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Personagem

Evandro

Quem é

Evandro é o velho rei dos árcades que vive, pobre e em paz com os deuses, no monte onde um dia vai nascer Roma. Foi expulso da pátria, a Arcádia, e fundou ali uma cidadezinha de choças chamada Palanteu, ajudado pela mãe, a ninfa Carmenta, e pelo deus Apolo. Quando Enéias chega ao Lácio e procura aliados, Evandro o acolhe, lhe dá cavaleiros e lhe entrega o filho, Palante, para aprender a guerra. O que ele quer é pouco e é tudo: terminar a velhice em segurança, com o filho vivo ao lado. O papel dele no poema é duplo: mostra a Enéias, e ao leitor, o lugar onde Roma vai nascer, e paga, com a morte de Palante, o preço da aliança que ele mesmo propôs.

Trajetória

No Livro VIII Evandro aparece celebrando Hércules num bosque diante da cidade, com o filho e os jovens árcades. Reconhece em Enéias o rosto e a voz de Anquises, a quem conheceu quando jovem, e aceita a aliança. Para explicar o rito que interrompeu, conta como Hércules matou Caco, o monstro que roubava gado e vivia numa caverna do Aventino, e a história serve de modelo: um hóspede de fora chega, livra o lugar de um flagelo, ganha culto e segue viagem. Depois leva Enéias pela futura Roma, que ele mostra ainda em mato e pedra, e na choça pede ao hóspede que despreze as riquezas, como o deus que ali entrou.

Haec, inquit, limina victor / Alcides subiit: haec illum regia cepit. / Aude, hospes, contemnere opes, et te quoque dignum / Finge deo, rebusque veni non asper egenis, estes umbrais o vencedor, neto de Alceu, transpôs; este palácio o recebeu. Ousa, hóspede, desprezar as riquezas, faz-te também digno do deus, e vem sem aspereza para a casa pobre.
Livro VIII: O escudo

Na manhã seguinte Evandro diz que as forças dele são pequenas e aponta outra fonte de ajuda: os etruscos de Agila, que expulsaram o rei Mezêncio, o tirano que matava atando mortos a vivos. Recusa o comando que o chefe etrusco lhe oferece, por velho, e quer Enéias como chefe. Na despedida, entrega Palante e confessa que, se tivesse a força que teve em Preneste, não deixaria o filho partir, e cai desfalecido.

Non ego nunc dulci amplexu divellerer usquam, / Nate, tuo; neque finitimo Mezentius unquam / Huic capiti insultans, tot ferro saeva dedisset / Funera, tam multis viduasset civibus urbem, eu agora não seria arrancado do teu doce abraço, filho; e Mezêncio, insultando esta cabeça tão vizinha, não teria feito tantas mortes a ferro nem deixado viúva de tantos cidadãos a cidade.
Livro VIII: O escudo

No Livro X Evandro não aparece em cena, mas é o destinatário de tudo. Turno mata Palante, manda devolver o corpo ao pai e diz que a hospitalidade de Enéias não lhe sairá barata: o poema faz do velho um alvo, porque ferir o filho é ferir o pai e, por tabela, o hóspede.

Arcades, haec, inquit, memores mea dicta referte / Evandro; qualem meruit, Pallanta remitto; / Quisquis honos tumuli, quidquid solamen humandi est, / Largior: haud illi stabunt Aeneia parvo / Hospitia, árcades, lembrem-se e levem estas palavras a Evandro: devolvo-lhe Palante tal como mereceu; qualquer honra de túmulo, qualquer consolo de sepultar, eu concedo; mas a hospitalidade de Enéias não lhe sairá barata.
Livro X: A batalha

No Livro XI o corpo de Palante chega a Palanteu, e Evandro cai sobre ele. Não culpa os troianos nem o pacto de hospitalidade: diz que a morte do filho foi a sorte que a velhice lhe devia. A cobrança que faz a Enéias é pessoal, e a única razão que lhe resta para viver é saber que Turno será morto.

Quod vitam moror invisam, Pallante perempto, / Dextera causa tua est, Turnum gnatoque patrique / Quam debere vides: meritis vacat hic tibi solus / Fortunaeque locus, se ainda me demoro numa vida odiosa, morto Palante, a causa é a tua mão: vês que ela deve Turno ao filho e ao pai; só este lugar resta para os teus méritos e a tua fortuna.
Livro XI: Camila

No Livro XII ele não fala, mas o pedido dele decide o último verso do poema: quando Enéias, prestes a poupar Turno, vê o talim de Palante no ombro do inimigo, é Palante, e atrás dele o pai, quem recebe o golpe como sacrifício.

Temas que encarna

Evandro é a face doméstica de Dever: o dever da hospitalidade, que o faz abrir a casa e o filho a um estrangeiro, e o dever do luto, que o faz exigir a morte do matador. Ele também carrega Lar, exílio e retorno, porque é outro exilado que fez de um monte deserto a pátria, e Guerra, porque a guerra passa por ele como perda, sem glória.

O poema dá a Evandro um papel parecido com o de Príamo na Ilíada: o velho que sobrevive ao filho e faz o seu pedido ao guerreiro que pode atendê-lo: Príamo pede a Aquiles o corpo de Heitor, Evandro pede a Enéias a morte de Turno. A diferença é que Príamo suplica ao próprio inimigo, e Evandro cobra do aliado que ele mesmo escolheu e a quem confiou o rapaz.

Relações

  • Palante: o filho que ele entrega a Enéias e não recebe de volta vivo.
  • Enéias: o hóspede e aliado a quem confia o rapaz, e de quem depois cobra Turno.
  • Turno: o matador de Palante, que manda o corpo ao pai e lhe deixa o recado.
  • Mezêncio: o tirano etrusco cujas crueldades Evandro conta a Enéias, e cuja vizinhança ele já sofria.
  • Anquises: o amigo de moço que ele revê no rosto de Enéias.