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Tema em A Morte de Ivan Ilitch

Verdade e mentira

Dizer a verdade ou enganar: mentira, engano, segredo, disfarce, boato, manipulação pela palavra.

O tema na obra

A mentira da novela não é a de quem engana para ganhar alguma coisa. É a mentira decorosa (приличная ложь, tradução nossa), aquela que todos aceitam sem combinar, porque protege as formas: o doente está só doente, vai melhorar, deve seguir o tratamento. Ivan Ilitch Golovin a reconhece porque a praticou a vida inteira, sofre com ela quando a recebe e, no fim, descobre que a mentira maior era a dele, sobre a própria vida. O livro tem três tempos: ele mente aos outros, os outros mentem a ele, e ele deixa de mentir a si.

No capítulo I o decoro já governa o velório: Prascóvia Fiódorovna Golovina faz a pergunta prática na forma de um pedido de conselho:

Она сделала вид, что спрашивает у Петра Ивановича совета о пенсионе [...] но что ей хотелось узнать, нельзя ли как-нибудь вытянуть еще побольше денег, Ela fingiu pedir a Piotr Ivánovitch um conselho sobre a pensão [...] mas o que queria saber era se não haveria algum jeito de arrancar ainda mais dinheiro.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo IV, o médico famoso faz com ele o que ele fazia com os réus, e a pergunta que lhe importa fica de fora:

Не было вопроса о жизни Ивана Ильича, а был спор между блуждающей почкой и слепой кишкой., Não havia a questão da vida de Ivan Ilitch, havia uma disputa entre o rim flutuante e o apêndice.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo V, a mulher, que ainda chama a doença de doença, o beija na testa na noite em que ele entendeu que vai morrer:

Он ненавидел ее всеми силами души в то время, как она целовала его, и делал усилия, чтобы не оттолкнуть ее., Ele a odiava com todas as forças da alma enquanto ela o beijava, e fazia esforço para não empurrá-la.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VII, a mentira é nomeada como o principal tormento, e a exceção é Gerássim:

Главное мучение Ивана Ильича была ложь, — та, всеми почему-то признанная ложь, что он только болен, а не умирает, O principal tormento de Ivan Ilitch era a mentira, aquela mentira, por algum motivo aceita por todos, de que ele estava apenas doente, e não morrendo.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No mesmo capítulo, o desejo de ser consolado como criança mostra que a mentira tem um cúmplice dentro dele:

хотелось того, чтоб его, как дитя больное, пожалел бы кто-нибудь. Ему хотелось, чтоб его приласкали, поцеловали, поплакали бы над ним, как ласкают и утешают детей., queria que alguém tivesse pena dele como de uma criança doente. Queria que o acariciassem, beijassem, chorassem por ele, como se acaricia e consola as crianças.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VIII, na cena antes do teatro, todos se calam ao olhar para ele, e o narrador diz de que têm medo:

всем становилось страшно, что вдруг нарушится как-нибудь приличная ложь, и ясно будет всем то, что есть, todos tinham medo de que de repente a mentira decorosa se rompesse de algum modo, e ficasse claro para todos o que era.
Capítulos VIII a XII: A morte

No capítulo IX, a voz da alma lhe faz a pergunta que ele responde com a mesma régua de sempre:

«Может быть, я жил не так, как должно?» — приходило ему вдруг в голову. «Но как же не так, когда я делал все как следует?», Talvez eu tenha vivido não como se devia? vinha-lhe de repente à cabeça. Mas como não, se eu fiz tudo como se deve? dizia a si mesmo.
Capítulos VIII a XII: A morte

No capítulo XI, diante do rosto de Gerássim, a pergunta volta, e de manhã cada gesto da família confirma que tudo foi um engano enorme que esconde a vida e a morte:

а что, как и в самом деле вся моя жизнь, сознательная жизнь, была «не то», e se de fato toda a minha vida, a minha vida consciente, não foi «aquilo»?
Capítulos VIII a XII: A morte

No capítulo XII, o narrador diz o que o prende no saco preto:

Пролезть же ему мешает признанье того, что жизнь его была хорошая., O que o impede de passar é o reconhecimento de que a sua vida foi boa.
Capítulos VIII a XII: A morte

A mentira de fora e a de dentro são a mesma, e o livro as faz trocar de lugar. No capítulo VII Ivan Ilitch sofre com a mentira dos outros e, diante de Shebek, representa ele mesmo o membro grave da Câmara; no capítulo IX e no capítulo X defende a correção da própria vida para afastar a dúvida; no capítulo XII essa defesa é o que o impede de passar. Ele só sai da mentira quando para de se justificar, e não quando os outros param de mentir, porque os outros não param.

Quem o encarna

Prascóvia Fiódorovna é a mentira decorosa da casa: a paciência que vira mérito, a versão para os conhecidos, o médico caro, a pergunta se ele não está melhor (capítulo IV, capítulo V, capítulo XI). Os médicos são a mentira técnica, que discute rim e apêndice e responde ao que é perigoso com o que é conveniente (capítulo IV, capítulo VIII). Gerássim é a verdade sem palavras difíceis, a do criado que não acha necessário esconder (capítulo VII):

Все умирать будем. Отчего же не потрудиться?, Todos vamos morrer. Por que não me esforçar?
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

Onde aparece

  • Capítulo I: No velório, cada gesto obedece ao decoro, e a viúva disfarça de pedido de conselho a pergunta sobre a pensão.
  • Capítulo II: Ivan Ilitch esquece os atos que lhe davam nojo quando vê os de cima fazendo o mesmo, e casa pelo agradável e pelo correto.
  • Capítulo IV: O médico famoso trata o caso e não a pessoa, e Prascóvia Fiódorovna fixa para os conhecidos a versão do marido que não segue o tratamento.
  • Capítulo V: Prascóvia Fiódorovna oferece um especialista a quem acaba de entender que vai morrer, e Ivan Ilitch a odeia enquanto ela o beija.
  • Capítulo VII: A mentira de que Ivan Ilitch está só doente, e não morrendo, é o principal tormento dele; só Gerássim não mente.
  • Capítulo VIII: O médico comum mente com o ar de quem vai consertar tudo, e a família se cala de medo de que a mentira decorosa se rompa.
  • Capítulo IX: A voz da alma pergunta se Ivan Ilitch viveu bem, e ele afasta a hipótese de ter vivido não como devia.
  • Capítulo XI: Diante de Gerássim nasce em Ivan Ilitch a suspeita de que a vida inteira não foi aquilo, e de manhã ele vê em todos o engano que esconde a vida e a morte.
  • Capítulo XII: Ivan Ilitch só passa quando admite que tudo foi não aquilo, porque o reconhecimento de que a vida foi boa o prendia no saco preto.

Onde as leituras divergem

A mentira da família se lê como crueldade ou como medo, e o capítulo VIII sustenta as duas: a família vai ao teatro, mas o narrador diz que todos se calam porque têm medo de que fique claro o que é. Na segunda leitura, a mentira é uma proteção dos vivos tanto quanto um tormento do moribundo.

Também diverge a pergunta sobre o que ele descobre no fim: que a vida dele foi uma mentira, ou que foi não aquilo, a expressão que o texto usa (не то, tradução nossa). A primeira leitura condena a vida inteira; a segunda deixa aberto o que seria aquilo, e o próprio Ivan Ilitch, ao perguntar, se cala sem responder no capítulo XII.