O tema na obra
O poema chama Enéias de piedoso, e piedade, na Eneida, quer dizer dever: o que se deve aos deuses, ao pai, ao filho, ao hóspede e aos mortos. Raramente aparece como sentimento. Aparece como gesto: quem carrega quem, quem faz o rito, quem cumpre a palavra dada.
No Livro II, Enéias sai de Troia com Anquises nos ombros, e é o pai que leva os Penates, porque o filho, sujo de sangue, não pode tocá-los. Ele perde Creúsa na fuga e só dá pela falta no ponto de encontro. No Livro III, a voz de Polidoro, morto pelo rei trácio por causa do ouro, mostra o que acontece a quem viola a hospitalidade, e Enéias não decide sozinho: leva o caso aos chefes e ao pai e deixa a terra manchada.
Os deveres entram em choque. No Livro IV, Mercúrio censura Enéias por erguer a cidade de outro povo, esquecido do reino e de Ascânio, a quem a Itália é devida, e a partida, que ele cumpre abalado por grande amor, termina na morte de Dido. No Livro V, os jogos no túmulo de Anquises, um ano depois da morte, mostram o dever como rito que se cumpre em plena fuga: ao ver a serpente sair do túmulo, Enéias renova as honras com mais empenho. No Livro VI, ele apoia o pedido de ver o pai no Averno no que fez por ele nas chamas, mas antes sepulta Miseno, porque os insepultos não atravessam o rio e o amigo morto contamina a frota.
A guerra dos livros finais mostra o dever que une pais e filhos. No Livro IX, Euríalo parte para a incursão sem se despedir da mãe, que o seguiu desde Troia, e pede a Ascânio que cuide dela, para ir mais ousado. No Livro X, Palante cai diante de Turno, e Enéias recusa o resgate de Mago em nome do rapaz; ao matar Lauso, que se atirou à frente do pai ferido, devolve-lhe as armas e o corpo, porque reconhece nele a piedade filial que é a sua. No Livro XI, diante do corpo de Palante, lamenta ter faltado à palavra dada a Evandro: "esta é a minha grande fé".
O dever na Eneida tem preço, e o poema o mostra em nomes: Creúsa, Dido, Palinuro, Euríalo, Palante. A piedade de Enéias não é doçura, é fidelidade a uma lista de obrigações que nem sempre cabe junta. No Livro XII, ele quase cede à súplica de Turno, que invoca Anquises, e mata ao ver o talim de Palante: o poema não decide se isso é o dever para com um morto ou a perda da medida.
Onde aparece
- Livro II: Enéias carrega Anquises nos ombros, e Anquises leva os Penates porque o filho, sujo de sangue, não os pode tocar.
- Livro III: Polidoro revela a Enéias que o rei trácio o matou por ouro, e Enéias leva o caso aos chefes e ao pai antes de decidir deixar a terra manchada.
- Livro IV: Mercúrio censura Enéias por erguer Cartago esquecido do reino e de Ascânio, e Enéias manda aprontar a frota mesmo abalado por grande amor.
- Livro V: Enéias celebra no túmulo de Anquises os jogos do aniversário da morte do pai e, ao ver a serpente, renova as honras com mais empenho.
- Livro VI: Enéias recorda à Sibila que tirou o pai das chamas nos ombros, pede para vê-lo no Averno e antes sepulta Miseno.
- Livro IX: Euríalo recusa ficar para trás na incursão e pede a Ascânio que cuide da mãe que deixa sem despedida.
- Livro X: Enéias recusa o resgate de Mago em nome de Palante e devolve a Lauso as armas e o corpo, reconhecendo nele a piedade filial.
- Livro XI: Enéias cobre o corpo de Palante com um manto tecido por Dido e lamenta ter faltado à palavra dada a Evandro.
Passagens
Enéias apoia o pedido de ver o pai no que já fez por ele.
Ire ad conspectum cari genitoris et ora / Contingat; doceas iter, et sacra ostia pandas. / Illum ego per flammas et mille sequentia tela / Eripui his humeris, medioque ex hoste recepi, que me seja dado ir ver o rosto do meu querido pai; ensina o caminho e abre as portas sagradas. Eu o tirei de lá, nestes ombros, por entre chamas e mil dardos que vinham atrás, e o recolhi do meio do inimigo
Mercúrio cobra de Enéias o reino que ele esqueceu ao erguer Cartago.
Tu nunc Carthaginis altae / Fundamenta locas, pulchramque uxorius urbem / Exstruis? heu! regni rerumque oblite tuarum!, tu agora lanças os alicerces da alta Cartago e, submisso à mulher, ergues uma bela cidade? Ai, esquecido do teu reino e das tuas coisas!
Euríalo deixa a mãe sem despedida e entrega o cuidado dela a Ascânio.
Unum oro: genitrix Priami de gente vetusta / Est mihi, quam miseram tenuit non Ilia tellus / Mecum excedentem, non moenia regis Acestae; / Hanc ego nunc ignaram hujus quodcumque pericli est, / Inque salutatam linquo; nox et tua testis / Dextera, quod nequeam lacrymas perferre parentis. / At tu, oro, solare inopem, et succurre relictae; / Hanc sine me spem ferre tui, audentior ibo / In casus omnes, Só uma coisa peço: tenho uma mãe, de velha linhagem de Príamo, a quem nem a terra de Ílio nem as muralhas do rei Acestes retiveram, pobre, quando saiu comigo. Eu a deixo agora sem saber de qualquer perigo que este seja, e sem despedida; a noite e a tua destra são testemunhas de que não poderia suportar as lágrimas de minha mãe. Mas tu, peço, consola a desamparada e socorre a abandonada; deixa-me levar comigo essa esperança em ti, e irei mais ousado a todos os perigos.
Enéias devolve o corpo de Lauso e reconhece nele a própria piedade.
Quid tibi nunc, miserande puer, pro laudibus istis, / Quid pius Aeneas tanta dabit indole dignum? / Arma, quibus laetatus, habe tua: teque parentum / Manibus et cineri (si qua est ea cura) remitto. / Hoc tamen infelix miseram solabere mortem; / Aeneae magni dextra cadis, que dará agora, pobre menino, em troca de tais louvores, que dará o piedoso Enéias digno de tamanha índole? Guarda as armas de que te orgulhavas; e te devolvo às sombras e às cinzas de teus pais, se isso lhes importa. Mas terás, infeliz, este consolo na tua triste morte: cais pela mão do grande Enéias.
Diante do corpo de Palante, Enéias mede o que prometera a Evandro.
Hi nostri reditus, exspectatique triumphi? / Haec mea magna fides!, é este o nosso regresso, são estes os triunfos esperados? Esta é a minha grande fé!
No fim, a lembrança de Palante vence a súplica de Turno.
Tune hinc spoliis indute meorum / Eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas / Immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit, tu, vestido com os despojos dos meus, escaparás de mim daqui? Palante, Palante te imola com este golpe e cobra a pena do teu sangue criminoso.