Clavis Libri

Os Demônios

Enredo

O livro inteiro, do começo ao fim. Para o resumo e a análise de cada parte, abra as partes.

Numa cidade de província russa, a casa da rica Varvara Pietrovna Stavróguina vê voltar o filho, Nikolai Vsievolódovitch, e chegar, no mesmo dia, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, filho do velho Stiepan Trofímovitch, protegido dela. Ao longo de poucas semanas, a partir de um domingo de setembro, a cidade que condenara Nicolas por escândalos passa a absolvê-lo por uma frase, e é nesse campo que Piotr, um agitador que diz falar por uma rede revolucionária mundial, monta um quinteto, prepara o assassinato de Chátov e deixa a conta para os outros. A história é movida por uma pergunta (como uma sociedade respeitável abre caminho para gente assim) e por uma teia de dívidas: Stavróguin e a mulher coxa Mária Timofêievna, com quem se casou em segredo; Liza Tuchina, que o ama e o odeia; Kiríllov e Chátov, que levam a sério as ideias que dele receberam; Stiepan, pai e mestre dos dois rapazes que o romance põe em cena. O arco vai do retrato do pai ao salão em que tudo se expõe, passa pelo sistema de Chigalióv, pela confissão a Tíkhon, pelo incêndio e pela noite no parque, e termina em quatro fins: a estrada de Stiepan, Marie e o menino, Kiríllov e Stavróguin no sótão.

Primeira Parte: a genealogia

O cronista, morador da cidade e confidente de Stiepan Trofímovitch, abre a narração pelo retrato do professor: um liberal idealista que se imagina perseguido sem nunca ter sido vigiado, que não escreveu a obra que prometia e que vive há mais de vinte anos de uma amizade com Varvara Pietrovna, que o inventou e foi a primeira a crer na invenção; no círculo dele estão Lipútin, Virguinski, Liámchin e Chátov, ex-servo dela e ex-aluno do professor, que lhe diz na cara que a geração dele nunca amou o povo e que quem não tem povo não tem Deus (capítulo I). Varvara tem outro apego, o filho, Nikolai Stavróguin, educado por Stiepan e voltado do exterior como o príncipe Harry de Shakespeare, de rosto belo demais, que o cronista compara a uma máscara; seis meses depois da volta ele puxa o velho Gagánov pelo nariz no clube, beija na boca, diante de todos, a mulher de Lipútin e morde a orelha do governador, e a cidade, para não admitir que um homem lúcido a humilhou, chama de doença o que viu. Depois de mais de três anos de viagem dele e de uma charada trazida por Praskóvia Ivánovna Drózdova sobre uma briga entre ele e a filha Liza, Varvara decide numa noite casar Stiepan com a pupila Dária Pávlovna, e o convence pela dívida que ele tem com o filho Piotr, ainda ausente (capítulo II). Na semana de espera, Stiepan se envergonha, não vê a noiva e ouve de Lipútin rumores sobre dinheiro mandado da Suíça aos Lebiádkin e sobre as perguntas de Varvara a respeito da sanidade do filho, até dizer ao cronista que não pode casar com «pecados alheios»; aparecem Karmazínov, o grande escritor, Lizavieta Nikoláievna a cavalo, que beija o professor na testa, e Kiríllov, o engenheiro que procura saber por que ninguém se mata e para quem Deus é a dor do medo da morte (capítulo III). No dia seguinte Liza propõe a Chátov uma sociedade para um livro anual e fala de tipografia, e ele sai da sala; à noite, em casa dele, Chátov conta a viagem à América e o nome de quem lhe mandou cem rublos, Nikolai Stavróguin, e leva o cronista à casa dos Lebiádkin, onde Mária Timofêievna, a mulher coxa, fala de um filho que jogou no lago; no domingo ela se ajoelha diante de Varvara no adro da catedral, é levada para a casa dela, e Varvara, ao vê-la andar, exclama: «A senhora manca!» (capítulo IV). No salão de Varvara, Piotr chega falando sem parar e Nikolai entra: a mãe lhe pergunta se Mária é sua esposa legítima, e ele responde beijando-lhe a mão sem dizer palavra, e diz a Mária que é um estranho, nem marido, nem pai, nem noivo, e a leva à carruagem. Enquanto ele está fora, Piotr oferece a Varvara uma «anedota» que só faz honra a Nicolas, e o capitão Lebiádkin a confirma ponto por ponto; ao voltar, Nicolas ouve Piotr ler em voz alta a carta do pai sobre «pecados alheios», Varvara expulsa Stiepan, Chátov atravessa a sala e bate em Nicolas, que o agarra pelos ombros, solta-o e cruza as mãos atrás das costas, e Liza desmaia (capítulo V).

Segunda Parte: a conspiração

Oito dias depois, numa segunda-feira à noite, Piotr é recebido por Stavróguin e anuncia uma tática nova: agora tudo depende da vontade dele. Stavróguin pede a Kiríllov que seja padrinho num duelo com Gagánov, e Kiríllov lhe fala de minutos em que o tempo para e do homem-Deus; sobe a Chátov, avisa-o de que o querem matar, declara que Mária Timofêievna é sua esposa legítima, ouve a tese do povo que carrega Deus e a cadeia de «creio» que não nomeia Deus, e recebe dele a indicação de visitar o bispo Tíkhon (capítulo I). Na ponte, Fiedka, servo fugido da Sibéria, oferece-se para resolver o problema dos Lebiádkin por mil e quinhentos rublos sem nunca dizer o verbo; o capitão ouve que o casamento será tornado público em dois dias, e Mária Timofêievna, acordada, chama Stavróguin de impostor e de Grichka Otriépiev, o falso Dmítri (capítulo II). No bosque, Gagánov atira três vezes e Stavróguin, que não quer matar ninguém, responde duas vezes para o alto e uma para o bosque, o que Gagánov toma por nova ofensa; Kiríllov lhe diz que ele procura fardos, e em casa Dária Pávlovna lhe diz que no fim ficará só ela com ele (capítulo III). Uma frase de Yúlia Mikháilovna von Lembke, a governadora, faz a cidade passar a admirar Stavróguin, porque ele não podia desafiar para um duelo um antigo servo seu; Piotr humilha o pai, chamando-o de agregado, e cerca o governador Andriêi Antónovitch von Lembke com a lógica do próprio liberalismo dele (capítulo IV). Enquanto Yúlia prepara a festa, os jovens do círculo dela riem de tudo: um ícone da Natividade é assaltado e Liza se ajoelha na calçada suja, um rapaz de dezenove anos se mata num quarto de hotel e as damas vão olhar, e diante do louco de Deus Semión Yákovlievitch Liza manda o noivo, Mavrikii Nikoláievitch, ajoelhar-se e o levanta aterrorizada; em Skvoriéchniki, Varvara oferece a Stiepan três mil rublos por ano para viver longe dela, e ele promete ler na festa sobre a Madona Sistina (capítulo V). Em um só dia Piotr dá a Lembke o nome de Chátov e a promessa de que o movimento cabe em sete pessoas, dá a Karmazínov a data da ruína da Rússia, cobra de Kiríllov a morte combinada, e Mavrikii Nikoláievitch cede a noiva a Stavróguin e ouve dele que é casado; a caminho da reunião, explica a Stavróguin o cimento do grupo, a vergonha de ter opinião própria, e Stavróguin, rindo, sugere prender um grupo fazendo quatro matarem o quinto (capítulo VI). Na casa de Virguinski, numa reunião que ninguém sabe se é sessão, o quinteto que Piotr moldou (Lipútin, Virguinski, Chigalióv, Liámchin e Tolkatchenko) ouve Chigalióv ler o sistema que parte da liberdade ilimitada e termina no despotismo ilimitado, o professor coxo resumi-lo em um décimo que manda e nove décimos que obedecem, e Piotr arrancar um sim a uma ação sem dizer qual e perguntar quem denunciaria um assassinato político; Chátov sai sem responder (capítulo VII). Na volta da casa de Kiríllov, pela rua, Piotr suplica, ameaça, exalta o sistema de Chigalióv e o despreza como obra de ourives, e revela o plano de fazer de Stavróguin o Ivan Czariêvitch, o pretendente que se oculta e de quem o povo esperaria a verdade nova: «Eu o inventei no estrangeiro», diz, e lhe dá três dias (capítulo VIII).

«Com Tíkhon», que o autor queria neste ponto, foi recusado pela revista em que o romance saía e publicado à parte. Na manhã seguinte à noite do capítulo VIII, Stavróguin leva ao bispo aposentado Tíkhon, num mosteiro da cidade, o documento «De Stavróguin», a confissão do que fez a uma menina em Petersburgo e da morte dela, que pensa imprimir e distribuir. Tíkhon diz que não há crime maior, aponta no texto um tom de desafio, nomeia o risco que Stavróguin não mediu, o riso dos leitores, propõe no lugar da publicação uma obediência longa e secreta e, diante da recusa, prevê que ele cometerá outro crime para não ter de confessar («Com Tíkhon»).

Na mesma manhã, um funcionário do governador leva os papéis de Stiepan, que manda acender uma lamparina diante do ícone para a polícia ver e teme menos a Sibéria que o vexame de ser solto e suspeitado por Varvara a vida inteira (capítulo IX). Setenta operários da fábrica Chpigúlin vão à casa do governador, e Lembke, que perdera o controle na madrugada, grita «De joelhos!» e pede varas, enquanto Stiepan chega a ele para exigir os próprios direitos; no salão de Yúlia, Liza pergunta em voz alta a Stavróguin sobre o capitão Lebiádkin, e ele responde diante da mãe e da cidade que é marido da irmã do capitão há quase cinco anos (capítulo X).

Terceira Parte: o desastre

A matinê de Yúlia começa como festa e acaba em escândalo: o capitão Lebiádkin aparece bêbado no palco e Lipútin lê versos dele, Karmazínov lê o «Merci» de despedida, e Stiepan, que sobe para reconciliar as gerações com um elogio da beleza acima do pão, é vaiado e acusado por um seminarista de ter perdido no baralho o servo que virou Fiedka; um professor desonra a Rússia aos aplausos (capítulo I). Stiepan se tranca e se despede do cronista; Yúlia chora diante de Piotr, que lhe conta que Liza partiu com Stavróguin para Skvoriéchniki; o baile, sem as famílias, tem uma quadrilha da literatura e um editor que cai de cabeça para baixo, Lembke manda prender a primeira, isto é, a própria mulher, e o grito de que o Zariétchie arde em três pontos esvazia o salão; Lembke, sem chapéu, grita que o incêndio está nas mentes e é derrubado por uma tábua, e ao amanhecer acham-se mortos a faca o capitão Lebiádkin, Mária Timofêievna e a criada, na casa que Stavróguin alugara (capítulo II). Em Skvoriéchniki, Liza recusa ser a enfermeira de Stavróguin e lhe fala de uma aranha enorme; Piotr traz a notícia dos mortos e jura que não os mandou matar, porque Fiedka aproveitou o dinheiro que Lebiádkin exibia; Liza pergunta a Stavróguin se é culpado, e ele responde que não matou e era contra, mas sabia e não deteve os assassinos. Ela vai ver os corpos e, na multidão, a mão de alguém a derruba (capítulo III).

No dia seguinte, na casa do alferes Erkel, o quinteto se rebela contra o despotismo de Piotr, que vira o jogo com uma denúncia inventada de Chátov e propõe matá-lo, jogando a culpa em Kiríllov, que prometeu se matar; Chigalióv devolve a Piotr o programa de propaganda e incêndios que ele mesmo traçou, e a revolta cede em dez minutos; na casa de Kiríllov, Fiedka cobra de Piotr o dinheiro prometido e o chama de ateu, e Piotr, que saca o revólver, é derrubado a socos (capítulo IV). Marie, a mulher de Chátov, volta a ele doente e grávida, dizendo que não veio se arrepender; Chátov corre a Kiríllov, que lhe fala dos segundos de harmonia eterna, e à parteira Arina Prókhorovna, e nasce um menino, a quem Marie dá o nome de Ivan (capítulo V). No parque dos Stavróguin, Piotr e o quinteto matam Chátov a tiro e atiram o corpo ao lago com pedras amarradas; Virguinski grita que não é isso, Liámchin guincha como um bicho, Chigalióv recusa o assassinato e vai embora. Piotr dita a Kiríllov o bilhete que assume o crime, e Kiríllov, que diz que se não há Deus ele é Deus, atira em si depois de uns dez «já» e de morder o dedo de Piotr; Piotr embarca de trem para Petersburgo (capítulo VI).

Stiepan sai a pé pela estrada, conhece Sófia Matvêievna, que vende Evangelhos, adoece numa estalagem, confessa que mentiu a vida inteira e pede a passagem dos porcos, que aplica à Rússia, a si e ao filho; Varvara chega, expulsa e chama de volta Sófia Matvêievna, e ele morre confessado e comungado, depois de uma profissão de fé sobre o amor e a imortalidade (capítulo VII). Marie, que viu Kiríllov morto, corre à rua com o menino, dizendo que mataram o marido, e morre com ele do frio e do pânico; Liámchin entrega tudo às autoridades, Virguinski e Erkel são presos, Lipútin e Tolkatchenko fogem e são presos depois, e Piotr, no exterior, passa em três meses por gênio. Stavróguin escreve a Dária Pávlovna que a chama para a Suíça e que teme o suicídio como último engano; Varvara e Dária correm a Skvoriéchniki e o acham enforcado no sótão, com um bilhete que diz só que ninguém seja culpado, e os médicos descartam a loucura (capítulo VIII).

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