Sim: o príncipe tem uma doença nervosa que o narrador chama de epilepsia (em russo, padúchaia, de "cair") e que o próprio Míchkin descreve aos vizinhos de vagão como algo no gênero da epilepsia. Dostoiévski deu ao personagem a própria doença.
Os ataques mostrados no livro são dois: na escada do hotel, quando grita "Parfen, não acredito!" ao ver a mão de Rogójin erguida com algo que brilha, e na reunião solene, depois de derrubar o vaso chinês no meio do discurso. Nos dois, o narrador descreve o instante de luz que os precede.
Esse instante é o que há de mais interessante. O príncipe sabe que a luz vem da doença e que o embotamento e a idiotia vêm depois dela, mas não consegue negar o que sentiu: se naquele segundo lhe acontecia dizer a si mesmo que por aquele momento se pode dar a vida inteira, então "esse momento por si só valia a vida inteira". Ele o chama de beleza e de oração.
A doença tem três usos no romance: explica o título, porque na infância os ataques o deixaram quase idiota; salva o príncipe da faca de Rogójin; e levanta a pergunta que o livro não resolve, a de se a bondade dele é escolha ou sintoma. O autor teve uma crise diagnosticada como epilepsia na volta do casamento de 1857, e há duas leituras do que isso dá ao personagem: um modo de conhecer o limite do homem, ou uma desculpa que o livro deixa sempre à mão.