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Os Demônios · Primeira Parte

Os fios se atam

Resumo da parte

Estes dois capítulos fazem o romance andar. Cada um fala do que não sabe de primeira mão e atribui ao outro o que lhe falta: Stiepan Trofímovitch teme que a noiva traga os "pecados alheios" de Nicolas, Lipútin carrega notícias que não verificou, Kiríllov defende uma teoria da dor e do medo que só aceita expor a um desconhecido, Lizavieta Nikoláievna procura uma causa para gastar dinheiro e energia, Chátov guarda um nome e uma dívida, e Mária Timofêievna fala de um filho que talvez nunca tenha existido. Em todas as pontas está Nikolai Stavróguin, ausente, que só aparece em frases de terceiros. O efeito é o de fios que se atam: o dinheiro enviado da Suíça, o casamento de Dária Pávlovna, a mulher coxa, a tipografia, a pergunta de Varvara Pietrovna sobre a sanidade do filho. Os capítulos fecham com a mulher coxa de joelhos diante de Varvara Pietrovna, e com o espanto da própria Varvara Pietrovna, que só então percebe que a mulher manca.

Capítulo III: O noivo e os pecados alheios

Resumo do capítulo

Passa uma semana e o noivado de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski continua sem forma. O cronista vive esses dias ao lado do amigo, como o confidente mais próximo, e o que mais pesa em Stiepan é a vergonha: sai só ao anoitecer, supõe que a cidade inteira já sabe e se envergonha até do cronista, de modo que quanto mais se abre, mais se irrita com quem o ouve. Não sabe se é noivo, não viu a noiva, não sabe sequer se há algo sério em tudo aquilo. Varvara Pietrovna Stavróguina se recusa a recebê-lo; a uma das primeiras cartas responde pedindo que a poupe por um tempo de qualquer contato, porque está ocupada, e promete devolver as seguintes sem abrir. Por trás de tudo está uma preocupação que ele não confessa nem ao cronista, e que o cronista, mais jovem e indignado, já adivinhou e julga indigna dele. Até o domingo, a espera se enche de fios. O cronista vê Karmazínov, o escritor célebre que Varvara Pietrovna quer receber com todo luxo e que a faz esquecer o professor. Lipútin chega com o engenheiro Kiríllov e, ao sair, solta as novidades que envenenam Stiepan: Varvara Pietrovna lhe perguntou se o filho Nikolai é são ou louco, o capitão Lebiádkin chicoteia a irmã doente, e Nicolas teria mandado da Suíça, por Dária, uma quantia de que ela ficou com parte. Stiepan, que já temia isso, conclui que querem casá-lo com Dária para encobrir uma ligação dela com Nicolas, e diz em voz alta o que sente: não pode casar com os pecados de outro. Minutos depois Liza, que não o via havia doze anos, o encontra na rua, abraça-o sem reservas e vai à casa dele pedir que lhe traga Chátov para um projeto seu, o único consolo da semana. À noite o cronista ouve de Kiríllov a teoria do suicídio e do medo, e é abordado pelo capitão bêbado, que recita versos para Liza. Stiepan recebe de Varvara Pietrovna o bilhete que marca, para o domingo ao meio-dia, a resposta definitiva.

Análise

Quando o cronista pergunta por que ela estaria zangada agora que ele fez o que ela pediu, Stiepan responde com uma finura rara nele: se tivesse recusado, ela ficaria furiosa, mas menos do que agora que aceitou. Duas leituras cabem: a docilidade dele a irrita porque lhe tira o que combater, ou porque lhe mostra que ele aceita ser entregue a outra sem resistir. De um jeito ou de outro, ele percebe que o consentimento não a aplacou.

Ele não vai ver os Drózdov, que o esperam, e fala de Lizavieta Nikoláievna Tuchina com um entusiasmo que o cronista não entende: imagina que perto dela achará alívio para todos os tormentos e resolverá as dúvidas mais graves. O próprio cronista, que a vê passear a cavalo, de amazona, com um oficial bonito que passa por parente, gostaria de ser apresentado, e só Stiepan poderia fazê-lo. Uma circular avisa à cidade que o professor está ocupado numa correspondência atrasada de Varvara Pietrovna. Só Lipútin escapa do aviso, e o cronista, que o teme, topa com ele na rua: Lipútin não pergunta nada e despeja as novidades da cidade, a governadora e suas conversas novas, a oposição que se forma no clube. À noite, ao saber que os dois se cruzaram, Stiepan faz uma pergunta absurda, se Lipútin sabe ou não, e conclui que ele sabe tudo e ainda algo a mais, que ninguém mais sabe e que talvez só descubram quando for tarde.

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Capítulo IV: A mulher coxa

Resumo do capítulo

No dia seguinte, ao meio-dia, Ivan Chátov não se faz de rogado e vai à casa de Lizavieta Nikoláievna Tuchina; o cronista chega junto, para a sua primeira visita. Na sala grande Liza, a mãe e Mavrikii Nikoláievitch discutem por causa de uma valsa. Praskóvia Ivánovna, doente, de pernas inchadas, procura por toda parte "o professor", quer saber se havia um inglês na cidade quatro anos atrás e conclui que, se não houve Harry, não houve inglês: só Nicolas farreou. Chama o cãozinho Zemirka, que se esconde sob o divã, e sai zangada. Liza leva Chátov ao sofá e deixa o cronista a conversar com Mavrikii Nikoláievitch.

Liza tem um projeto: um livro anual que reúna e classifique os fatos publicados nos jornais russos, por meses e dias, para pintar a vida moral do povo russo naquele ano, sem tendência, só com imparcialidade. Explica-o com pressa e sem clareza, e Chátov, de olhos no chão, objeta que escolher fatos já é dar uma direção, e aos poucos se interessa, os olhos brilham. Ela oferece sociedade em partes iguais: ele o plano e o trabalho, ela a ideia e o dinheiro; diz que foi Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, na Suíça, quem lhe falou dele, e Chátov a olha de relance e baixa os olhos. Quando acrescenta que Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin também lhe falou muito dele, Chátov enrubesce. Ela lhe entrega um maço de jornais marcados e pergunta onde mora; ele diz que na casa de Filíppov, e Liza pergunta pelo capitão Lebiádkin, que mora ali perto. Chátov fica um minuto sem responder, com o maço no ar, e diz, quase num sussurro, que para esse tipo de coisa ela deveria escolher outro. Liza se acende: de que coisas ele fala? Pede a Mavrikii a carta da véspera e o cronista a lê em voz alta. São versos e uma prosa do capitão, que chama Liza de Elisaveta Tuchina e canta o cabelo dela ao vento, e uma carta humilhada em que ele se diz uma infusória diante do sol, afirma que a ideia de casamento pareceria ridícula, mas que logo terá as duzentas almas por meio de um misantropo que ela deve desprezar, e se oferece para revelar muito, "por documentos", até na Sibéria.

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