O tema na obra
Em Ítaca quase ninguém diz toda a verdade, e a razão aparece cedo. Em Esparta, Helena pergunta ao marido se dirá a verdade ou mentirá, e o ânimo a manda falar; Menelau promete não enganar o rapaz e conta o que Proteu lhe disse (Canto IV). Telêmaco pede, em Pilos e em Esparta, que ninguém lhe suavize a notícia (Canto III, Canto IV).
O herói é o grande mentiroso do poema, e o poema sabe. Ao ciclope diz que o navio se quebrou e que se chama Ninguém (Canto IX). Aos feácios omite o nome até o fim e, quando assume uma decisão que fora de Nausícaa, diz que contou a verdade (Canto VII). A Atena disfarçada de pastor conta uma história de Creta, e a deusa ri e diz que ele não deixa o engano nem na própria terra (Canto XIII). A Eumeu e a Penélope conta histórias de Creta (Canto XIV, Canto XIX), e a Laertes, a de um hóspede vindo da Sicânia (Canto XXIV).
Quem ouve também sabe duvidar. Eumeu recusa as notícias do mendigo porque os andarilhos mentem à rainha por roupa, mas o acolhe por temor de Zeus (Canto XIV). Penélope chora com uma mentira que parece verdade, distingue os sonhos que enganam dos que se cumprem (Canto XIX) e testa o marido com a ordem de mover o leito (Canto XXIII). Alcínoo diz que o hóspede não parece um enganador, e Agamêmnon aconselha Odisseu a contar à mulher só uma parte do que sabe (Canto XI).
Às vezes a verdade se diz como hipótese. Odisseu jura a Eumeu que o dono voltará neste mesmo ano, e Eumeu não crê (Canto XIV); diz a Eurímaco que, se Odisseu viesse, as portas seriam estreitas para ele, e Eurímaco responde atirando um escabelo (Canto XVIII).
O poema não condena a mentira de Odisseu: Atena a ama como parentesco de astúcia entre os dois (Canto XIII), e o narrador diz que ele conta mentiras semelhantes a verdades (Canto XIX). O que o texto separa é a mentira de quem a conta por pobreza e a que serve a um plano, e o verso em que Odisseu diz odiar quem cede à pobreza e diz falsidades é irônico, dito por quem vai contar uma história inventada (Canto XIV). O custo da mentira aparece no corpo: os olhos como chifre ou ferro diante de Penélope que chora, o pai que chora de verdade diante de uma história inventada (Canto XIX, Canto XXIV).
Onde aparece
- Canto IV: Helena pergunta ao marido se dirá a verdade ou mentirá, e Menelau promete não enganar Telêmaco e conta o que o velho do mar Proteu lhe disse no Egito.
- Canto VII: Odisseu responde a Arete só ao que ela pergunta, não diz o nome e assume diante de Alcínoo uma decisão que foi de Nausícaa, dizendo ter contado a verdade.
- Canto IX: Odisseu diz ao ciclope que o navio se quebrou e que seu nome é Ninguém, mentiras que o salvam, e os outros ciclopes entendem que ninguém o ataca.
- Canto XI: Alcínoo diz que o hóspede não parece um enganador nem um impostor, e Agamêmnon aconselha Odisseu a contar à mulher apenas uma parte do que sabe.
- Canto XIII: Odisseu inventa a Atena, disfarçada de pastor, uma história de Creta, e a deusa sorri e diz que ele não deixará o engano nem em sua própria terra.
- Canto XIV: Eumeu recusa as notícias do mendigo sobre o senhor, porque os andarilhos mentem à rainha em troca de agasalho, e Odisseu conta uma história inventada para ganhar um manto.
- Canto XVIII: Odisseu avisa Eurímaco, em forma de hipótese, que as portas seriam estreitas para ele se Odisseu viesse, e ninguém ouve a frase como aviso.
- Canto XIX: Odisseu conta a Penélope uma história cretense feita de verdades possíveis, e ela chora, enquanto ele mantém os olhos imóveis como chifre ou ferro.
- Canto XXIII: Penélope manda mover o leito para testar o marido, e Odisseu responde com a descrição que só o verdadeiro dono saberia.
- Canto XXIV: Odisseu inventa ao pai Laertes a história de um hóspede da Sicânia, e o velho derrama cinza na cabeça antes que o filho se revele.
Passagens
Atena ri da primeira mentira que ele conta em Ítaca.
κερδαλέος κʼ εἴη καὶ ἐπίκλοπος ὅς σε παρέλθοι / ἐν πάντεσσι δόλοισι, καὶ εἰ θεὸς ἀντιάσειε. / σχέτλιε, ποικιλομῆτα, δόλων ἆτʼ, οὐκ ἄρʼ ἔμελλες, / οὐδʼ ἐν σῇ περ ἐὼν γαίῃ, λήξειν ἀπατάων / μύθων τε κλοπίων, οἵ τοι πεδόθεν φίλοι εἰσίν.(13.291-295), Seria ladino e furtivo quem te superasse em todos os ardis, ainda que um deus te encontrasse. Obstinado, de astúcia variada, insaciável de enganos, nem mesmo em tua própria terra ias deixar as trapaças e as palavras furtivas, que te são caras desde a raiz.
Eumeu não se deixa convencer, mas aceita o hóspede.
ἀλλὰ τά γʼ οὐ κατὰ κόσμον ὀΐομαι, οὐδέ με πείσεις / εἰπὼν ἀμφʼ Ὀδυσῆϊ· τί σε χρὴ τοῖον ἐόντα / μαψιδίως ψεύδεσθαι; ἐγὼ δʼ εὖ οἶδα καὶ αὐτὸς(14.363-365), mas isto, creio, não foi dito como convém, e não me convencerás ao falar de Odisseu; por que, sendo tal como és, precisas mentir em vão?
O narrador denuncia a mentira ao leitor e a faz funcionar diante de Penélope.
ἴσκε ψεύδεα πολλὰ λέγων ἐτύμοισιν ὁμοῖα· / τῆς δʼ ἄρʼ ἀκουούσης ῥέε δάκρυα, τήκετο δὲ χρώς·(19.203-204), dizia muitas mentiras, semelhantes às verdades; e, enquanto ela ouvia, corriam lágrimas e se desfazia a sua pele.
O preço do disfarce aparece nos olhos.
αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / θυμῷ μὲν γοόωσαν ἑὴν ἐλέαιρε γυναῖκα, / ὀφθαλμοὶ δʼ ὡς εἰ κέρα ἕστασαν ἠὲ σίδηρος / ἀτρέμας ἐν βλεφάροισι· δόλῳ δʼ ὅ γε δάκρυα κεῦθεν.(19.209-212), no ânimo, Odisseu compadecia-se da esposa que gemia, mas os olhos, como se fossem chifre ou ferro, mantinham-se imóveis sob as pálpebras; com astúcia escondia as lágrimas.
A verdade em forma de hipótese não é ouvida como aviso.
εἰ δʼ Ὀδυσεὺς ἔλθοι καὶ ἵκοιτʼ ἐς πατρίδα γαῖαν, / αἶψά κέ τοι τὰ θύρετρα, καὶ εὐρέα περ μάλʼ ἐόντα, / φεύγοντι στείνοιτο διὲκ προθύροιο θύραζε.(18.384-386), se Odisseu viesse e chegasse à terra pátria, logo as portas, por mais largas que fossem, seriam estreitas para ti, fugindo pelo vestíbulo para fora.
Penélope monta a prova do leito.
ἀλλʼ ἄγε οἱ στόρεσον πυκινὸν λέχος, Εὐρύκλεια, / ἐκτὸς ἐϋσταθέος θαλάμου, τόν ῥʼ αὐτὸς ἐποίει· / ἔνθα οἱ ἐκθεῖσαι πυκινὸν λέχος ἐμβάλετʼ εὐνήν, / κώεα καὶ χλαίνας καὶ ῥήγεα σιγαλόεντα. / ὣς ἄρʼ ἔφη πόσιος πειρωμένη·(23.177-181), Euricleia, estende-lhe o firme leito fora do sólido quarto que ele mesmo construiu; ali, depois de colocarem fora o firme leito, lançai a roupa de cama, com peles, mantos e cobertas brilhantes. Assim falou, pondo o marido à prova.
Diante do pai, Odisseu hesita e escolhe começar pela zombaria.
μερμήριξε δʼ ἔπειτα κατὰ φρένα καὶ κατὰ θυμὸν / κύσσαι καὶ περιφῦναι ἑὸν πατέρʼ, ἠδὲ ἕκαστα / εἰπεῖν, ὡς ἔλθοι καὶ ἵκοιτʼ ἐς πατρίδα γαῖαν, / ἦ πρῶτʼ ἐξερέοιτο ἕκαστά τε πειρήσαιτο. / ὧδε δέ οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι, / πρῶτον κερτομίοις ἐπέεσσιν πειρηθῆναι.(24.235-240), então hesitou no ânimo e no espírito, se beijaria e abraçaria o pai e lhe diria tudo, como veio e chegou à terra pátria, ou se primeiro o interrogaria e o poria à prova. Assim, ao refletir, pareceu-lhe mais vantajoso pô-lo à prova primeiro com palavras de zombaria.