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Os Demônios · Primeira Parte

O pai dos demônios

Resumo da parte

Estes capítulos armam uma genealogia antes de armar um enredo. O cronista, um morador da cidade que é amigo e confidente de Stiepan Trofímovitch, conta a vida do professor como quem desmonta uma pose: um homem que se imagina perseguido sem nunca ter sido vigiado, que não escreveu a obra que prometia e que se mantém de pé, ou deitado, pela mão de uma mulher que o inventou. Dessa dupla saem os dois filhos que o romance vai pôr em cena. O pupilo, Nikolai Stavróguin, volta de Petersburgo como o príncipe Harry de Shakespeare e logo mostra as garras na cidade, num clube, numa festa e no gabinete do governador. O filho de sangue, Piotr, só aparece por uma carta que cobra dinheiro. Os dois pais, o que fala e o que manda, não percebem o que estão criando. A pergunta que atravessa os capítulos é quanto de cada personagem foi inventado por quem o olha, e o que acontece quando a invenção deixa de obedecer.

Capítulo I: O liberal idealista

Resumo do capítulo

O cronista, morador da cidade e confidente do professor, abre a narração dizendo que, por inabilidade sua, precisa começar de longe: o retrato de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, "talentoso e muito reverenciado", servirá de introdução, e a história propriamente dita fica para depois. Fala sempre como um "nós" da cidade, e é por esse "nós" que o professor é visto: um homem que desempenhava um papel público e o amava. O que o cronista conta, na ordem, é a vida de alguém sustentado por uma mulher. Stiepan acredita ter sido perseguido pelas autoridades, mas nunca esteve exilado nem sob vigilância; o que fez de concreto foi pouco, umas conferências, uma tese sobre uma cidade alemã, um estudo que não terminou e um poema de juventude que circulou sem que ele soubesse. Ele aceita o convite de Varvara Pietrovna Stavróguina, rica e mulher de um general, para educar o filho dela, e passa mais de vinte anos na órbita dela, numa amizade de cartas diárias, brigas e reconciliações em que ela o governa e ele a trata ao mesmo tempo como tirana e como mãe. Ela o veste, o sustenta, o protege de qualquer desgosto e não perdoa nenhuma ofensa feita a ele nem por ele. Um inverno em Petersburgo, em que os dois tentam voltar ao mundo literário e saem humilhados, e uma viagem a Berlim, que ele interrompe depois de quatro meses, mostram que Stiepan não existe longe da proteção dela. Em volta do professor se forma um círculo de província, com Lipútin, Chátov, Virguínski e outros, que fala do futuro da Rússia sem que isso custe nada a ninguém. O capítulo termina numa discussão em que Chátov, antigo aluno de Stiepan, o acusa de nunca ter conhecido o povo que dizia amar.

Análise

Скажу прямо: Степан Трофимович постоянно играл между нами некоторую особую и, так сказать, гражданскую роль и любил эту роль до страсти, — так даже, что, мне кажется, без нее и прожить не мог, digo logo: Stiepan Trofímovitch sempre desempenhou entre nós um certo papel especial e, por assim dizer, cívico, e amava esse papel até a paixão, a ponto de me parecer que sem ele nem viver poderia.

O cronista abre pela paixão do papel e não pela biografia, e já aí a ironia trabalha: jura respeitar o homem no mesmo parágrafo em que o compara a Gulliver, que de volta de Lilipute gritava para os cocheiros de Londres que saíssem da frente. A voz não é nem hostil nem cúmplice por inteiro, e é isso que faz o retrato render mais que uma sátira reta.

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Capítulo II: O príncipe Harry e o casamento arranjado

Resumo do capítulo

Havia no mundo, além de Stiepan, outra pessoa a quem Varvara Pietrovna era apegada: o filho único, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin. Stiepan foi chamado para educá-lo quando o menino tinha uns oito anos e o pai, general leviano, já vivia separado da mulher, e o conquistou porque ele próprio era uma criança: acordava o pupilo de dez ou onze anos à noite para chorar suas mágoas ou contar segredos de casa, e os dois se abraçavam em lágrimas. O menino sabia que a mãe o amava e dificilmente a amava de volta; sentia no corpo o olhar fixo dela. O mestre, diz o cronista, tocou-lhe as cordas mais fundas e despertou a primeira sensação, ainda vaga, daquele eterno e sagrado anseio melancólico que uma alma escolhida, depois de prová-la, não troca mais por satisfações baratas. Aos dezesseis anos o rapaz foi levado ao liceu, franzino, pálido e estranhamente quieto; só mais tarde ficaria conhecido pela força física.

Saído do liceu, entra por desejo da mãe na cavalaria da Guarda, é recebido nos melhores salões de Petersburgo e, de repente, começam a correr notícias de desregramento: gente atropelada por cavalos de trote, um ato selvagem contra uma dama com quem tinha ligação e a quem ofendeu em público, a fama de provocador de duelos. Stiepan tranquiliza a mãe com o exemplo de Harry em Shakespeare, o príncipe que farreava com Falstaff; Varvara Pietrovna, em vez de gritar "bobagem!" como ultimamente faz, escuta, lê a crônica com atenção e não se tranquiliza. Vem a notícia de dois duelos quase seguidos, um adversário morto no ato e outro aleijado; ele vai a julgamento, é rebaixado a soldado, com perda de direitos, e mandado a um regimento de infantaria. Em 1863 se distingue e é promovido a oficial; Varvara Pietrovna, que escreveu cerca de cem cartas e se humilhou, o vê pedir baixa e sumir: vive entre bêbados, funcionários descalços e militares reformados, em covis de Petersburgo, e parece gostar. A mãe o convence a voltar, e o príncipe Harry aparece na cidade aos vinte e cinco anos.

O cronista o vê pela primeira vez e se espanta: esperava um farrapo cheirando a vodca e encontra o cavalheiro mais elegante que já viu. A cidade se divide entre quem o adora e quem o odeia até o sangue, mas todos enlouquecem por ele, umas por suporem nele um segredo fatal, outras por gostarem de que seja um assassino. Todos o acham, de saída, notavelmente ajuizado. Seis meses depois, ele puxa um velho do clube pelo nariz, beija diante de todos a mulher de Lipútin e morde a orelha do governador; a cidade, que prefere vê-lo doente a admitir que um homem lúcido a humilhou, aceita o diagnóstico de delírio, e a mãe o manda para a Itália. Anos depois, vendo que o filho se liga à filha dos Drózdov e logo se afasta dela, Varvara Pietrovna resolve casar a pupila Dária com Stiepan, para tirar de si uma suspeita e para quitar a dívida dele com o filho Piotr.

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