O tema na obra
Virgílio anuncia a guerra no Livro VII como assunto maior que o das viagens, e a faz começar sem que ninguém a decida. A Fúria Alecto lança uma serpente sobre Amata e crava uma tocha em Turno; Ascânio fere o cervo manso de Sílvia, e camponeses e troianos se matam por causa do animal. Latino se recusa a abrir as portas da Guerra, e é Juno quem desce do céu e empurra os batentes.
Antes dela, o Livro II já tinha mostrado a guerra vista de dentro de uma cidade vencida. Enéias pega em armas sem razão, só porque lhe ocorre que é belo morrer lutando, e o grupo que o segue veste as armas dos gregos mortos e é atingido pelos próprios companheiros, que o tomam por inimigo. Ele vê Príamo morto diante do altar e só larga a espada quando Vênus lhe mostra os deuses derrubando os muros.
A guerra da Itália consome os jovens. No Livro IX, os troianos obedecem à ordem de Enéias de não sair dos muros enquanto Turno ronda o acampamento como um lobo faminto, e Niso e Euríalo morrem numa incursão que mistura serviço, matança além do necessário e desejo de fama. No Livro X, Palante morre pela lança de Turno, que lhe arranca o talim, e a morte do rapaz torna Enéias implacável: ele recusa o resgate de Mago e mata Lauso, a quem depois devolve as armas e o corpo.
No Livro XI, a guerra podia ter parado. Enéias concede doze dias de trégua para enterrar os mortos e diz que daria a paz também aos vivos, Diomedes recusa nova luta, Latino propõe ceder terra, mas a notícia do avanço troiano interrompe o conselho. No Livro XII, os dois lados juram um pacto e o rompem em menos de cem versos, por obra de Juno e da ninfa Juturna, irmã de Turno, e a guerra termina num duelo em que Enéias mata um homem que lhe pede a vida.
O poema canta a guerra e não a celebra. Quase todos os que a conduzem querem encerrá-la: Latino se culpa, Enéias oferece paz, Turno aceita o duelo para poupar os seus, e no Livro X Júpiter adia o ódio para o tempo em que Cartago atacar Roma. Quem a mantém são os deuses, a vaidade e a pressa. A leitura contrária também se sustenta: Júpiter só adia o ódio, não o apaga, e trata a guerra como parte do preço de Roma.
Onde aparece
- Livro II: Enéias pega em armas sem razão, só porque lhe parece belo morrer lutando, e o seu grupo, vestido com armas gregas, é atingido pelos próprios companheiros.
- Livro VII: Alecto lança uma serpente sobre Amata e uma tocha sobre Turno, e Juno empurra as portas da Guerra que o rei Latino se recusa a abrir.
- Livro VIII: Turno ergue o sinal de guerra em Laurento, e Vulcano forja, a pedido de Vênus, um escudo só contra todos os dardos dos latinos.
- Livro IX: Turno ronda o acampamento troiano como um lobo faminto, e Niso e Euríalo morrem numa incursão noturna ao campo rútulo.
- Livro X: Turno mata Palante e arranca-lhe o talim, e Enéias, sem pausa, recusa o resgate de Mago.
- Livro XI: Enéias concede doze dias de trégua para enterrar os mortos, mas Diomedes recusa nova luta e a notícia do avanço troiano interrompe o conselho latino.
- Livro XII: Os dois lados juram um pacto e o rompem logo, por obra de Juno e de Juturna, e a guerra termina no duelo em que Enéias mata Turno.
Passagens
O poeta avisa que a matéria cresceu.
Tu vatem, tu, diva, mone: dicam horrida bella; / Dicam acies actosque animis in funera reges, / Tyrrhenamque manum, totamque sub arma coactam / Hesperiam. Major rerum mihi nascitur ordo; / Majus opus moveo, tu, deusa, inspira o poeta: cantarei guerras horrendas, batalhas e reis levados pela coragem à morte, a tropa tirrena e toda a Hespéria reunida em armas. Nasce para mim uma ordem maior de acontecimentos; ponho em movimento uma obra maior.
Juno, vencida no destino, escolhe o que ainda pode: a demora e o custo.
Non dabitur regnis (esto) prohibere Latinis, / Atque immota manet fatis Lavinia conjux: / At trahere, atque moras tantis licet addere rebus; / At licet amborum populos exscindere regum. / Hac gener atque socer coeant mercede suorum. / Sanguine Trojano et Rutulo dotabere, virgo; / Et Bellona manet te pronuba, não me será dado impedi-los de reinar entre os latinos (seja), e Lavínia continua esposa certa pelos fados: mas posso arrastar e pôr demoras em tamanha empresa; posso exterminar os povos dos dois reis. Que genro e sogro se unam por esse preço, o dos seus. Com sangue troiano e rútulo serás dotada, virgem; e Belona te espera como madrinha das bodas.
Turno, rondando o muro, é um lobo à espera da presa.
Ac veluti pleno lupus insidiatus ovili, / Cum fremit ad caulas, ventos perpessus et imbres, / Nocte super media; tuti sub matribus agni / Balatum exercent: ille, asper et improbus ira, / Saevit in absentes; collecta fatigat edendi / Ex longo rabies, et siccae sanguine fauces: / Haud aliter Rutulo muros et castra tuenti / Ignescunt irae, et duris dolor ossibus ardet, Como o lobo, à espreita junto ao redil cheio, que freme nas cercas depois de aguentar ventos e chuva em plena noite, enquanto os cordeiros, a salvo sob as mães, balem: ele, áspero e furioso, enfurece-se contra os que não alcança, e a raiva de comer, acumulada de longe, o fatiga, e as goelas secam de sangue. Assim, a Turno, que vigia muros e acampamento, a ira se acende e a dor arde nos ossos duros.
O narrador diz a Turno, sobre o talim de Palante, o que ele ainda não sabe.
Nescia mens hominum fati sortisque futurae, / Et servare modum, rebus sublata secundis! / Turno tempus erit, magno cum optaverit emptum / Intactum Pallanta, et cum spolia ista diemque / Oderit, ó espírito humano, ignorante do destino e da sorte que virá, e incapaz de guardar a medida quando a prosperidade o exalta! Chegará o tempo em que Turno desejará ter pago caro para ver Palante intacto, e odiará estes despojos e aquele dia.
Júpiter adia o ódio para o tempo em que Cartago atacar Roma.
Adveniet justum pugnae (ne arcessite) tempus, / Cum fera Carthago Romanis arcibus olim / Exitium magnum atque Alpes immittet apertas. / Tum certare odiis, tum res rapuisse licebit: / Nunc sinite, et placitum laeti componite foedus, virá o tempo justo para a luta (não o apressem), quando a cruel Cartago lançar um dia grande ruína sobre as fortalezas romanas e abrir os Alpes. Então será lícito disputar com ódio e saquear; agora deixem isso e firmem, contentes, a paz combinada.
O poema termina no golpe, sem casamento, sem fundação e sem luto.
Hoc dicens, ferrum adverso sub pectore condit / Fervidus: ast illi solvuntur frigore membra, / Vitaque cum gemitu fugit indignata sub umbras, dizendo isto, cravou o ferro, ardente, no peito à sua frente; os membros dele se soltam em frio, e a vida, com um gemido, foge indignada para as sombras.