Um romance de 1880 sobre o Rio de 1805 a 1869
Memórias Póstumas de Brás Cubas saiu em folhetim na Revista Brasileira, a partir de março de 1880, e foi reunido em livro em 1881. O narrador, Brás Cubas, nasceu em 1805 e morreu em 1869 (capítulo I), e o mundo que ele conta ainda era o dos leitores: a escravidão era lei no país e só acabaria em 1888, e o Império de Pedro II durou até 1889. Depois de romances de enredo mais convencional, como Iaiá Garcia, de 1878, Machado de Assis fez aqui a virada: um narrador morto, que interrompe a história, zomba do leitor e diz o que os vivos calam. A forma era tão livre que o autor, no prólogo da terceira edição, precisou responder à pergunta se aquilo era mesmo um romance.
Três regimes numa só vida
Brás nasce em 1805, quando o Rio de Janeiro era capital de uma colônia, três anos antes de a corte portuguesa se mudar para lá. Em 1814, aos nove anos, vê a família dar um jantar para celebrar a queda de Napoleão, com salvas e Te-Deum em honra da família real, já instalada na cidade (capítulo XII). Em 1822, aos dezessete anos, vê Marcela na noite das luminárias com que o Rio festejou a independência (capítulo XIV). Depois é mandado a Coimbra, destino dos filhos das famílias ricas, porque só em 1827 o Brasil criaria as suas primeiras faculdades de direito (capítulo XX).
Na morte da mãe, o pai fala da carta de pêsames de um dos Regentes (capítulo XXVI). A cena cai na Regência: depois da abdicação de Pedro I, em 1831, o herdeiro do trono era uma criança, e o país foi governado por regentes até 1840. Damasceno, pai de Nhã-loló, gaba-se de ter feito "a revolução de 1831" (capítulo XCII). A maturidade de Brás é do reinado de Pedro II, e o baile em que ele reencontra Virgília tem data marcada: 1855 (capítulo CXXX).
Cargos, decretos e títulos
No Império, o imperador nomeava os ministros, o governo central nomeava por decreto os presidentes de província, os deputados eram eleitos em votação indireta, com exigência de renda, e os títulos de barão ou marquês eram concedidos pelo imperador. O pai de Brás quer o filho deputado e lhe arranja como noiva a filha de uma "influência política" (capítulo XXVIII). Lobo Neves leva a candidatura e a noiva em poucas semanas, e promete a Virgília o título de marquesa (capítulo XLIII). Mais tarde, Lobo Neves, nomeado presidente de província, recusa o cargo por superstição e, como o ministro não crê em motivos particulares, passa à oposição (capítulo LXXXIII, capítulo LXXXIV). Deputado, tenta chegar a ministro falando da barretina da Guarda Nacional, milícia civil criada em 1831 (capítulo CXXXVII), e perde a cadeira (capítulo CXL).
A escravidão e o tráfico
A sociedade do livro é escravista, e o narrador raramente se detém nisso. No Valongo, região do Rio ligada ao comércio de africanos escravizados, Brás encontra Prudêncio, que o pai dele libertara, castigando a vergalhadas um escravo que comprou (capítulo LXVIII). O tráfico de africanos para o Brasil fora proibido por lei em 1831, mas continuou clandestino por quase vinte anos, até a lei de 1850. O cunhado de Brás, Cotrim, "ferozmente honrado" e tesoureiro de uma confraria, tinha, segundo o narrador, "longamente contrabandeado em escravos" (capítulo CXXIII). Quando o livro saiu, a Lei do Ventre Livre, de 1871, já libertara os filhos de escravas nascidos dali em diante, mas a escravidão seguia de pé.
As ideias do tempo
O Humanitismo de Quincas Borba é a paródia de uma filosofia de sistema: em nome de Humanitas, o homem repartido por todos os homens, a guerra, a fome e o crime viram funções necessárias, e a dor, uma ilusão (capítulo CXVII). A doutrina lembra as teorias de luta pela vida que circularam depois de A Origem das Espécies, de Darwin, de 1859. A morte de Nhã-loló, na "primeira entrada da febre amarela", remete à epidemia que atingiu o Rio a partir de 1849, que Quincas lê como serviço à espécie (capítulo CXXVI).