O tema na obra
A pergunta de por que viver aparece no romance por três bocas, e nenhuma a responde por inteiro. Alexei Kiríllov a responde com uma certeza que lhe veio numa noite: o homem é infeliz porque não sabe que é feliz, e quem ensinar o contrário encerra o mundo. Ele tira daí a obrigação de se matar, e o faz parecer o ato mais livre. Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin não responde: tem uma força que não acha onde gastar, passa o livro a provar ocupações que não o prendem e termina num sótão. Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, que viveu de pose, chega no fim à necessidade de algo infinitamente grande, sem o qual, diz, os homens morreriam de desespero. A cidade, entre os três, tem outra resposta: um rapaz que gastou o dinheiro da irmã se mata num quarto de hotel e as damas vão olhar.
No capítulo III da Primeira Parte, no pavilhão, Kiríllov expõe ao cronista o que procura: por que as pessoas não ousam se matar. Dois preconceitos as seguram, a dor e o outro mundo, e a liberdade virá quando for indiferente viver ou não viver.
No capítulo I da Segunda Parte, ele afirma a Stavróguin que ama a vida e decidiu se matar, e que uma coisa não contradiz a outra, porque há minutos em que o tempo para.
Есть минуты, вы доходите до минут, и время вдруг останавливается и будет вечно, há minutos, a gente chega a certos minutos, e o tempo de repente para e passa a ser para sempre.
E dá a tese de que tira o resto.
Человек несчастлив потому, что не знает, что он счастлив; только потому, o homem é infeliz porque não sabe que é feliz; só por isso.
No capítulo V da Segunda Parte, a cavalgada de Lizavieta Nikoláievna para no quarto de hotel onde um rapaz de dezenove anos se matou depois de gastar quatrocentos rublos confiados pela família para o enxoval da irmã mais velha. As damas, que nunca viram um suicida, querem ver. Um diz que foi a melhor saída, outro que ao menos viveu um momento bom, e Liámchin rouba um cacho de uvas da bandeja.
No capítulo VI da Segunda Parte, quando Piotr lembra o acordo, Kiríllov diz que acordo não há, que a morte é só vontade dele.
Только уговору нет и не было, и я ничем не вязал. Была одна моя воля и теперь одна моя воля, só que acordo não há nem houve, e eu não me amarrei a nada. Era só a minha vontade, e agora é só a minha vontade.
No capítulo V da Terceira Parte, em meio ao parto da mulher de Chátov, Kiríllov descreve os segundos em que a harmonia eterna se faz sentir, e o que ela exige do corpo.
Есть секунды, их всего зараз приходит пять или шесть, и вы вдруг чувствуете присутствие вечной гармонии, совершенно достигнутой. Это не земное; я не про то, что оно небесное, а про то, что человек в земном виде не может перенести. Надо перемениться физически или умереть. Это чувство ясное и неоспоримое. Как будто вдруг ощущаете всю природу и вдруг говорите: да, это правда. Бог, когда мир создавал, то в конце каждого дня создания говорил: «Да, это правда, это хорошо». Это… это не умиление, а только так, радость. Вы не прощаете ничего, потому что прощать уже нечего. Вы не то что любите, о — тут выше любви! Всего страшнее, что так ужасно ясно и такая радость. Если более пяти секунд — то душа не выдержит и должна исчезнуть. В эти пять секунд я проживаю жизнь и за них отдам всю мою жизнь, потому что стоит, há segundos, vêm ao todo cinco ou seis de uma vez, e de repente você sente a presença da harmonia eterna, perfeitamente alcançada. Isso não é terreno; não digo que seja celeste, digo que o homem, em forma terrena, não pode suportar. É preciso mudar fisicamente ou morrer. Esse sentimento é claro e indiscutível. É como se de repente você sentisse toda a natureza e dissesse: sim, isso é verdade. Deus, quando criava o mundo, no fim de cada dia da criação dizia: "Sim, isso é verdade, isso é bom". Isso... isso não é enternecimento, é apenas alegria. Você não perdoa nada, porque já não há o que perdoar. Não é que você ame, ah, é mais alto que o amor! O mais terrível é que é tão assustadoramente claro, e é tanta alegria. Se durar mais de cinco segundos, a alma não aguenta e tem de desaparecer. Nesses cinco segundos eu vivo uma vida, e por eles daria toda a minha vida, porque vale a pena.
Horas depois, Chátov, que pregava um Deus que não tinha, diz a Arina Prókhorovna o que viu nascer.
Тайна появления нового существа, великая тайна и необъяснимая, Арина Прохоровна, и как жаль, что вы этого не понимаете! [...] Было двое, и вдруг третий человек, новый дух, цельный, законченный, как не бывает от рук человеческих; новая мысль и новая любовь, даже страшно… И нет ничего выше на свете!, o mistério do aparecimento de um novo ser, um grande mistério, inexplicável, Arina Prókhorovna, e que pena que a senhora não entenda isso! [...] Eram dois, e de repente um terceiro ser, um espírito novo, inteiro, acabado, como não vem de mãos humanas; um pensamento novo e um amor novo, até dá medo... E não há nada mais alto no mundo!
No capítulo VI da Terceira Parte, na noite em que se mata, Kiríllov reduz a razão a uma regra.
Я обязан себя застрелить, потому что самый полный пункт моего своеволия — это убить себя самому, sou obrigado a me matar a tiro, porque o ponto mais pleno da minha vontade própria é matar a mim mesmo.
E dá a pergunta a que ela responde, diante da imagem do Salvador.
если законы природы не пожалели и Этого, даже чудо свое же не пожалели, а заставили и Его жить среди лжи и умереть за ложь, то, стало быть, вся планета есть ложь и стоит на лжи и глупой насмешке. Стало быть, самые законы планеты ложь и диаволов водевиль. Для чего же жить, отвечай, если ты человек, se as leis da natureza não pouparam nem Este, não pouparam nem o seu próprio milagre, mas obrigaram também a Ele a viver em meio à mentira e a morrer pela mentira, então, quer dizer, todo o planeta é mentira e se assenta sobre a mentira e uma zombaria estúpida. Quer dizer, as próprias leis do planeta são mentira e vaudeville do diabo. Para que viver, responda, se você é homem?
No capítulo VIII da Terceira Parte, na carta a Dária Pávlovna, Stavróguin escreve sobre a própria força, que provou em toda parte e achou ilimitada, sem ver a que aplicá-la.
На бревне можно переплыть реку, а на щепке нет, num tronco se pode atravessar o rio, mas numa lasca não.
Por isso recusa o suicídio, e o motivo é o último engano.
Я знаю, что мне надо бы убить себя, смести себя с земли как подлое насекомое; но я боюсь самоубийства, ибо боюсь показать великодушие. Я знаю, что это будет еще обман, — последний обман, sei que devia me matar, varrer-me da terra como um inseto vil; mas tenho medo do suicídio, porque temo mostrar magnanimidade. Sei que isso seria ainda um engano, o último engano.
O romance dá a Kiríllov a doutrina mais completa sobre o sentido e a desmente na cena, dá a Stavróguin a ausência dele e a confirma no sótão, e dá a Chátov e a Marie, em dois dias, o que a doutrina de Kiríllov chamava harmonia, sem doutrina nenhuma: o chá, a velha enviada, o menino, o nome Ivan. O sentido aparece em quem não o procura. Os que o procuram por razão, Kiríllov por dedução, Stavróguin por experimento, acabam mortos pelas próprias mãos, e Chátov, que o tem por perto no filho, é morto pela mão dos outros na noite do mesmo dia. O livro não faz do sentido uma garantia.
Quem o encarna
Kiríllov é o sentido por dedução: tem uma regra, uma data, um ato. Stavróguin é o sentido por ausência, o homem que prova tudo e, nas palavras da carta a Dária Pávlovna, consegue desejar o bem e o mal com o mesmo prazer, sem que nenhum desejo seja grande o bastante para guiá-lo. Stiepan é o sentido por pose, que só no leito de morte pede o infinitamente grande, no capítulo VII da Terceira Parte. Chátov e Marie são o sentido de passagem: o parto, o chá, o dia de conversas febris sobre recomeçar «de novo e para sempre», no capítulo V da Terceira Parte.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo III: Kiríllov diz que procura por que as pessoas não ousam se matar, e que a liberdade virá quando for indiferente viver ou não viver.
- Segunda Parte, capítulo I: Kiríllov diz que ama a vida e decidiu se matar, e que o homem é infeliz só porque não sabe que é feliz.
- Segunda Parte, capítulo V: A cavalgada de Lizavieta Nikoláievna para no quarto de hotel de um rapaz de dezenove anos que se matou depois de gastar quatrocentos rublos confiados pela família.
- Segunda Parte, capítulo VI: Kiríllov diz a Piotr que não há acordo e que a vontade de morrer é só dele, e Piotr conta com isso.
- Terceira Parte, capítulo V: Kiríllov descreve a Chátov os segundos de harmonia eterna, e Marie dá à luz um menino que Chátov chama de grande mistério.
- Terceira Parte, capítulo VI: Kiríllov diz que é obrigado a se matar porque o ponto mais pleno da vontade própria é matar a si mesmo, e atira depois de gritar «já» várias vezes.
- Terceira Parte, capítulo VII: Stiepan Trofímovitch, doente, diz que sem o infinitamente grande os homens não viveriam e morreriam de desespero.
- Terceira Parte, capítulo VIII: Stavróguin escreve a Dária Pávlovna que tem força ilimitada e nada a que aplicá-la, que teme o suicídio como último engano, e é achado enforcado.
- Com Tíkhon: Stavróguin diz a Tíkhon que procura um sofrimento sem medida, porque só perdoando a si mesmo a visão que o persegue desaparecerá.
Onde as leituras divergem
Albert Camus, em O Mito de Sísifo, toma Kiríllov como o caso-limite do suicídio lógico, o de quem decide a morte por um raciocínio, e essa leitura é sobre a doutrina, não sobre a cena. A cena do capítulo VI da Terceira Parte mostra Kiríllov rindo, escondendo-se num canto, mordendo e gritando antes do tiro, e Stavróguin, na carta do capítulo VIII da Terceira Parte, diz que ele foi magnânimo porque não estava em são juízo. Daí duas leituras. Numa, o suicídio de Kiríllov confirma a lógica, e o corpo só mostra o preço de levá-la ao fim. Na outra, o corpo a desmente, e o romance julga a ideia por esse desmentido.
O texto sustenta as duas porque Kiríllov é pensado com método e executado em frenesi, e o romance deixa a personagem dizer uma coisa e mostra outra. Vale notar, contudo, o que as duas leituras têm em comum: nenhuma encontra serenidade na cena, e a serenidade é o que a doutrina de Kiríllov prometia a quem a levasse até o fim. Quem for citar o suicídio como prova de sentido precisa escolher entre a doutrina, que é fria, e a morte, que não é.