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Os Demônios · Segunda Parte

O sistema de Chigalióv

Resumo da parte

Uma reunião de quinze pessoas que não sabem se estão numa reunião e uma caminhada na lama: nesses dois capítulos Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski mostra pela primeira vez o que quer. Em casa de Virguinski ele deixa os convidados votarem sem definir o que votam, deixa Chigalióv ler um sistema que parte da liberdade ilimitada e termina no despotismo ilimitado, e apara as unhas enquanto se discute a sorte de nove décimos da humanidade. Só larga a displicência para fazer uma pergunta: quem denunciaria um assassinato político? Na rua, longe da plateia, a mesma pessoa suplica, ameaça, elogia o sistema de Chigalióv para logo desprezá-lo como joalheria e revela o plano que importa: lançar Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin como Ivan Czariêvitch, o príncipe escondido de quem o povo esperaria a nova verdade. A questão que atravessa os dois capítulos é a distância entre o sistema e o seu uso. Chigalióv chega ao despotismo contra a vontade e não sabe o que fazer com a conclusão; Piotr não precisa de conclusão nenhuma, usa o que os outros produzem (o desespero lógico de um, a vaidade e o medo de todos) para atar o grupo e escolher quem sai dele.

Capítulo VII: A reunião na casa de Virguinski

Resumo do capítulo

Virguinski mora na casa de madeira da mulher, a parteira Arina Prókhorovna, e o aniversário dele é só pretexto: umas quinze pessoas, duas mesas juntas, dois samovares, nem petiscos nem baralho, uma disposição de cadeiras em que já se pressente uma sessão. O cronista explica que os convidados foram escolhidos a dedo por Virguinski entre o que a cidade tinha de liberalismo mais vermelho e que quase todos tomam Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski por um emissário estrangeiro com plenos poderes, ideia que pegou de imediato e lisonjeia. Quando ele entra com Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, a sala se cala. A noite que se segue é uma sessão que ninguém sabe se é uma sessão. Começa com uma briga entre uma estudante recém-chegada de Petersburgo, um ginasiano e um major, tio dela, sobre aniversários e a questão feminina, até que o professor coxo pergunta se aquilo é mesmo uma sessão. A votação sai tão confusa que Liámchin é posto a tocar valsa ao piano, para que quem escute da rua ouça só música de festa, e por fim aclamam a sessão e escolhem o dono da casa para presidente. Os convidados discutem Deus e a família como estudantes, votam sem saber o que votam, e Chigalióv expõe o sistema dele, que parte da liberdade ilimitada e termina no despotismo ilimitado, com um décimo da humanidade mandando nos outros nove. Piotr, que apara as unhas durante a leitura, responde a tudo com ironia e então faz a pergunta que lhe importa: quem denunciaria um assassinato político? Todos dizem que não, menos Chátov, que sai sem responder e, ao ouvir que isso não lhe convém, devolve a acusação a Piotr e o chama de espião e canalha. Stavróguin e Kiríllov saem sem responder; Piotr corre atrás e exige que Stavróguin vá à casa de Kiríllov, onde ele também irá.

Análise

Entre os convidados está o quinteto que Piotr moldou na cidade, como já fizera em Moscou e entre os oficiais do distrito: Lipútin, o próprio Virguinski, Chigalióv, irmão da dona da casa e conhecido como o de orelhas compridas, Liámchin e um certo Tolkatchenko, que se gaba de conhecer o povo e frequenta botequins. Os cinco nasceram magoados: entraram sem crítica, por pudor de que se dissesse depois que não ousaram, e logo se ofenderam com a própria pressa, porque Piotr os trata com severidade e displicência e não lhes concede nem uma anedota de recompensa. Chigalióv já quer cobrar satisfações, mas não ali, diante de tanta gente. O que mantém o quinteto de pé é a fé que o cronista descreve:

Все эти пятеро деятелей составили свою первую кучку с теплою верой, что она лишь единица между сотнями и тысячами таких же пятерок, как и ихняя, разбросанных по России, и что все зависят от какого-то центрального, огромного, но тайного места, которое в свою очередь связано органически с европейскою всемирною революцией, todos esses cinco militantes formaram o seu primeiro grupinho com a fé calorosa de que era só uma unidade entre centenas e milhares de quintetos iguais ao deles, espalhados pela Rússia, e de que todos dependiam de algum lugar central, enorme mas secreto, ligado por sua vez, organicamente, à revolução mundial europeia.

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Capítulo VIII: Ivan Czariêvitch

Resumo do capítulo

Piotr desiste de conter o caos da sala e, por um atalho em que afunda na lama até os joelhos, chega à casa de Filippov no momento em que Stavróguin e Kiríllov passam o portão. Kiríllov o recebe sem surpresa; Stavróguin lembra que ele dissera morar sozinho, e Kiríllov responde que já verá com quem. Piotr tira do bolso a carta anônima que pegou com Andrei Antónovitch von Lembke e a põe diante de Stavróguin: o patife, o capitão Lebiádkin, fará como escreveu e irá a Lembke amanhã, e como está à disposição de Stavróguin, que ele diga como proceder. Pede mil e quinhentos, ou dois mil, rublos para despachá-lo a Petersburgo, com Mária Timofêievna, se Stavróguin quiser. Stavróguin recusa o dinheiro e recusa mandar a mulher embora, e diz a Piotr que não lhe entrega Chátov; Piotr, que quer o sangue de Chátov para atar os grupos, passa da ordem à súplica, jura que traz uma faca na bota e promete fazer as pazes. Na rua, quase sem fôlego, resume o sistema de Chigalióv em imagens de mutilação e o despreza logo depois como obra de ourives, beija a mão de Stavróguin e revela o plano: ele será Ivan Czariêvitch, o príncipe oculto que a Rússia, depois de uma ou duas gerações de depravação e de incêndios, receberá como salvador. Stavróguin chama aquilo de insensatez e pergunta para quê; Piotr confessa que o inventou olhando para ele, e Stavróguin sobe a escada sem responder, com três dias de prazo.

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