Memórias do Subsolo, de 1864, prepara Crime e Castigo, de 1866: o homem que ali grita contra o cálculo e o dois e dois são quatro é da mesma família intelectual da conta de Raskólnikov, uma morte contra cem vidas. São livros independentes, mas um ilumina o outro.
O narrador de Memórias ataca a ideia de que o homem age sempre pelo interesse calculável e de que a ciência poderia registrar os atos numa tábua de logaritmos. No romance seguinte, Raskólnikov faz uma conta da mesma família, uma morte contra cem vidas, e a conta o leva ao crime.
Há ainda um paralelo de cena. Em Memórias, o homem do subsolo diz a Liza, aos gritos, o que fez, e ela o abraça. Em Crime e Castigo, Sônia ouve a confissão de Raskólnikov. A moça que escuta um homem que se confessa volta, noutra chave, nos dois livros.
Lido em ordem de publicação, Memórias do Subsolo vem antes de Crime e Castigo e apresenta, em forma de monólogo, o tipo de pensamento que o romance põe em ação. Quem lê os dois nessa ordem vê o mesmo debate passar da teoria para a cena, e reconhece no segundo livro a pergunta que o primeiro deixou aberta: o que um homem faz com a conta que acredita ter feito.