Quem é
Ascânio, também chamado Iulo, é o filho de Enéias e de Creúsa. Quando o poema começa é um menino, e o poema o trata como o futuro que o destino puxa adiante: Júpiter promete a Vênus que ele reinará em Alba, e é em nome dele que Mercúrio repreende Enéias em Cartago. O que ele mesmo quer, quando passa a querer alguma coisa, é glória: atira num cervo por amor à glória, promete despojos aos que se oferecem para a missão mais perigosa e mata com a primeira flecha de guerra quem o insulta. O poema o faz crescer de livro em livro, de menino conduzido pela mão a menino que dá ordem a adultos e, no fim, a filho que ouve o pai despedir-se antes do combate decisivo. Por Iulo, é tido como o ancestral da família Júlia, a de Júlio César e de Augusto, e é esse o elo que liga a linhagem troiana ao principado romano.
Trajetória
No Livro I é objeto de promessa e de engano. Júpiter anuncia a Vênus que ele reinará em Alba e que da linhagem de Iulo sairá um César. Vênus, que desconfia dos tírios, faz Cupido tomar a forma de Ascânio e subir ao colo de Dido para acender nela a paixão por Enéias, e o verdadeiro menino nada sabe do que fazem com o rosto dele.
Quocirca capere ante dolis et cingere flamma / Reginam meditor, por isso penso em tomar antes a rainha com astúcia e cercá-la de fogo.
No Livro II sai de Troia pela mão do pai. Quando Enéias, decidido a voltar à luta, esbarra em Creúsa, é ela quem lhe estende o menino e pede que leve a família ou defenda primeiro a casa. Uma chama que não queima aparece sobre a cabeça dele, e é esse sinal que faz Anquises ceder e aceitar o exílio. No Livro III acompanha a errância, e em Butroto Andrômaca lhe dá vestes bordadas, porque ele lembra Astíanax, o filho que ela perdeu.
Si periturus abis, et nos rape in omnia tecum; / Sin aliquam expertus sumptis spem ponis in armis, / Hanc primum tutare domum, se partes para morrer, leva-nos também contigo para tudo; mas se, depois de provar as armas, ainda pões alguma esperança nelas, protege primeiro esta casa.
No Livro IV é uma razão e uma imprecação. Dido o segura no colo à noite para enganar o amor que sente pelo pai. Júpiter diz a Mercúrio que, se a glória de Roma não move Enéias, ele deve pensar em Ascânio, a quem a Itália é devida. E na maldição que lança sobre os troianos, Dido pede que Enéias seja arrancado do abraço de Iulo.
Tum vos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum / Exercete odiis, cinerique haec mittite nostro / Munera: nullus amor populis nec foedera sunto. / Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor, / Qui face Dardanios ferroque sequare colonos. / Nunc, olim, quocumque dabunt se tempore vires, / Littora littoribus contraria, fluctibus undas / Imprecor, arma armis: pugnent ipsique nepotes, e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
No Livro V conduz os meninos a cavalo nas manobras que lembram um labirinto, e o narrador interrompe a cena para dizer que Ascânio trouxe esse jogo a Alba, Alba o passou a Roma, e os meninos ainda se chamam o esquadrão troiano. Quando as troianas, instigadas por Íris, lançam fogo às naus, ele galopa até o acampamento, joga fora o capacete e pede que parem, dizendo que elas queimam as próprias esperanças. A frase funciona porque ele é o futuro que elas dizem querer.
Hunc morem, hos cursus, atque haec certamina primus / Ascanius, longam muris cum cingeret Albam, / Rettulit, et priscos docuit celebrare Latinos, / Quo puer ipse modo, secum quo Troia pubes: / Albani docuere suos: hinc maxima porro / Accepit Roma, et patrium servavit honorem; / Trojaque nunc pueri, Trojanum dicitur agmen., este costume, estas corridas e estes combates, foi Ascânio o primeiro a trazê-los de volta, quando cercava de muros Alba Longa, e ensinou os antigos latinos a celebrá-los como ele mesmo, menino, e a juventude troiana com ele; os albanos o ensinaram aos seus; daí a grande Roma o recebeu e guardou a honra dos pais; e hoje os meninos se chamam Troia, e o esquadrão, troiano.
Quis furor iste novus? quo nunc, quo tenditis, inquit, / Heu! miserae cives? non hostem, inimicaque castra / Argivum: vestras spes uritis. En ego vester / Ascanius, que furor novo é este? Aonde ides agora, aonde, disse ele, ó míseras cidadãs? Não queimais inimigo nem acampamento hostil dos argivos: queimais as vossas esperanças. Eis-me aqui, o vosso Ascânio.
No Livro VII diz sem querer a frase que cumpre a profecia: faminto, brinca que agora comem até as mesas. Logo depois, atiçado por Alecto, fere com uma flecha o cervo manso de Sílvia, atira por amor à glória e sem saber de quem era o animal. É o primeiro sangue da guerra, porque os camponeses chegam armados e os troianos acodem. Sílvia é a primeira a pedir socorro, e o narrador chama esse episódio de primeira causa dos males.
Heus! etiam mensas consumimus, inquit Iulus, / Nec plura, alludens, olha! até as mesas estamos comendo, diz Iulo, e nada mais, em tom de brincadeira.
Silvia prima soror, palmis percussa lacertos, / Auxilium vocat, et duros conclamat agrestes, Sílvia, a irmã, batendo com as palmas nos próprios braços, é a primeira a pedir socorro e convoca aos gritos os duros camponeses.
No Livro VIII ele é nomeado, não visto. O deus do rio Tibre diz a Enéias que Ascânio fundará Alba trinta anos depois, no lugar onde estiver a porca branca, e o escudo que Vulcano forjou mostra toda a descendência da estirpe a partir dele.
Illic res Italas Romanorumque triumphos, / Haud vatum ignarus, venturique inscius aevi, / Fecerat Ignipotens; illic genus omne futurae / Stirpis ab Ascanio, pugnataque in ordine bella, ali o Senhor do fogo, que não ignorava os vates nem desconhecia o tempo por vir, fizera as coisas da Itália e os triunfos dos romanos; ali toda a descendência da futura estirpe desde Ascânio, e as guerras travadas em ordem.
No Livro IX fica sitiado no acampamento com a ordem de não sair. Quando Niso e Euríalo se oferecem para levar o aviso a Enéias, promete taças, trípodes, ouro, o cavalo e as armas de Turno, mulheres cativas e as terras do rei Latino, e chora e jura tratar como mãe a mãe de Euríalo, que o rapaz deixa sem despedida. Mais tarde um dos rútulos, Numano Rêmulo, insulta os troianos de frígias que deveriam deixar a guerra aos homens, e Ascânio o mata com a primeira flecha de guerra. Apolo, com a forma de Butes, antigo escudeiro de Anquises, aprova o tiro e manda que se retire, porque a guerra futura cabe à linhagem dele.
Unum oro: genitrix Priami de gente vetusta / Est mihi, quam miseram tenuit non Ilia tellus / Mecum excedentem, non moenia regis Acestae; / Hanc ego nunc ignaram hujus quodcumque pericli est, / Inque salutatam linquo; nox et tua testis / Dextera, quod nequeam lacrymas perferre parentis. / At tu, oro, solare inopem, et succurre relictae; / Hanc sine me spem ferre tui, audentior ibo / In casus omnes, Só uma coisa peço: tenho uma mãe, de velha linhagem de Príamo, a quem nem a terra de Ílio nem as muralhas do rei Acestes retiveram, pobre, quando saiu comigo. Eu a deixo agora sem saber de qualquer perigo que este seja, e sem despedida; a noite e a tua destra são testemunhas de que não poderia suportar as lágrimas de minha mãe. Mas tu, peço, consola a desamparada e socorre a abandonada; deixa-me levar comigo essa esperança em ti, e irei mais ousado a todos os perigos.
Sit satis, Aeneide, telis impune Numanum / Oppetiisse tuis: primam hanc tibi magnus Apollo / Concedit laudem, et paribus non invidet armis. / Cetera parce, puer, bello, Baste, filho de Enéias, que Numano tenha morrido sem castigo a ti por tuas flechas: esta primeira glória te concede o grande Apolo, e não inveja armas iguais às suas. No mais, poupa-te, menino, da guerra.
No Livro X Vênus pede a Júpiter que ao menos ele seja poupado, e a ninfa Cimódoce avisa Enéias de que o menino está preso entre muro e fosso, no meio dos latinos. Quando Enéias desembarca e ergue o escudo em chamas, é Ascânio, com os outros cercados, quem rompe o cerco.
Vigilasne, deum gens, / Aenea? Vigila, et velis immitte rudentes. [...] At puer Ascanius muro fossisque tenetur / Tela inter media atque horrentes Marte Latinos, estás acordado, descendente de deuses, Enéias? Fica atento e solta as cordas das velas. [...] O menino Ascânio está preso entre muro e fosso, no meio das armas e dos latinos eriçados de guerra.
No Livro XII o pai, curado da flecha, beija-o por cima do elmo antes de voltar à luta e lhe diz que aprenda dele o valor e o trabalho verdadeiro, e a sorte de outros.
Disce, puer, virtutem ex me verumque laborem; / [...] Nunc te mea dextera bello / Defensum dabit et magna inter praemia ducet, aprende de mim, menino, o valor e o trabalho verdadeiro; agora a minha mão te dará defendido na guerra e te conduzirá entre grandes prêmios.
Temas que encarna
Ascânio encarna o Destino e livre-arbítrio pelo lado da promessa: quase tudo o que os deuses fazem por Enéias e contra ele é feito em nome do que ele será, e o menino não escolhe nenhuma das etapas. Ao dever do pai ele responde com o Dever de herdeiro, que o poema pede a ele cedo demais, e nas cenas do incêndio das naus e do cerco age como adulto. O Lar, exílio e retorno passa por ele na imagem do menino conduzido pela mão, e o Império e colonialismo na genealogia que vai de Alba a Roma e ao César da profecia. A Guerra começa, em parte, nas mãos dele, no cervo do Livro VII e na flecha do Livro IX.
Ascânio é a pergunta que o poema faz sobre o preço do futuro. Todos agem por ele, e ele só age de fato quando erra por glória, no cervo, ou quando acerta cedo demais, em Numano, e em ambos os casos os adultos o recolhem. O menino que justifica a Itália é também o que pode custar a guerra, e o poema mostra as duas coisas sem escolher.
Relações
- Enéias: o pai, que o conduz pela mão e lhe deixa a lição do valor e do trabalho.
- Creúsa: a mãe, que o estende ao pai na soleira da casa e desaparece na fuga.
- Anquises: o avô, que cede à chama sobre a cabeça do neto e prediz a fome das mesas.
- Vênus: a avó divina, que usa o rosto dele para acender Dido e pede a Júpiter que o poupe.
- Dido: a rainha que o segura no colo, sem saber quem está nele.
- Niso e Euríalo: os dois a quem ele faz promessas e a quem jura cuidar da mãe de Euríalo.
- Turno: o inimigo diante do acampamento, de quem ele promete as armas.
Na arte
As três gerações da fuga, com ele pela mão do pai, estão na pintura A Fuga de Enéias de Troia e na escultura Enéias, Anquises e Ascânio.