Primeira Parte: O pai dos demônios
Que ele acabou virando para ela um filho, uma criatura sua, até, dá para dizer, uma invenção sua [...] Ela o inventou, e foi a primeira a crer na invenção que fez.
Explicação e análise
No primeiro capítulo, o cronista, morador da cidade e confidente do professor, conta a vida de Stiepan Trofímovitch: um homem de pose cívica que nunca escreveu a obra prometida e há mais de vinte anos vive sustentado por Varvara Pietrovna Stavróguina. Depois de descrever as cartas que ele lhe manda mesmo morando na mesma casa, e a caixinha em que ela as guarda separadas, o cronista tenta entender o que a prende a ele. A frase vem como resposta.
O cronista desfaz a explicação que o próprio Stiepan dá, a de que ela o mantém por vaidade ou por inveja do talento dele. Ela o tornou seu: ele virou uma criatura sua, quase uma invenção, e ela foi a primeira a acreditar no que inventou. Por isso passa vinte e dois anos guardando a reputação dele de cada grão de poeira e exige em troca, às vezes, servidão. Quem inventa uma pessoa precisa que a invenção fique de pé, porque duvidar dela seria duvidar de si. O livro vai repetir o gesto em escala maior, com outras pessoas inventadas por quem as olha, e vai mostrar o que acontece quando a invenção deixa de obedecer.
O texto deixa duas leituras. Sob o ódio frequente, o cronista enxerga um amor insuportável, o de quem não consegue largar o que fez. Mas a frase também descreve uma posse: o que ela ama é a criatura que obedece à sua ideia, e não o homem.
O "liberalismo superior" e o "liberal superior", isto é, o liberal sem objetivo nenhum, só são possíveis na Rússia.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 52 citações de Os Demônios está na assinatura.
Não se pode amar o que não se conhece, e eles não entendiam nada do povo russo [...] E quem não tem povo não tem Deus.
Explicação e análise
Os cabelos dele eram pretos demais, os olhos claros tranquilos e límpidos demais, a tez delicada e branca demais, o rubor vivo e puro demais, dentes como pérolas, lábios como corais: parecia um belo de pintura e, ao mesmo tempo, como que repugnante. Diziam que o rosto lembrava uma máscara.
Explicação e análise
Sou egoísta, seja você também egoísta. Eu não obrigo; tudo depende da sua vontade, o que você disser será feito.
Explicação e análise
Por que será que todos esses socialistas e comunistas desesperados são ao mesmo tempo avarentos incríveis, acumuladores, proprietários, e a tal ponto que quanto mais socialista, quanto mais longe foi, mais forte é proprietário...
Explicação e análise
Primeira Parte: Os fios se atam
Não posso, afinal, casar com «pecados alheios»!
Explicação e análise
Ele não existe, mas existe. Na pedra não há dor, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Quem vencer a dor e o medo, esse mesmo se tornará deus.
Explicação e análise
Assim é, disse ela: a Mãe de Deus é a grande mãe, a terra úmida, e nisso há para o homem uma grande alegria. E toda angústia da terra e toda lágrima da terra são alegria para nós.
Explicação e análise
E o que mais me faz chorar é isto: que o dei à luz e não conheço o marido.
Explicação e análise
Como! A senhora manca!
Explicação e análise
Primeira Parte: A bofetada
Pense que a senhora é uma moça, e eu, ainda que seja o seu amigo mais dedicado, sou para a senhora, mesmo assim, uma pessoa de fora: não sou marido, nem pai, nem noivo.
Explicação e análise
Mas notem, notem, senhora, a barata não se queixa!
Explicação e análise
Piotr Stiepánovitch é o conciliador universal; esse é o papel dele, a doença dele, o cavalo de batalha [...] como realista, ele não pode mentir, e a verdade lhe é mais cara que o sucesso... exceto, claro, nos casos particulares em que o sucesso é mais caro que a verdade.
Explicação e análise
A mais repulsiva e a mais assustadora que possa haver.
Explicação e análise
Segunda Parte: A noite dos credores
O homem é infeliz porque não sabe que é feliz; só por isso.
Explicação e análise
Ele virá, e o nome dele é homem-Deus.
Explicação e análise
O povo é o corpo de Deus.
Explicação e análise
Eu creio na Rússia, creio na ortodoxia dela… Creio no corpo de Cristo… Creio que a nova vinda acontecerá na Rússia… Eu creio…
Explicação e análise
Quando vi a tua cara baixa, na hora em que caí e você me apanhou, foi como se um verme me entrasse no coração: não é ele, pensei, não é ele! O meu falcão nunca teria vergonha de mim diante de uma moça da sociedade!
Explicação e análise
Pensei que o senhor mesmo procurasse o fardo.
Explicação e análise
Segunda Parte: A cidade à espera
Mas como é possível alguém se admirar de que Stavróguin tenha se batido com Gagánov e não tenha respondido ao estudante? Não podia desafiar para um duelo um antigo servo seu!
Explicação e análise
Afinal o senhor é um homem inteligente e, claro, não crê por conta própria, mas entende muito bem que precisa da fé para embrutecer o povo. A verdade é mais honesta que a mentira.
Explicação e análise
O rubor da indignação lhe tomou as faces; ela tirou o chapéu redondo e as luvas, caiu de joelhos diante do ícone, direto na calçada suja, e fez com devoção três prostrações até o chão.
Explicação e análise
Meu Deus, quantas palavras alheias! Lições decoradas! E eles já puseram em você o uniforme deles! Você também está na alegria, você também está no sol; chère, chère, por que prato de lentilhas você lhes vendeu a sua liberdade!
Explicação e análise
Toda a essência da ideia revolucionária russa está na negação da honra. [...] Para o russo, a honra é só um fardo a mais. E sempre foi um fardo, em toda a sua história. É pelo aberto «direito à desonra» que mais depressa se pode arrastá-lo.
Explicação e análise
Segunda Parte: O sistema de Chigalióv
Mesmo que eu não creia por inteiro, ainda assim não direi que se deva fuzilar Deus [...] a gente pula da cama de noite, só de meias, e se põe a fazer o sinal da cruz diante do ícone para que Deus mande a fé, porque eu nem então conseguia ficar sossegado: há Deus ou não há?
Explicação e análise
Partindo da liberdade ilimitada, concluo com o despotismo ilimitado.
Explicação e análise
Eu proponho não uma canalhice, mas o paraíso, o paraíso terrestre, e outro na terra não pode haver.
Explicação e análise
Se cada um de nós soubesse de um assassinato político em preparo, iria denunciar, prevendo todas as consequências, ou ficaria em casa esperando os acontecimentos?
Explicação e análise
Eu o inventei no estrangeiro, olhando para você mesmo. Se eu não tivesse olhado para você de um canto, nada me teria vindo à cabeça!..
Explicação e análise
Com Tíkhon: A confissão suprimida
Ao pecar, todo homem já pecou contra todos, e todo homem é culpado, de algum modo, pelo pecado alheio. Pecado isolado não existe.
Explicação e análise
O riso deles.
Explicação e análise
Escute, padre Tíkhon: quero perdoar a mim mesmo, e este é o meu principal objetivo, todo o meu objetivo! [...] Sei que só então a visão desaparecerá. É por isso que procuro um sofrimento sem medida, eu mesmo o procuro. Não me assuste. Se o senhor crê que pode perdoar a si mesmo e alcançar esse perdão neste mundo, então o senhor crê em tudo!
Explicação e análise
Vejo... vejo como na realidade [...] que nunca o senhor, pobre jovem perdido, esteve tão perto do mais terrível crime como neste instante!
Explicação e análise
Segunda Parte: A cidade em desordem
Isso eu mandei fazer há pouco, assim que eles saíram, murmurou Stiepan Trofímovitch, olhando-me com astúcia, quand on a de ces choses-là dans sa chambre et qu'on vient vous arrêter, isso impõe, e eles terão de informar que viram.
Explicação e análise
Pensei naquele instante: quem de nós é mais baixo? Ele, que me abraça para me humilhar na mesma hora, ou eu, que o desprezo, e a ele e à sua face, e na mesma hora a beijo, embora pudesse virar o rosto... arre!
Explicação e análise
Nikolai Vsievolódovitch, um capitão qualquer [...] não para de me escrever cartas indecentes [...] Se ele é mesmo seu parente, proíba-o de me ofender e livre-me dos aborrecimentos.
Explicação e análise
Sim, tenho o infortúnio de ser parente desse homem. Sou marido da irmã dele, nascida Lebiádkina, e faz quase cinco anos.
Explicação e análise
Terceira Parte: A festa e o incêndio
Sem o inglês a humanidade ainda pode viver, sem a Alemanha pode, sem o homem russo é mais que possível, sem a ciência pode, sem o pão pode, só sem a beleza é impossível, pois não haveria absolutamente nada a fazer no mundo.
Explicação e análise
O incêndio está nas mentes, e não nos telhados das casas.
Explicação e análise
Sempre me pareceu que o senhor me levaria a algum lugar onde vive uma aranha enorme e má, do tamanho de um homem, e que passaríamos lá a vida inteira olhando para ela e tendo medo dela.
Explicação e análise
Eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
Explicação e análise
O que é preciso aqui é uma só vontade magnífica, de ídolo, despótica, apoiada em algo que não seja acidental e esteja fora… Então os quintetos encolherão o rabo da obediência e, com servilismo, serão úteis na ocasião.
Explicação e análise
Terceira Parte: A última decisão
Sentiam que de repente tinham caído, como moscas, na teia de uma aranha enorme; irritavam-se, mas tremiam de medo.
Explicação e análise
O mistério do aparecimento de um novo ser, um grande mistério, inexplicável, Arina Prókhorovna, e que pena que a senhora não entenda isso! [...] Eram dois, e de repente um terceiro ser, um espírito novo, inteiro, acabado, como não vem de mãos humanas; um pensamento novo e um amor novo, até dá medo... E não há nada mais alto no mundo!
Explicação e análise
Sou obrigado a me matar a tiro, porque o ponto mais pleno da minha vontade própria é matar a mim mesmo.
Explicação e análise
Se as leis da natureza não pouparam nem Este, não pouparam nem o seu próprio milagre, mas obrigaram também a Ele a viver em meio à mentira e a morrer pela mentira, então, quer dizer, todo o planeta é mentira e se assenta sobre a mentira e uma zombaria estúpida. Quer dizer, as próprias leis do planeta são mentira e vaudeville do diabo. Para que viver, responda, se você é homem?
Explicação e análise
Ficaremos só nós, que de antemão nos destinamos a receber o poder: os inteligentes, juntaremos a nós; os tolos, cavalgaremos. Disso vocês não devem se envergonhar. É preciso reeducar a geração para torná-la digna da liberdade.
Explicação e análise
Terceira Parte: A última errância
Esses demônios que saem do doente e entram nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, toda a imundície, todos os demônios e demoniozinhos que se acumularam, ao longo dos séculos, dos séculos, no nosso grande e querido doente, na nossa Rússia.
Explicação e análise
O principal é que eu mesmo acredito em mim quando minto. O mais difícil na vida é viver e não mentir... e... e não acreditar na própria mentira, sim, sim, é exatamente isso.
Explicação e análise
A minha imortalidade é necessária já por isto: Deus não vai querer cometer uma injustiça e apagar de todo o fogo do amor que um dia se acendeu por ele no meu coração. E o que é mais caro que o amor? O amor é mais alto que o ser, o amor é a coroa do ser, e como seria possível que o ser não lhe estivesse submetido? Se eu o amei e me alegrei com o meu amor, é possível que ele apague a mim e à minha alegria e nos reduza a zero? Se há Deus, também eu sou imortal! Voilà ma profession de foi.
Explicação e análise
Sei que devia me matar, varrer-me da terra como um inseto vil; mas tenho medo do suicídio, porque temo mostrar magnanimidade. Sei que isso seria ainda um engano, o último engano.
Explicação e análise
Os nossos médicos, depois da autópsia, rejeitaram de modo completo e insistente a hipótese de loucura.