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Os Demônios · Com Tíkhon

A confissão suprimida

Análise

Dostoiévski queria este capítulo depois do capítulo VIII da Segunda Parte, mas o redator da revista em que o romance saía em folhetim, Mikhail Katkov, o recusou terminantemente; o autor o leu a Pobiedonóssietz, homem de confiança do czar, e aos críticos Máikov e Strakhóv, que o acharam real demais, tentou refazê-lo várias vezes (só o encontro com Tíkhon teve oito esboços) sem se afastar do essencial, e o texto não foi divulgado em vida dele. As edições costumam por isso trazê-lo como apêndice, no fim do livro.

Na manhã que segue a noite do capítulo VIII, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin atravessa a cidade, cruza uma coluna de operários e entra num mosteiro com três folhetos impressos no bolso. Entrega-os ao bispo aposentado Tíkhon para que os leia: é a confissão de algo que fez em Petersburgo anos antes, escrita sem poupar nada. O que vem depois não é absolvição nem condenação. Tíkhon lê, diz que não há crime maior do que aquele, diz que o texto tem um vício, o tom de desafio que o acompanha, nomeia o risco que Stavróguin não mediu, o riso, propõe trocar a publicação por uma obediência longa e secreta e, quando Stavróguin recusa, prevê que ele cometerá outro crime para não ter de confessar. A pergunta que o capítulo deixa aberta é a que o resto do romance responde sem dizê-lo: o que se faz com uma confissão verdadeira quando o mundo só sabe recebê-la como espetáculo, pelo ódio ou pelo riso.

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