O tema na obra
Desde o capítulo I o livro faz o balanço de uma vida: Brás Cubas morreu aos sessenta e quatro anos, solteiro, com cerca de trezentos contos e onze amigos no enterro. No capítulo II, o emplasto promete aliviar a melancólica humanidade (ver o emplasto), e no capítulo VII, o delírio mostra a felicidade como quimera que foge ou ri e desaparece (ver Pandora e o delírio).
O sentido passa pela dor e pelo tempo. No capítulo XXIII vem a agonia da mãe; no capítulo LIV, o relógio que conta as horas; no capítulo LXXI, a vantagem da morte; no capítulo LXXXV, o cimo da montanha, de onde o amor começa a descer.
Quincas Borba oferece respostas, e o livro as guarda sem decidir. No capítulo CXVII, só há uma desgraça, que é não nascer, e a dor é ilusão (ver o Humanitismo); no capítulo CXLI, vida é luta; no capítulo CXIX, Brás escreve que matamos o tempo e o tempo nos enterra; no capítulo CXXXV, vem o esquecimento; no capítulo CLX, o balanço final.
O livro também pesa a felicidade e o consolo. No capítulo VI, ao rever Virgília, Brás aconselha que o menos mau é recordar e que ninguém se fie da felicidade presente, porque há nela uma gota da baba de Caim. No capítulo XXIII, diante da agonia da mãe, escreve que o cancro é indiferente às virtudes do sujeito e que, quando rói, rói, porque roer é o seu ofício. No capítulo LXXI, diz que a grande vantagem da morte é que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar. No capítulo CXLI, Quincas Borba para em êxtase diante de dois cães que brigam por um osso sem carne e diz que vida sem luta é um mar morto, e no capítulo CXXXV Brás prevê o esquecimento aos cinquenta anos e diz que a sucessão das gerações é espetáculo para divertir o planeta Saturno.
O livro não responde, faz contas. Brás abre pelo balanço da morte e fecha com o balanço das negativas, e no meio passam consolos que não se sustentam sozinhos: a esperança da bolsa de Pandora, a luta dos cães, a dor como ilusão. O último saldo tem duas leituras, a do pessimismo pleno e a do alívio de quem não deixa ninguém para sofrer, e o texto não escolhe.
Onde aparece
- Capítulo I: Brás Cubas conta a própria morte como um balanço de idade, estado civil, bens e amigos, e diz que uma ideia grandiosa e útil, mais do que a pneumonia, o matou.
- Capítulo II: Brás concebe um emplasto destinado a aliviar a melancólica humanidade, mas confessa que o motivo principal era ver Emplasto Brás Cubas impresso nos jornais e nas esquinas.
- Capítulo VI: Ao rever Virgília, Brás aconselha que o menos mau é recordar e que ninguém se fie da felicidade presente, porque há nela uma gota da baba de Caim.
- Capítulo VII: No desfile dos séculos que a figura de Natureza ou Pandora lhe mostra, Brás vê a felicidade como uma quimera que foge e, quando apanhada, ri e desaparece.
- Capítulo XXIII: Diante da agonia da mãe, Brás escreve que o cancro é indiferente às virtudes do sujeito e que, quando rói, rói, porque roer é o seu ofício.
- Capítulo LIV: Brás, insone depois do beijo, lembra que o tique-taque da pêndula lhe fazia mal e diz que o derradeiro homem há de ter um relógio na algibeira para saber a hora exata em que morre.
- Capítulo LXXI: Brás diz que a grande vantagem da morte é que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar.
- Capítulo LXXXV: Brás diz que o ponto máximo do amor com Virgília foi o cimo da montanha, de onde por algum tempo os dois divisaram um céu tranquilo e azul antes de começarem a descer a encosta.
- Capítulo CXVII: Quincas Borba expõe o Humanitismo a Brás e afirma que verdadeiramente há só uma desgraça, que é não nascer, e que a dor é uma pura ilusão.
- Capítulo CXIX: Entre as máximas que escreveu quando enfastiado, Brás deixa a de que matamos o tempo e o tempo nos enterra.
- Capítulo CXXXV: Brás prevê que, aos cinquenta anos e sem frescura, virá o esquecimento, e diz que a sucessão das gerações é espetáculo para divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.
- Capítulo CXLI: Quincas Borba para em êxtase diante de dois cães que brigam por um osso sem carne e diz a Brás que vida é luta e que vida sem luta é um mar morto.
- Capítulo CLX: Brás faz o balanço do que não foi nem teve e encerra o livro dizendo que não teve filhos e que não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Passagens
Só se goza o que já passou.
Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim
A felicidade como figura que foge e ri.
nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda [...] e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão
Quincas Borba reduz a desgraça a uma só.
Porquanto, verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer
A vida vira luta, mesmo por um osso sem carne.
Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal
O esquecimento vira espetáculo para um planeta aborrecido.
também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido
A última frase do livro.
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria