Quem é
Palante é o filho de Evandro, rei dos árcades, um rapaz novo demais para a guerra e ansioso por ela. Corre de lança ao encontro dos navios de Enéias antes de saber quem são, porque não quer que o rito do pai seja interrompido, e depois parte como aliado e aprendiz do herói troiano. Quer o que a idade ainda não lhe deu: o nome de guerreiro. O papel dele no poema é o de vítima que muda o curso da história: a morte dele transforma Enéias e fornece o objeto, o talim, que decide o fim do poema.
Trajetória
No Livro VIII Palante surge no bosque onde o pai celebra Hércules, e é ele quem enfrenta os recém-chegados, de lança na mão, e pergunta quem são. Enéias responde com um ramo de oliveira. Evandro, ao fechar a aliança, entrega o filho com duzentos cavaleiros árcades, e outros duzentos em nome do rapaz, para que aprenda o ofício ao lado de quem sabe, e a despedida do pai, que mal suporta largá-lo, já deixa o leitor inquieto.
Non ego nunc dulci amplexu divellerer usquam, / Nate, tuo; neque finitimo Mezentius unquam / Huic capiti insultans, tot ferro saeva dedisset / Funera, tam multis viduasset civibus urbem, eu agora não seria arrancado do teu doce abraço, filho; e Mezêncio, insultando esta cabeça tão vizinha, não teria feito tantas mortes a ferro nem deixado viúva de tantos cidadãos a cidade.
No Livro X Palante navega ao lado de Enéias perguntando pelas estrelas. No desembarque, os árcades, a pé e em terreno ruim, começam a fugir, e ele os envergonha: não há deus contra eles, são homens contra homens, e atrás há só o mar. Avança e mata. Turno o vê e reclama o duelo só para si, querendo que o pai do rapaz assista. Palante sabe que tem menos força, reza a Hércules, que foi hóspede de Evandro, e vai ao duelo assim mesmo: voltar atrás seria desmentir o discurso com que prendeu os seus. Hércules chora, e Júpiter o consola dizendo que cada um tem o seu dia.
Per patris hospitium, et mensas quas advena adisti, / Te precor, Alcide, coeptis ingentibus adsis; / Cernat semineci sibi me rapere arma cruenta, / Victoremque ferant morientia lumina Turni, pelo acolhimento de meu pai e pelas mesas a que chegaste como estrangeiro, peço-te, Alcides, assiste a esta grande empresa; que Turno, meio morto, veja que lhe arranco as armas sangrentas, e que seus olhos agonizantes me tenham por vencedor.
Palante acerta Turno de raspão, e Turno o atravessa com a lança. Pisa o corpo, devolve-o a Evandro com o recado de que a hospitalidade de Enéias não sairá barata e arranca o talim, onde está gravado o massacre dos maridos pelas filhas de Dânao. O narrador interrompe a cena e diz que Turno odiará esse despojo um dia, e é a promessa que o poema cumprirá no último livro.
rapiens immania pondera baltei, / Impressumque nefas: una sub nocte jugali / Caesa manus juvenum foede thalamique cruenti, arrancando o enorme peso do talim e o crime nele gravado: um grupo de jovens degolado, de modo atroz, numa só noite de núpcias, e os leitos cheios de sangue.
A morte de Palante transforma Enéias: ele recusa o resgate de Mago, citando o rapaz, e reserva oito jovens vivos para a pira dele.
Argenti atque auri memoras quae multa talenta, / Gnatis parce tuis: belli commercia Turnus / Sustulit ista prior, jam tum Pallante perempto. / Hoc patris Anchisae Manes, hoc sentit Iulus, a prata e o ouro de que falas em tantos talentos, guarda-os para teus filhos: Turno foi o primeiro a abolir esses negócios de guerra, quando matou Palante. Isto sentem as sombras de meu pai Anquises e Iulo.
No Livro XI Enéias fala junto ao corpo, cobre-o com um dos mantos que Dido tecera para ele e se despede com palavras de quem se sente devedor da promessa feita a Evandro.
Salve aeternum mihi, maxime Palla, / Aeternumque vale, salve para sempre, meu grande Palante, e para sempre adeus.
No Livro XII Palante volta como nome: ao ver o talim no ombro de Turno, Enéias o nomeia duas vezes e atribui a ele o golpe final.
Tune hinc spoliis indute meorum / Eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas / Immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit, tu, vestido com os despojos dos meus, escaparás de mim daqui? Palante, Palante te imola com este golpe e cobra a pena do teu sangue criminoso.
Temas que encarna
Palante reúne Guerra, pela morte de um rapaz que pedia para lutar, Dever, pelo pacto de hospitalidade que o pai assume ao entregá-lo, e Destino e livre-arbítrio, pela fala de Júpiter que o põe ao lado de Turno e de Sarpédon como caso de dia marcado. Por ele, o poema mostra que a fundação de Roma cobra vidas novas e que a cobrança volta contra quem as tomou.
Palante e Lauso, o filho de Mezêncio, morrem jovens: Palante buscando a glória do duelo com Turno, Lauso protegendo o pai ferido. Enéias reconhece a piedade de Lauso ao matá-lo e sente pena dele, e acende em fúria diante do talim de Palante. As duas mortes empurram os dois pais para o fim.