueus, e ele mesmo gostava de dormir junto às naus, esperando tomá-las; agora teme Aquiles, que não ficará na planície e lutará pela cidade e pelas mulheres. Se encontrar os troianos fora dos muros de manhã, muitos serão pasto de cães e abutres. Atrás de torres, portas e trancas, ao contrário, Aquiles cansará os cavalos em volta da cidade e voltará às naus sem entrar.
Heitor o olha de baixo e responde irado: já não bastou ficarem fechados nas muralhas? A cidade, que os homens diziam rica em ouro e bronze, perdeu os tesouros, vendidos à Frígia e à Meônia depois que Zeus se irritou. Agora que Zeus lhe dá glória junto às naus e a chance de encurralar os aqueus no mar, Heitor não admite aquele conselho, e nenhum troiano o seguirá. Ordena que o exército ceie no campo, monte guarda e que quem se preocupa demais com os bens os entregue ao povo, que ele prefere ver gastos pelos troianos a ver nas mãos dos aqueus; ao amanhecer, armados, despertarão Ares junto às naus. Se Aquiles de fato se levantou, pior para ele: Heitor não fugirá, enfrentará de frente, porque Eniálio é comum a todos e mata quem mata. Os troianos o aplaudem, porque Atena lhes tirou o juízo, e ninguém dá atenção a Polidamante, que deu o bom conselho.
Os aqueus passam a noite gemendo por Pátroclo, e Aquiles conduz o lamento com as mãos assassinas no peito do amigo, gemendo como um leão a quem um caçador tirou os filhotes no mato e que, ao voltar, percorre os vales seguindo o rastro do homem. Diz aos mirmidões que foi vã a palavra que deu a Menécio, pai de Pátroclo, prometendo levar de volta a Opunte o filho com a parte dele do saque de Troia, porque Zeus não realiza todos os desígnios dos homens: o destino dos dois é tingir a mesma terra de Troia, e nem Peleu nem Tétis o receberão em casa. Já que irá para debaixo da terra depois de Pátroclo, não o sepultará antes de trazer as armas e a cabeça de Heitor, nem sem degolar doze filhos de troianos diante da pira, irado com a morte dele. Até lá Pátroclo ficará junto às naus, e as troianas e dardânias, as mulheres que eles tomaram saqueando cidades, o chorarão noite e dia. Manda pôr uma trípode grande no fogo; lavam o corpo, ungem as feridas com unguento de nove anos, deitam-no no leito e o cobrem de linho e de um manto branco. Os mirmidões gemem toda a noite.
No Olimpo, Zeus diz a Hera que ela afinal conseguiu levantar Aquiles, e que os aqueus de longos cabelos devem ser filhos dela. Hera responde que até um mortal consegue fazer mal ao próximo, e que ela, a primeira das deusas por origem e por ser esposa de Zeus, que reina sobre todos os imortais, não poderia deixar de tramar o mal contra os troianos com quem está irada.
Tétis chega à casa de bronze de Hefesto, imperecível, que reluz como as estrelas e que o próprio deus construiu. Encontra-o suado, atarefado entre os foles, fabricando vinte trípodes para a parede da sala, cada um com rodas de ouro sob os pés, para que andem sozinhos até a assembleia dos deuses e voltem para casa. Falta-lhes só prender as orelhas, que ele está forjando. Cáris, a esposa de Hefesto, vê Tétis, toma-lhe a mão, leva-a para dentro, senta-a num trono de pregos de prata e chama o marido. Hefesto diz que ali está a deusa que o salvou quando, coxo, foi atirado do céu por vontade da mãe, que queria escondê-lo; Eurínome e Tétis o acolheram, e durante nove anos ele forjou joias numa gruta cercada pelo murmúrio do Oceano, sem que ninguém mais o soubesse. Por isso deve pagar a Tétis a vida que ela lhe salvou. Manda Cáris servir a hospitalidade, afasta os foles e os instrumentos, limpa o rosto e sai coxeando, apoiado num cetro, ladeado por servas de ouro que parecem moças vivas e têm mente, voz e força, e conhecem o ofício dos deuses. Pergunta a Tétis o que ela quer e promete atendê-la se for possível.
Tétis, chorando, diz que nenhuma deusa suportou tantas dores quanto ela: entre as nereidas, só a ela Zeus obrigou a casar com um mortal, Peleu, que agora jaz envelhecido no palácio; e, além disso, o filho que ela criou como planta e mandou a Troia não voltará. Conta que Agamêmnon tomou a moça que os aqueus haviam dado a Aquiles como prêmio; que o filho se consumiu de dor enquanto os troianos encurralavam os aqueus junto às popas e os anciãos argivos o suplicavam, com muitos presentes; que ele recusou afastar a ruína deles, mas vestiu Pátroclo com as próprias armas e o mandou à guerra com muitos homens. Lutaram o dia inteiro junto às Portas Ceias e teriam tomado a cidade naquele dia se Apolo não tivesse matado Pátroclo na primeira fila e dado glória a Heitor. Por isso ela vem aos joelhos de Hefesto: pede escudo, elmo, grevas e couraça para o filho de vida curta, que jaz no chão de coração dolorido.
Hefesto a anima: gostaria de poder escondê-lo da morte quando o destino terrível o alcançasse, tão certo quanto as armas belas que fará, das quais muitos homens se espantarão. Deixa-a e vai aos foles, vinte ao todo, que sopram em fornalhas, ora mais forte, ora mais fraco, conforme ele queira e o trabalho exija. Lança ao fogo bronze, estanho, ouro e prata, firma a bigorna, toma o martelo e a tenaz. Faz primeiro um escudo grande e forte, de cinco camadas, com uma borda tripla e brilhante e uma correia de prata, e nele grava obras com engenho.
No escudo, ele põe primeiro a terra, o céu e o mar, o sol incansável, a lua cheia e as constelações: as Plêiades, as Híades, a força de Órion e a Ursa, a única que não se banha no Oceano.
Depois grava duas cidades de homens. Na primeira há bodas e banquetes: noivas conduzidas pela cidade à luz de tochas, ao som do hino nupcial, rapazes dançando ao som de flautas e cítaras, mulheres olhando das portas. Na praça, dois homens disputam o preço pelo sangue de um morto; um diz que pagou tudo e declara isso ao povo, o outro nega ter recebido algo, e ambos querem a decisão de um árbitro. O povo se divide em apoios, os arautos o contêm, e os anciãos, sentados em pedras lisas num círculo sagrado, com os cetros dos arautos nas mãos, dão sentença um depois do outro; dois talentos de ouro estão no meio, para quem disser a sentença mais reta.
Em torno da outra cidade acampam dois exércitos, brilhantes de armas, divididos entre saquear tudo ou repartir ao meio os bens que a cidade encerra. Os sitiados não aceitam e armam uma emboscada: a muralha fica com as esposas, as crianças e os velhos, e os homens saem guiados por Ares e Atena, ambos de ouro, grandes e visíveis como deuses, enquanto o povo é menor. Chegados a um rio onde todo o gado bebe, escondem-se sob o bronze, com dois vigias à parte à espera de ovelhas e bois. Estes chegam com dois pastores que tocam flauta e não suspeitam do ardil; os emboscados correm, levam os rebanhos e matam os pastores. Os sitiadores, que estavam em assembleia, ouvem o alarido junto aos bois, montam e chegam depressa, e a luta se trava na margem do rio, com lanças de bronze. Entre os homens agem a Discórdia, o Tumulto e a Quere funesta, que segura um ferido vivo, um homem intacto e arrasta um morto pelos pés, com o manto vermelho de sangue; essas potências se misturam aos combatentes como mortais vivos e arrastam os mortos uns dos outros.
Vem então um campo mole, rico, largo e arado três vezes: muitos lavradores conduzem as juntas de um lado e de outro e, quando chegam ao fim do sulco, um homem lhes põe nas mãos uma taça de vinho doce; eles voltam, ansiosos por chegar ao fim do campo fundo. A terra atrás deles escurece como terra arada, embora seja de ouro: uma maravilha. Em seguida há um domínio real, onde ceifeiros trabalham de foice, feixes caem ao longo do sulco, três atadores os amarram e meninos os trazem em braçadas, e o rei, calado, de cetro na mão, observa feliz; sob um carvalho, os arautos preparam um boi grande, e as mulheres misturam farinha branca para o jantar dos ceifeiros.
Depois vem uma vinha de ouro, carregada, com cachos negros e estacas de prata, cercada por um fosso azul-escuro e uma cerca de estanho, com um só caminho por onde passam os vindimadores. Rapazes e moças levam o fruto doce em cestos trançados, e no meio deles um menino toca a lira e canta o canto de Linos com voz fina, enquanto os outros o acompanham dançando e gritando. Segue-se uma manada de bois de chifres retos, feitos de ouro e de estanho, que saem mugindo do estábulo para o pasto junto a um rio ruidoso, com quatro pastores de ouro e nove cães. Dois leões terríveis tomam um touro na frente da manada e o arrastam mugindo; os jovens e os cães os perseguem, mas os leões rasgam o couro do touro e bebem o sangue negro e as entranhas, e os cães se esquivam e só latem de perto. O ferreiro faz ainda um grande pasto de ovelhas brancas num belo vale, com cabanas, abrigos e currais.
Hefesto compõe então uma dança, semelhante à que Dédalo fez em Cnossos para Ariadne: rapazes e moças de mãos seguras nos pulsos, as moças em linho fino, os rapazes em túnicas brilhantes de óleo, elas com coroas, eles com punhais de ouro em correias de prata. Giram com pés ágeis, como uma roda que o oleiro sentado experimenta nas mãos, ou correm em fileiras. Uma multidão olha a dança com prazer; um aedo divino toca a forminge, e dois acrobatas fazem piruetas no meio, puxando o canto. Na borda extrema do escudo, o ferreiro põe a grande força do rio Oceano.
Terminado o escudo, Hefesto faz a couraça, mais brilhante que o fogo, o elmo pesado com crista de ouro e as grevas de estanho maleável. Quando todas as armas estão prontas, levanta-as e as põe diante da mãe de Aquiles. Tétis desce do Olimpo nevado como um gavião, levando as armas brilhantes.
Análise
O canto vira o poema em três movimentos. Primeiro, a ira de Aquiles muda de alvo: a briga com Agamêmnon, que ele chama de doce como o mel e crescente como fumaça, é posta no passado no momento em que o luto por Pátroclo toma o lugar dela, e o alvo passa a ser Heitor. Segundo, Aquiles aceita o preço com informação completa: Tétis diz que a morte dele vem logo depois da de Heitor, e ele responde que a boa fama vale isso. Terceiro, o canto para para descrever, em mais de cem versos, um escudo que mostra a paz, a justiça, o trabalho e a guerra no mesmo objeto.
O escudo põe lado a lado uma cidade em festa, outra em tribunal, outra em cerco, a lavoura, a vinha, o rebanho e a dança. A guerra aparece na emboscada, e é ali que as potências que a movem entram em cena. Quem vai usar esse objeto acaba de aceitar a própria morte em breve, mas o canto não diz o que Aquiles vê nelas: a descrição é do poeta, e a primeira vez que o herói tem o escudo nas mãos já é no canto seguinte.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.