Um romance em folhetim, de 1871 a 1872
O romance saiu no Mensageiro Russo, em folhetim, de 1871 a 1872. Segundo a biografia de Joseph Frank, Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski voltou a Petersburgo em 8 de julho de 1871, com o julgamento do caso Nietcháiev em andamento e as duas primeiras partes de Os Demônios já publicadas, e o folhetim só terminou em 1872. A edição em volume é de 1873 e foi bancada pelo próprio casal, Dostoiévski e a mulher, Anna Grigórievna:
Anna e Dostoiévski publicaram Os demônios por conta própria em 1873, numa tiragem de 3,5 mil exemplares, com lucro de 4 mil rublos na primeira edição.
O caso Nietcháiev
O ponto de partida é um caso real. Em 21 de novembro de 1869, o estudante Ivan Ivánov foi assassinado em Moscou por um grupo revolucionário secreto liderado por Serguei Nietcháiev, e a imprensa só ligou o nome de Nietcháiev ao crime em 29 de dezembro. Dostoiévski deixou de lado o projeto de A vida de um grande pecador para escrever, primeiro como panfleto antiniilista, o romance que viria a ser este. O que o romance faz com o caso, porém, não é reportagem, e Frank marca o limite:
É claro que seu romance não se limita às dimensões reais, um tanto insignificantes, do caso Nietcháiev.
O título e as epígrafes
O título russo é Бесы, "demônios" (tradução nossa). As primeiras versões para o português vieram do francês, Les Possédés, e deram a tradução corrente Os Possessos; as feitas direto do russo adotam Os Demônios.
O livro abre com duas epígrafes: versos de Púchkin sobre viajantes perdidos na tempestade, que veem passar um cortejo e perguntam se é o enterro de um duende ou o casamento de uma bruxa, e a passagem de Lucas 8, 32-36, em que os demônios saem de um homem e entram numa manada de porcos, que se precipita no lago e se afoga. O cronista conta que Sófia Matvêievna, a vendedora de Evangelhos, achou de imediato em Lucas a passagem que ele pôs na abertura de sua crônica (capítulo VII da Terceira Parte). Numa carta a Máikov, escrita um dia depois de despachar os primeiros capítulos, Dostoiévski dá a mesma imagem como tema do livro:
os demônios saíram do homem russo e entraram numa vara de porcos, isto é, nos Nietcháievs e Sierno-Solovióvitches et al. Estes se afogaram ou se afogarão, e o homem curado, de quem os demônios já saíram, senta-se aos pés de Jesus.
O capítulo que a revista recusou
Dostoiévski queria o capítulo «Com Tíkhon», a confissão de Stavróguin, logo depois do capítulo VIII da Segunda Parte. Katkov, editor do Mensageiro Russo, o recusou por demasiado realista; o autor tentou variantes mais brandas e por fim decidiu manter a substância, e o texto só veio a público em 1922, achado entre seus papéis. É por isso que as edições costumam trazê-lo como apêndice, no fim do livro.