O tema na obra
Quase ninguém em Os Demônios mente com um fato falso. A mentira do livro tem outros formatos: o tamanho que se dá a uma conspiração, o disfarce que se diz que se usa, a ordem em que se conta uma história, a certeza de uma denúncia que ninguém viu, o diagnóstico que torna aceitável o que seria insulto. Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski é o mestre do ofício e o faz de modo explícito: conta a cada um a versão de que precisa, e Nicolas o descreve em público como alguém para quem a verdade vale mais que o sucesso, exceto quando o sucesso vale mais que a verdade. Mas ele não é o único. Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski mente porque acredita no que diz, e a cidade mente por conveniência coletiva. Os momentos em que a verdade aparece custam sempre a quem a diz, e raramente rendem a quem a ouve.
No capítulo II da Primeira Parte, o cronista descreve o rosto de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin pelo excesso: tudo nele é perfeito demais, e a cidade preenche o que haveria atrás.
волосы его были что-то уж очень черны, светлые глаза его что-то уж очень спокойны и ясны, цвет лица что-то уж очень нежен и бел, румянец что-то уж слишком ярок и чист, зубы как жемчужины, губы как коралловые, — казалось бы, писаный красавец, а в то же время как будто и отвратителен. Говорили, что лицо его напоминает маску, os cabelos dele eram pretos demais, os olhos claros tranquilos e límpidos demais, a tez delicada e branca demais, o rubor vivo e puro demais, dentes como pérolas, lábios como corais: parecia um belo de pintura e, ao mesmo tempo, como que repugnante. Diziam que o rosto lembrava uma máscara.
No capítulo V da Primeira Parte, Piotr conta a Varvara Pietrovna Stavróguina a história dos Lebiádkin antes que o filho dela volte, e Nicolas, de volta, descreve o narrador com uma frieza que o próprio narrador não pode contestar.
Петр Степанович — всеобщий примиритель; это его роль, болезнь, конек [...] в качестве реалиста он не может солгать и что истина ему дороже успеха… разумеется, кроме тех особенных случаев, когда успех дороже истины, Piotr Stiepánovitch é o conciliador universal; esse é o papel dele, a doença dele, o cavalo de batalha [...] como realista, ele não pode mentir, e a verdade lhe é mais cara que o sucesso... exceto, claro, nos casos particulares em que o sucesso é mais caro que a verdade.
No capítulo I da Segunda Parte, Piotr conta a Stavróguin a tática do disfarce, e a franqueza da confissão é ela mesma parte do método.
Самое бы лучшее совсем без роли, свое собственное лицо, не так ли? Ничего нет хитрее, как собственное лицо, потому что никто не поверит, o melhor seria ficar sem papel nenhum, com a própria cara, não é? Não há nada mais astuto do que a própria cara, porque ninguém acredita nela.
No capítulo II da Segunda Parte, Mária Timofêievna Lebiádkina nega que Stavróguin seja quem ela casou e, por um caminho torto, diz uma verdade sobre ele.
Как увидала я твое низкое лицо, когда упала, а ты меня подхватил, — точно червь ко мне в сердце заполз: не он, думаю, не он! Не постыдился бы сокол мой меня никогда пред светской барышней, quando vi a tua cara baixa, na hora em que caí e você me apanhou, foi como se um verme me entrasse no coração: não é ele, pensei, não é ele! O meu falcão nunca teria vergonha de mim diante de uma moça da sociedade!
No capítulo IV da Segunda Parte, Piotr cerca o governador com a lógica do próprio liberalismo dele.
Ведь вы же умный человек и, конечно, сами не веруете, а слишком хорошо понимаете, что вера вам нужна, чтобы народ абрютировать. Правда честнее лжи, afinal o senhor é um homem inteligente e, claro, não crê por conta própria, mas entende muito bem que precisa da fé para embrutecer o povo. A verdade é mais honesta que a mentira.
No capítulo VIII da Segunda Parte, quando perde a calma, Piotr diz a Stavróguin o que o move.
Я вас с заграницы выдумал; выдумал, на вас же глядя. Если бы не глядел я на вас из угла, не пришло бы мне ничего в голову!.., eu o inventei no estrangeiro, olhando para você mesmo. Se eu não tivesse olhado para você de um canto, nada me teria vindo à cabeça!..
No capítulo X da Segunda Parte, diante de uma sala inteira, Stavróguin responde à pergunta de Lizavieta Nikoláievna Tuchina com a verdade que lhe custa a posição.
Да, я имею несчастие состоять родственником этого человека. Я муж его сестры, урожденной Лебядкиной, вот уже скоро пять лет, sim, tenho o infortúnio de ser parente desse homem. Sou marido da irmã dele, nascida Lebiádkina, e faz quase cinco anos.
No capítulo IV da Terceira Parte, Piotr leva o quinteto a matar Chátov por uma denúncia que ele mesmo inventou, com a certeza de quem acredita na própria invenção.
Он всё налгал, что говорил нашим о доносе: никогда он не видал этого доноса и не слыхал о нем, но был уверен в нем как дважды два, ele mentiu em tudo o que disse aos nossos sobre a denúncia: nunca tinha visto essa denúncia nem ouvido falar dela, mas estava certo dela como de dois e dois.
A carta de Bakúnin de 1870, que Joseph Frank traz como fonte documental, descreve a lógica do método que o livro encena sem conhecê-la.
para fundar uma organização séria e indestrutível, é preciso tomar como base a tática de Maquiavel e adotar totalmente o sistema dos jesuítas - violência como corpo, falsidade como alma.
No capítulo VII da Terceira Parte, Stiepan, caído aos pés de Sófia Matvêievna, diz o que o livro lhe atribuía desde a primeira página.
Главное в том, что я сам себе верю, когда лгу. Всего труднее в жизни жить и не лгать… и… и собственной лжи не верить, да, да, вот это именно, o principal é que eu mesmo acredito em mim quando minto. O mais difícil na vida é viver e não mentir... e... e não acreditar na própria mentira, sim, sim, é exatamente isso.
Em «Com Tíkhon», Tíkhon lê a confissão de Stavróguin e vê nela o que ele mesmo não vê.
Вы как будто нарочно грубее хотите представить себя, чем бы желало сердце ваше, é como se o senhor quisesse se apresentar, de propósito, mais grosseiro do que desejaria o seu coração.
O livro trata mentira e verdade por tamanho e por custo. Piotr mente por tamanho: sete figuras para o governador, uma rede mundial para o quinteto, um príncipe escondido para Stavróguin. Stiepan e a cidade mentem por conforto: uma doença, um exílio que nunca houve. A verdade, quando aparece, é uma exposição: Mária Timofêievna diz «não é ele», Lizavieta Nikoláievna faz a pergunta em voz alta, Stavróguin responde com a data, Stiepan confessa de joelhos. Em nenhum dos casos a verdade é recebida, porque quem a ouve já organizou a vida em torno da mentira, e o preço fica com quem a disse. O contraste mais agudo está na confissão escrita de Stavróguin, em que Tíkhon enxerga o estilo de um desafio e não só um arrependimento.
Quem o encarna
Piotr mente por ofício, e só diz a verdade quando perde o controle, como no capítulo VIII da Segunda Parte. Stiepan mente por crença, e o diz no capítulo VII da Terceira Parte sem que a confissão o desfaça. A cidade mente por conveniência: a loucura de Nicolas é o álibi de que ela precisa. Mária Timofêievna e Liza são as que dizem a verdade em voz alta, uma sem perceber, outra de olhos fechados, como quem se atira de um telhado. Stavróguin é o único que tenta dizer a verdade por inteiro, por escrito, no documento que leva a Tíkhon, e é Tíkhon quem lhe aponta o estilo.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo I: O cronista diz que Stiepan Trofímovitch nunca esteve exilado nem sob vigilância, e que ele acreditou por vinte anos que cada governador chegava com uma preocupação especial a seu respeito.
- Primeira Parte, capítulo II: A cidade explica a mordida de Nicolas no governador por doença, e três médicos recuam a febre três dias, embora alguns continuem a achar que ele zombara de todos.
- Primeira Parte, capítulo V: Piotr conta a Varvara Pietrovna uma versão da história dos Lebiádkin que a lisonjeia, o capitão a confirma ponto por ponto, e Nicolas diz que Piotr é realista, exceto quando o sucesso vale mais que a verdade.
- Segunda Parte, capítulo I: Piotr diz a Stavróguin que o melhor é ficar sem papel nenhum, com a própria cara, porque ninguém acredita nela.
- Segunda Parte, capítulo II: Mária Timofêievna chama Stavróguin de impostor, dizendo que o verdadeiro nunca teria vergonha dela diante de uma moça da sociedade.
- Segunda Parte, capítulo IV: Piotr diz ao governador que ele não crê por conta própria, e que a verdade é mais honesta que a mentira.
- Segunda Parte, capítulo VI: Piotr diz ao governador que a conspiração cabe em três homens e meio, sete no máximo, enquanto o quinteto de Virguinski crê fazer parte de uma rede mundial.
- Segunda Parte, capítulo VIII: Piotr confessa a Stavróguin que o inventou no estrangeiro, olhando para ele, e que sem isso nada lhe teria vindo à cabeça.
- Segunda Parte, capítulo X: Stavróguin responde diante de todos à pergunta de Liza e diz que é marido da irmã do capitão Lebiádkin há quase cinco anos.
- Terceira Parte, capítulo IV: Piotr diz ao quinteto que há uma denúncia de Chátov, embora nunca a tenha visto, e está tão certo dela quanto de dois e dois.
- Terceira Parte, capítulo VII: Stiepan Trofímovitch confessa a Sófia Matvêievna que mentiu a vida inteira e que o principal é acreditar em si mesmo quando mente.
- Com Tíkhon: Tíkhon diz a Stavróguin que ele parece querer se apresentar, de propósito, mais grosseiro do que desejaria o coração, e que o estilo da confissão já é um desafio.
Onde as leituras divergem
A verdade do livro se lê de dois modos. Numa leitura, ela é exposição: o que todos sabiam e ninguém dizia vem à luz, e o custo é de quem a diz, como Mária Timofêievna, Lizavieta Nikoláievna, Stiepan. Nessa leitura, a mentira é o estado normal da cidade, e a verdade, a exceção que a quebra. Na outra, a verdade é mais um gesto, e Tíkhon o mostra: a confissão de Stavróguin tem o tom de quem se exibe, e a franqueza que ele pretende publicar teria algo de máscara, a de quem se faz mais grosseiro do que é para não ser tido por ridículo.
O capítulo X da Segunda Parte e o capítulo de Tíkhon, que se passam na mesma manhã, põem lado a lado as duas leituras. No salão, Stavróguin diz a verdade seca, com data, a uma pergunta que podia ter desviado, e sai com altivez. No mosteiro, entrega um texto de verdade total, e Tíkhon lhe diz que a forma o trai. As duas cenas têm o mesmo homem e o mesmo dia, e o resultado é oposto: a verdade curta custa a posição, a longa fica na mesa do bispo. O texto não escolhe, e deixa que o leitor veja que o difícil não é dizer a verdade, mas dizê-la sem desafiar quem ouve.