Quem é
Vênus é a deusa do amor e a mãe de Enéias, filho que teve com o mortal Anquises. No poema ela é a protetora do herói e a adversária de Juno, e o que ela quer é só isso: que o filho chegue vivo à Itália. Não manda no destino, e sabe: quando a ameaça cresce, em vez de ordenar, ela pede, a Júpiter, a Netuno, a Vulcano. Age de dois modos, o disfarce e o presente, e nos dois guia o filho sem se revelar por inteiro, como na caçadora que ele não reconhece. Sua proteção é feita de medo, medo de Juno e dos tírios, e é por medo que ela usa Cupido para acender Dido, decisão que protege Enéias e custa a rainha. Por isso aparece nos momentos em que ele está mais fraco: na tempestade, na noite de Troia, no cerco e na ferida.
Trajetória
No Livro I ela se queixa a Júpiter: o que fizeram os troianos para que o mundo inteiro lhes feche o caminho? Júpiter responde com a profecia de um império sem fim. Na manhã seguinte, disfarçada de caçadora, ela encontra o filho e lhe conta a história de Dido, e Enéias não a reconhece até o andar e o perfume a denunciarem, quando ela já vai embora. Depois, com medo da instabilidade dos tírios e da ira de Juno, faz Cupido tomar a forma de Ascânio e subir ao colo da rainha para prendê-la pelo amor. O que a move é medo, não crueldade, e o custo para Dido não entra na conta.
His ego nec metas rerum nec tempora pono: / Imperium sine fine dedi., a estes não ponho limite de espaço nem de tempo: dei-lhes um império sem fim.
O, quam te memorem? virgo; namque haud tibi vultus / Mortalis, nec vox hominem sonat. O dea, certe, ó, como te chamarei, donzela? Pois teu rosto não é de mortal, nem tua voz soa humana: és deusa, certamente.
Quocirca capere ante dolis et cingere flamma / Reginam meditor, por isso penso em tomar antes a rainha com astúcia e cercá-la de fogo.
No Livro II aparece a Enéias no esplendor de deusa, quando ele está prestes a matar Helena, e o segura pela mão. Tira dele os alvos da vingança, Helena e Páris, lembra que pai, mulher e filho continuam cercados e lhe tira a névoa dos olhos para que ele veja Netuno, Juno, Palas e o próprio Júpiter derrubando Troia. Age porque o vê esquecer a família viva, e a prova é visual: a imagem dos deuses no trabalho.
Non tibi Tyndaridis facies invisa Lacaenae, / Culpatusve Paris; divum inclementia, divum, / Has evertit opes, sternitque a culmine Trojam., não é a face da lacônia Tindárida que te é odiosa, nem Páris o culpado; a inclemência dos deuses, dos deuses, é que derruba estas riquezas e abate Troia do seu cimo.
No Livro IV Juno lhe propõe casar Dido e Enéias e unir os dois povos, para reter o herói em Cartago. Vênus percebe a manobra e aceita assim mesmo, porque duvida que Júpiter admita um só povo para os dois. Dido, ao romper com Enéias, diz que ele não tem deusa por mãe e que nasceu entre rochedos e foi amamentado por tigres.
Nec tibi diva parens, generis nec Dardanus auctor, / Perfide; sed duris genuit te cautibus horrens / Caucasus, Hyrcanaeque admorunt ubera tigres, nem uma deusa é tua mãe, nem Dárdano o fundador da tua raça, pérfido; o Cáucaso hirto te gerou entre duros rochedos, e tigres da Hircânia te deram o peito.
No Livro V, aflita com o poder de Juno, pede a Netuno travessia segura até o Tibre, e ele aceita por laço de família, porque ela nasceu do mar, e por cuidado antigo, já que livrou Enéias de Aquiles em Troia. O preço vem sem rodeios: uma só vida será dada por muitas, sem nomear a vítima. Ela ouve a primeira parte e se tranquiliza, e a vítima é Palinuro.
Tutus quos optas portus accedet Averni. / Unus erit tantum, amissum quem gurgite quaeret; / Unum pro multis dabitur caput., chegará seguro ao porto do Averno que desejas. Haverá apenas um que, perdido na corrente, ele procurará; uma só cabeça será dada por muitos.
No Livro VI duas pombas dela guiam Enéias até a árvore de onde brilha o ramo de ouro, sinal de que ele é um dos chamados pelos fados.
No Livro VIII ela vai ao marido Vulcano e lhe pede armas para o filho: não pedira nada enquanto Troia caía, mas agora, por ordem de Júpiter, Enéias está nas terras dos rútulos. Vulcano cede e responde que, se ela tivesse pedido antes, ele teria armado os troianos. Ela entrega as armas ao filho em um vale perto de Cere, e é o escudo, onde Vulcano gravou a história de Roma, o que ele admira sem entender, como presente da mãe.
Illic res Italas Romanorumque triumphos, / Haud vatum ignarus, venturique inscius aevi, / Fecerat Ignipotens; illic genus omne futurae / Stirpis ab Ascanio, pugnataque in ordine bella, ali o Senhor do fogo, que não ignorava os vates nem desconhecia o tempo por vir, fizera as coisas da Itália e os triunfos dos romanos; ali toda a descendência da futura estirpe desde Ascânio, e as guerras travadas em ordem.
Talia per clypeum Vulcani, dona parentis, / Miratur, rerumque ignarus, imagine gaudet, / Attollens humero famamque et fata nepotum, tais coisas, pelo escudo de Vulcano, presente da mãe, ele admira e, sem saber das coisas, alegra-se com a imagem, erguendo ao ombro a fama e os destinos dos descendentes.
No Livro X está no concílio dos deuses, onde diz a Júpiter que o acampamento troiano está cercado e que Enéias está longe, e pede que ao menos Ascânio seja poupado. Juno rebate: Vênus tirou o filho das mãos dos gregos e pôs diante dele uma nuvem, e não pode chamar de crime a ajuda que ela dá aos rútulos.
Tu potes Aenean manibus subducere Graium, / Proque viro nebulam et ventos obtendere inanes; / Et potes in totidem classem convertere Nymphas: / Nos aliquid Rutulos contra juvisse, nefandum est!, tu podes tirar Enéias das mãos dos gregos e pôr diante dele, em lugar do homem, uma nuvem e ventos vazios; podes transformar a frota em tantas ninfas; e nós, ter ajudado os rútulos em alguma coisa, é um crime!
No Livro XI seu nome aparece por Diomedes, o grego que a feriu em Troia: ele recusa uma nova guerra com os troianos, e conta que seus companheiros viraram aves como castigo por esse ferimento, castigo que ele lê como mão dos deuses.
No Livro XII cura o filho, ferido por uma flecha de origem desconhecida: o médico Iapis não consegue tirar a ponta, e ela, movida pela dor, traz dictamo do monte Ida e o mistura em segredo à água, e a ferida se fecha. Depois, é ela quem põe na mente de Enéias a ideia de atacar a cidade de Latino, e arranca para ele a lança cravada na oliveira de Fauno.
Non haec humanis opibus, non arte magistra, / Proveniunt, neque te, Aenea, mea dextera servat; / Major agit deus atque opera ad majora remittit, isto não vem de recursos humanos nem de arte de mestre, e não é a minha mão que te salva, Enéias: um deus maior age e te devolve a obras maiores.
Urbem hodie, causam belli, regna ipsa Latini, / Ni frenum accipere et victi parere fatentur, / Eruam et aequa solo fumantia culmina ponam, hoje arrasarei a cidade, causa da guerra e reino do próprio Latino, se não aceitarem o freio e não confessarem que, vencidos, obedecem, e porei ao nível do solo os seus tetos fumegantes.
Temas que encarna
Vênus é a Paixão posta a serviço de uma estratégia: o amor que Dido sente nasce como arma de uma deusa, e o poema deixa claro que o motivo é a proteção do filho. Nela o Destino e livre-arbítrio aparece como limite, porque a deusa que tudo pode pelo filho não pode mudar o que Júpiter decidiu, e por isso pede em vez de mandar. O Dever dela é maternal, e o Império e colonialismo passa por ela de forma indireta: as armas que entrega mostram a Roma de Augusto, e o filho que ela salva é o fundador. A Guerra a atravessa no escudo, na cura de Enéias e na ideia de arrasar a cidade.
Vênus é a mãe que protege muito e explica pouco. Disfarça-se, entrega o escudo sem dizer o que há nele, mistura o remédio em segredo, e a ajuda dela, decisiva em quase todos os livros em que aparece, quase nunca vem com a explicação que o filho gostaria de ter. O mesmo fato se lê de outro modo: quem pede em vez de mandar não pode se dar ao luxo de explicar, e a discrição dela é o jeito de agir sem desafiar o destino que Júpiter fixou.
Relações
- Enéias: o filho que ela protege, guia, arma e cura.
- Juno: a deusa que o persegue, e com quem ela divide o Livro IV e o concílio do Livro X.
- Dido: a rainha que ela entrega à paixão por medo de Juno.
- Ascânio: o neto, cujo rosto ela dá a Cupido e cuja vida pede a Júpiter que poupe.
- Anquises: o mortal amado por ela, de quem nasce Enéias.
- Júpiter: o pai dos deuses a quem ela se queixa e pede.