O tema na obra
A pergunta pelo sentido da vida só chega a Ivan Ilitch Golovin no capítulo IX, quando já não há vida a viver de outro modo, e o livro inteiro é construído para que ela chegue tarde. Antes, a vida dele tem medidas e não sentido: o agradável e o decoroso, as alegrias do amor-próprio, da vaidade e do jogo. Depois, a pergunta tem uma forma fixa, a de não ter vivido como se devia, e uma resposta que ele adia por três capítulos e só aceita no último.
No capítulo II o narrador dá o veredito antes da biografia:
Прошедшая история жизни Ивана Ильича была самая простая и обыкновенная и самая ужасная, A história passada da vida de Ivan Ilitch foi a mais simples, a mais comum e a mais terrível.
No capítulo III ordena as alegrias de Ivan Ilitch, e a verdadeira é o jogo:
Радости служебные были радости самолюбия; радости общественные были радости тщеславия; но настоящие радости Ивана Ильича были радости игры в винт., As alegrias do serviço eram alegrias do amor-próprio; as alegrias sociais eram alegrias da vaidade; mas as verdadeiras alegrias de Ivan Ilitch eram as alegrias do jogo de vint.
No capítulo IX, a voz da alma pergunta se ele vivia mesmo bem e agradavelmente, e as alegrias se desfazem uma a uma, menos as da infância; ele vê a carreira como uma descida:
Точно равномерно я шел под гору, воображая, что иду на гору. Так и было. В общественном мнении я шел на гору, и ровно настолько из-под меня уходила жизнь… И вот готово, умирай!, Era como se eu descesse a montanha num passo regular, imaginando que subia. Foi assim mesmo. Na opinião pública eu subia a montanha, e na mesma medida a vida fugia debaixo de mim... E pronto, agora morre!
E chega à pergunta que afasta:
«Может быть, я жил не так, как должно?» — приходило ему вдруг в голову. «Но как же не так, когда я делал все как следует?», Talvez eu tenha vivido não como se devia? vinha-lhe de repente à cabeça. Mas como não, se eu fiz tudo como se deve? dizia a si mesmo.
No capítulo X, vivendo só de lembranças, ele quer ao menos entender para quê, e a única explicação seria admitir que viveu não como devia, o que lhe parece impossível:
Одна точка светлая там, назади, в начале жизни, а потом все чернее и чернее и все быстрее и быстрее., Um ponto luminoso lá atrás, no começo da vida, e depois tudo cada vez mais negro, e cada vez mais rápido.
No capítulo XI, diante do rosto de Gerássim, a hipótese se impõe, e com ela a ideia de que os impulsos que ele sufocava eram o verdadeiro:
а что, как и в самом деле вся моя жизнь, сознательная жизнь, была «не то», e se de fato toda a minha vida, a minha vida consciente, não foi «aquilo»?
No capítulo XII, a defesa é o último obstáculo:
Пролезть же ему мешает признанье того, что жизнь его была хорошая., O que o impede de passar é o reconhecimento de que a sua vida foi boa.
Ao cair no buraco, ele diz a si mesmo que tudo foi não aquilo, mas que ainda se pode fazer aquilo; pergunta o que é aquilo e se cala. Em seguida tem pena do filho e da mulher.
O livro não diz o que é aquilo (то, tradução nossa), e é de propósito: a resposta que Ivan Ilitch não formula é o que ele faz em seguida, ter pena dos outros e querer livrá-los do sofrimento. O sentido não chega como ideia, chega como gesto, e o gesto chega quando ele já não pode viver de outro modo, o que faz da descoberta ao mesmo tempo uma condenação da vida passada e uma vida inteira condensada num instante.
Quem o encarna
Ivan Ilitch é a vida sem pergunta, do capítulo II ao capítulo VIII, e a pergunta sem vida, do capítulo IX ao capítulo XII. Gerássim é o sentido que não precisa de pergunta, o serviço feito por quem sabe que vai morrer, como se vê no capítulo VII:
Все умирать будем. Отчего же не потрудиться?, Todos vamos morrer. Por que não me esforçar?
Vássia, o filho que lhe beija a mão no capítulo XII, é a ocasião do gesto que responde ao que ele não soube dizer.
Onde aparece
- Capítulo II: O narrador chama a vida de Ivan Ilitch de a mais simples, a mais comum e a mais terrível, e ele a mede pelo agradável e pelo correto.
- Capítulo III: Ivan Ilitch conta as alegrias do serviço, da sociedade e do jogo, e a verdadeira é o vint.
- Capítulo IX: A voz da alma pergunta se Ivan Ilitch viveu bem; a vida lhe aparece como uma descida tomada por subida, e ele afasta a hipótese de ter vivido errado.
- Capítulo X: Ivan Ilitch quer entender para quê, e a única explicação lhe parece impossível.
- Capítulo XI: Diante de Gerássim, Ivan Ilitch suspeita de que a vida inteira não foi aquilo, e a defesa do serviço e da família se mostra fraca.
- Capítulo XII: Ivan Ilitch descobre que tudo foi não aquilo, mas que ainda se pode fazer aquilo; sente pena do filho e da mulher e vê a luz.
Onde as leituras divergem
A descoberta do capítulo XII se lê como redenção tardia ou como condenação: na primeira, um instante basta para mudar o sentido de tudo, e o texto diz que o sentido daquele instante não muda mais; na segunda, a vida inteira foi perdida, e o fim só a nomeia.
O texto dá peso às duas. A frase tudo foi não aquilo condena a vida passada sem atenuante, e a frase ainda se pode fazer aquilo abre um futuro de uma hora. O livro não pede que o leitor escolha, mas pede que não esqueça o capítulo II: a vida terrível era a mais comum, e a pergunta vale para quem lê.