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Perguntas · Dom Casmurro

Bentinho é um narrador confiável?

O livro deixa a pergunta aberta de propósito. Bentinho não esconde que escolhe o que conta. Logo no começo confessa que o projeto da casa fracassou. No capítulo XIV, corta a cena do muro porque quer ser poupado. No capítulo LIX, diz que prefere os livros omissos aos confusos. No capítulo LXXIX, avisa que o que conta sobre a esperança de Dona Glória é algo que só mais tarde "presumiu" descobrir. É essa franqueza parcial que dá autoridade ao resto.

Ele também promete contar a própria essência "toda, o bem e o mal", e de fato confessa o pensamento de que, com a mãe morta, acabaria o seminário, e o instante de "vertigem e de pecado" ao apertar a mão de Sancha, mulher do amigo. Mas o livro mostra uma diferença de medida: ele absolve em poucas linhas o desejo que confessa sentir pela mulher do amigo, enquanto lê um olhar de Capitu como indício.

O leitor pode ver nele alguém que mente, alguém sinceramente enganado ou alguém que precisa de uma culpada para explicar a própria vida, e cada leitura muda o gênero do romance. O que o texto sustenta é que tudo chega por ele: os olhos de Capitu, a semelhança de Ezequiel e a fotografia só ganham sentido porque ele os interpreta depois de decidir.

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