O tema na obra
O capítulo II formula o problema antes de o protagonista subir. O narrador diz que o homem vive também a vida da sua época, e que, quando o tempo não sabe responder à pergunta "para quê?", é preciso um isolamento heroico ou uma vitalidade muito robusta para empreender uma obra além do necessário. Hans Castorp não tem nem uma coisa nem outra, e o narrador acrescenta que essa falta pode atingir até a parte física e orgânica do indivíduo.
No capítulo VI a resposta aparece numa tempestade de neve. Perdido nos esquis, Hans Castorp adormece junto a um galpão e sonha com um golfo de jovens corteses e, no interior de um templo, com duas mulheres grisalhas que esquartejam e devoram uma criança. Ainda entre o sono e a vigília, recusa Leo Naphta e Lodovico Settembrini e decide, em nome da bondade e do amor, não conceder à morte poder algum sobre os pensamentos. À noite, o que pensou já lhe escapa.
No capítulo VII, Pieter Peeperkorn oferece outra coisa: nenhuma doutrina, só presença e uma teologia do sentimento, em que o fracasso em sentir é a ignomínia de Deus. Quando ele se mata, o Berghof (ver O Berghof) cai no grande tédio, a vida sem cuidados nem esperanças. Até que estoura a guerra. Settembrini se despede mandando o discípulo descer e lutar lá aonde o enviam os laços do sangue, e o narrador deixa Hans Castorp na lama do campo de batalha, cantando "A tília", com uma pergunta: se dessa festa mundial da morte ainda surgirá o amor.
O romance faz a pergunta no capítulo II e não a responde com nenhuma das doutrinas que desfilam depois. A única resposta clara que o livro admite vem de dentro do protagonista, num sonho, e se perde; a mais forte que se vê de fora é Peeperkorn, que não tem ideia nenhuma e morre por não suportar a falha do próprio sentimento. O fim troca a resposta por uma esperança em forma de pergunta, e isso é coerente com o ponto de partida: uma época sem "para quê?" não termina em lição, termina em guerra.
Onde aparece
- Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô: o diagnóstico do narrador sobre uma época que não responde ao "para quê?".
- Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim: o sonho da Neve e a frase sobre a morte e o amor, dita e esquecida.
- Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão: a teologia do sentimento de Peeperkorn, o grande tédio, a despedida de Settembrini e a pergunta final.
Passagens
O narrador explica por que Hans Castorp sobe sem defesa.
Quando essa resposta falta, o efeito não fica confinado ao ânimo:Para alguém se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a medida da necessidade pura e simples, sem que seu tempo saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para quê?", é indispensável um isolamento e prontidão moral, algo raro e de natureza heroica, ou então uma vitalidade muito robusta, e Hans Castorp, diz o narrador, não possuía nem uma coisa nem outra.
Na Neve, a resposta vem de um sonho e não de um debate.
Não quero conceder à morte poder algum sobre meus pensamentos! Pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia, e em nada mais. [...] O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte que ela.
Peeperkorn põe o sentido no sentimento.
Sua teologia pessoal, dita a Hans Castorp na cabeceira da cama, resume o que está em jogo em toda a sua grandiosidade:Nosso sentimento [...] é a força viril que desperta a vida [...] o sentimento, meu jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente [...] Se o homem fracassa quanto ao sentimento, irrompe a ignomínia de Deus, dá-se a derrota da virilidade de Deus, uma catástrofe cósmica, um horror inimaginável, e nesse ponto ele volta a beber.
Settembrini manda o discípulo descer.
E così in giù [...] in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! [...] Vá lutar com bravura, lá aonde o enviam os laços do sangue!
A última frase do romance fica em pergunta.
A despedida final do narrador não promete nada, apenas pergunta:Será que também desta festa mundial da morte, e também da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor?