O livro não dá a prova, e é daí que vem a discussão sobre ele. Nenhuma cena mostra Capitu a sós com Escobar. Tudo o que o leitor sabe sobre os dois vem de Bentinho, que é ao mesmo tempo o marido, o narrador e o acusador, e que escreve décadas depois, já convencido de que foi enganado.
A leitura de que ela traiu se apoia em quatro pontos. Ezequiel, o filho do casal, tem gestos e feições que lembram Escobar, e foi a própria Capitu quem comentou a semelhança à mesa. Diante da fotografia de Escobar, ela fica confusa, e Bentinho lê nisso uma confissão. A separação é pedida por ela mesma. E, no último capítulo, Bentinho afirma que a menina de Matacavalos e a mulher da praia da Glória eram uma só, "como a fruta dentro da casca".
A leitura de que ela é inocente observa que cada um desses pontos admite outra explicação. Mais de cinquenta capítulos antes da acusação, o pai de Sancha mostra a Bentinho o retrato da falecida mulher e diz que Capitu se parece com ela, sem nenhum parentesco entre as duas: "na vida há dessas semelhanças assim esquisitas". Bentinho se lembra disso na hora de decidir e segue adiante. Capitu pede que ele diga tudo para que ela possa se defender, e ele não diz. Sobre a fotografia, o próprio narrador reconhece que ela "de boca, porém, não confessou nada". E até os olhos que a condenam foram descritos primeiro por José Dias, no meio de queixas contra Pádua, e depois pelo próprio Bentinho apaixonado.
Por isso as duas leituras seguem de pé. O que o texto permite afirmar é que Bentinho acredita ter sido traído e que o livro mostra, passo a passo, como essa convicção se formou: ele decide primeiro e relê o passado depois ("Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada"). Se Capitu o traiu de fato, o romance não diz.