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Personagem

Turno

Quem é

Turno é o rei dos rútulos, filho de Dauno e da ninfa Venília, irmão da ninfa Juturna, e o antagonista da segunda metade da Eneida. Ele não é um invasor nem um tirano: quando Enéias chega à foz do Tibre, Turno já é o pretendente reconhecido de Lavínia, filha única do rei Latino, com o apoio declarado da rainha Amata. O que ele quer é a noiva e o reino que vem com ela, e a honra de não ser visto recuando diante dos seus. O poema o apresenta assim, pelo direito, antes de o apresentar pela fúria.

Multi illam magno e Latio totaque petebant / Ausonia. Petit ante alios pulcherrimus omnes / Turnus, avis atavisque potens; quem regia conjux / Adjungi generum miro properabat amore: / Sed variis portenta deum terroribus obstant, muitos a pretendiam, do grande Lácio e de toda a Ausônia. Pede-a antes de todos Turno, o mais belo, poderoso por avós e bisavós, e a rainha, sua esposa, apressava com extraordinário amor que ele lhe fosse unido como genro. Mas portentos dos deuses se opõem, com terrores variados.
Livro VII: A chegada ao Lácio

É essa a chave do personagem: a guerra do Lácio não começa porque Turno queira o que não é dele, mas porque um oráculo entrega a outro homem o que já era dele por acordo. Todo o resto do arco é a consequência de um noivado desfeito por decreto divino.

Trajetória

No Livro VII, Turno não escolhe a guerra: é possuído por ela. Alecto, a fúria que Juno convoca do Averno quando percebe que não vencerá no céu, vai até ele disfarçada de velha sacerdotisa de Juno; ele a escarnece e manda que cuide dos templos, e só então ela mostra o rosto verdadeiro e lhe crava um facho aceso no peito.

Saevit amor ferri, et scelerata insania belli, / Ira super: magno veluti cum flamma sonore / Virgea suggeritur costis undantis aheni, / Exsultantque aestu latices; furit intus aquai / Fumidus atque alte spumis exuberat amnis; / Nec jam se capit unda, volat vapor ater ad auras, enfurece-se o amor do ferro e a insânia criminosa da guerra, e a ira por cima: como quando uma chama de gravetos, com grande ruído, é posta sob os flancos de um caldeirão fervente, e os líquidos saltam com o calor; por dentro a água se enfurece, fumegante, e transborda alto em espuma; já a onda não se contém, voa um vapor escuro ao ar.
Livro VII: A chegada ao Lácio

O Livro VII mostra que ninguém ali quer a guerra por razão própria: Latino a recusa até abandonar o trono, Amata age tomada por uma serpente de Alecto, os camponeses matam por causa de um cervo manso. Turno é o terceiro caso da mesma série, e isso pesa depois, na hora de julgar o fecho, porque quem paga a conta mais alta é justamente quem menos decidiu abrir a conta. Ao mesmo tempo, o veneno não cria o que ele sente: Turno já sabia dos navios e perdia a noiva e o trono, e o que o faz rejeitar a velha é o desprezo por quem lhe fala de armas.

No Livro VIII, é Turno quem ergue da cidadela de Laurento o sinal de guerra, e os latinos se sublevam; enquanto Enéias busca aliados em Palanteu, Turno reúne os seus.

No Livro IX, com Enéias ausente, Turno ataca o arraial troiano e conduz sozinho o livro inteiro. Ronda os muros comparado a um lobo faminto junto ao curral, incendeia a frota, e só não decide a guerra ali porque, tendo entrado sozinho nas trincheiras inimigas, não abre a porta para os próprios homens. Ao ver as naus virarem ninfas, lê o prodígio a seu favor e diz ter também os seus destinos: acabar com os troianos que lhe tiraram a noiva.

Ac veluti pleno lupus insidiatus ovili, / Cum fremit ad caulas, ventos perpessus et imbres, / Nocte super media; tuti sub matribus agni / Balatum exercent: ille, asper et improbus ira, / Saevit in absentes; collecta fatigat edendi / Ex longo rabies, et siccae sanguine fauces: / Haud aliter Rutulo muros et castra tuenti / Ignescunt irae, et duris dolor ossibus ardet, Como o lobo, à espreita junto ao redil cheio, que freme nas cercas depois de aguentar ventos e chuva em plena noite, enquanto os cordeiros, a salvo sob as mães, balem: ele, áspero e furioso, enfurece-se contra os que não alcança, e a raiva de comer, acumulada de longe, o fatiga, e as goelas secam de sangue. Assim, a Turno, que vigia muros e acampamento, a ira se acende e a dor arde nos ossos duros.
Livro IX: O cerco

No Livro X, a morte de Palante e o talim decidem o desfecho do poema. Turno toma para si o duelo com Palante, o jovem que Evandro confiara a Enéias, mata-o com um único golpe e arranca do corpo o talim gravado com as Danaides degolando os maridos.

Tempus desistere pugna; / Solus ego in Pallanta feror; soli mihi Pallas / Debetur: cuperem ipse parens spectator adesset, é hora de deixar a luta; sou eu só quem avança contra Palante, só a mim Palante é devido: quisera que o próprio pai dele estivesse aqui, como espectador.
Livro X: A batalha
rapiens immania pondera baltei, / Impressumque nefas: una sub nocte jugali / Caesa manus juvenum foede thalamique cruenti, arrancando o enorme peso do talim e o crime nele gravado: um grupo de jovens degolado, de modo atroz, numa só noite de núpcias, e os leitos cheios de sangue.
Livro X: A batalha

Virgílio interrompe a narrativa para avisar o leitor do preço, num dos raros momentos em que antecipa abertamente o próprio fim.

Nescia mens hominum fati sortisque futurae, / Et servare modum, rebus sublata secundis! / Turno tempus erit, magno cum optaverit emptum / Intactum Pallanta, et cum spolia ista diemque / Oderit, ó espírito humano, ignorante do destino e da sorte que virá, e incapaz de guardar a medida quando a prosperidade o exalta! Chegará o tempo em que Turno desejará ter pago caro para ver Palante intacto, e odiará estes despojos e aquele dia.
Livro X: A batalha

No mesmo livro, Juno o retira do combate com um fantasma de Enéias que o atrai para um navio, e ele desperta no mar sem entender o que houve, humilhado por uma fuga que não foi sua.

Quo feror? unde abii? quae me fuga? quemve reducet? / Laurentesne iterum muros aut castra videbo? / Quid manus illa virum, qui me meaque arma secuti, / Quosque (nefas) omnes infanda in morte reliqui?, para onde sou levado? De onde saí? Que fuga é esta, e quem me trará de volta? Voltarei a ver os muros de Laurento e o acampamento? E aquela tropa de homens que me seguiram, a mim e às minhas armas, e que (crime!) deixei toda numa morte indigna?
Livro X: A batalha

No Livro XI, a paz quase vem. Diomedes recusa aliança, Latino oferece terra sem exigir rendição, e Drances, por inveja, cobra de Turno o duelo único que pouparia os dois povos. Turno aceita em discurso, e a aceitação é o momento mais alto do personagem: ele sabe que Enéias pode ser um novo Aquiles e diz que já entregou a vida a Latino e aos latinos.

Ibo animis contra; vel magnum praestet Achillem, / Factaque Vulcani manibus paria induat arma / Ille licet. [...] Solum Aeneas vocat? et vocet, oro., irei contra ele com ânimo; ainda que se mostre um grande Aquiles e vista armas iguais, feitas pelas mãos de Vulcano. [...] Só Enéias me chama? Que chame, eu peço.
Livro XI: Camila

No mesmo livro, o luto de Evandro pelo filho converte a morte de Palante em cobrança formal, e é essa dívida, não a razão de estado, que vai comandar o fecho.

Quod vitam moror invisam, Pallante perempto, / Dextera causa tua est, Turnum gnatoque patrique / Quam debere vides: meritis vacat hic tibi solus / Fortunaeque locus, se ainda me demoro numa vida odiosa, morto Palante, a causa é a tua mão: vês que ela deve Turno ao filho e ao pai; só este lugar resta para os teus méritos e a tua fortuna.
Livro XI: Camila

No Livro XII, Turno exige que Latino sele o pacto: lutará sozinho com Enéias, e o vencedor fica com Lavínia. Latino tenta demovê-lo, oferecendo o reino do pai dele e outras noivas, e confessa que cedeu por amor e pelas lágrimas da rainha; Amata suplica que Turno desista, porque, se ele morrer, ela não viverá para ver Enéias como genro. Lavínia cora ao ouvir o choro da mãe, e o rubor o acende ainda mais.

Nulla mora in Turno; nihil est quod dicta retractent / Ignavi Aeneadae, nec quae pepigere recusent. / Congredior; fer sacra, pater, et concipe foedus. / Aut hac Dardanium dextra sub Tartara mittam / Desertorem Asiae (sedeant spectentque Latini) / Et solus ferro crimen commune refellam; / Aut habeat victos, cedat Lavinia conjux, em Turno não há demora; os enéadas covardes não têm por que retirar o que disseram nem recusar o que pactuaram. Eu me apresento: traz os sacrifícios, pai, e dita o tratado. Ou com esta mão mando ao Tártaro o desertor da Ásia (sentem-se os latinos e olhem) e sozinho refuto com o ferro a acusação comum; ou que ele tenha os vencidos, e Lavínia lhe seja cedida como esposa.
Livro XII: Turno

Jurado o pacto do duelo, Juturna o rompe por ordem de Juno e a batalha geral recomeça. Chamado de volta pelo incêndio da cidade e pela morte de Amata, Turno larga o carro e a irmã e corre a pé para o encontro que o livro inteiro adiara.

Jam jam fata, soror, superant; absiste morari: / Quo deus, et quo dura vocat fortuna, sequamur. / Stat conferre manum Aeneae, stat, quidquid acerbi est / Morte pati; neque me indecorem, germana, videbis / Amplius: hunc, oro, sine me furere ante furorem, já os fados prevalecem, irmã; deixa de me demorar: sigamos aonde o deus e a dura fortuna nos chamam. Estou decidido a medir forças com Enéias, decidido a sofrer na morte tudo o que há de amargo; não me verás mais, irmã, indigno: deixa-me, peço, descarregar primeiro este furor.
Livro XII: Turno

Empunha por engano a espada do auriga, que se despedaça contra a armadura de Vulcano, o Hefesto dos gregos, é perseguido cinco voltas pelo campo e cai com a coxa atravessada pela lança de Enéias. Rendido, pede clemência em nome do próprio pai e entrega Lavínia como esposa.

Equidem merui, nec deprecor, inquit; / Utere sorte tua. Miseri te si qua parentis / Tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis / Anchises genitor), Dauni miserere senectae; / Et me, seu corpus spoliatum lumine mavis, / Redde meis. Vicisti, et victum tendere palmas / Ausonii videre: tua est Lavinia conjux; / Ulterius ne tende odiis, mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Livro XII: Turno
Tune hinc spoliis indute meorum / Eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas / Immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit, tu, vestido com os despojos dos meus, escaparás de mim daqui? Palante, Palante te imola com este golpe e cobra a pena do teu sangue criminoso.
Livro XII: Turno
Hoc dicens, ferrum adverso sub pectore condit / Fervidus: ast illi solvuntur frigore membra, / Vitaque cum gemitu fugit indignata sub umbras, dizendo isto, cravou o ferro, ardente, no peito à sua frente; os membros dele se soltam em frio, e a vida, com um gemido, foge indignada para as sombras.
Livro XII: Turno

Temas que encarna

Turno encarna a Guerra, mas a guerra vista pelo lado do soberano que a defende: ele luta pela noiva, pelo reino de Latino e pela palavra que deu aos seus. Encarna a Paixão no sentido do furor, a fúria que Alecto acende e que o poema trata como força que vem de fora e já estava dentro. Encarna o Dever em sentido oposto ao de Enéias: o dever dele é para com os latinos e para com a honra, e é por isso que aceita o duelo diante de todos. Encarna Destino e livre-arbítrio porque o decreto divino que entrega Lavínia a um estrangeiro desfaz um noivado legítimo, e Império e colonialismo porque a chegada de Enéias, para o Lácio, é a chegada de um estrangeiro que o destino manda e que o oráculo já havia anunciado.

Relações

  • Enéias: o adversário, que quase o poupa e o mata pelo talim de Palante.
  • Latino: o rei e sogro prometido, que cede a ele por afeto e depois tenta, em vão, demovê-lo do duelo.
  • Amata: a rainha que o quer como genro e se mata ao crer que ele morreu.
  • Lavínia: a noiva, que não fala e cora diante dele, e que, rendido, ele reconhece como esposa de Enéias.
  • Palante: o jovem que Turno mata e cujo talim leva a seu fim.
  • Evandro: o pai de Palante, que cobra de Enéias a morte de Turno.
  • Dido: a outra grande vítima da fundação, de lugar simétrico na primeira metade.

A função na arquitetura do poema

Turno é o segundo grande sacrificado da Eneida, e o par com Dido é estrutural, não temático. Cada metade do poema custa uma vida inteira à fundação de Roma: a primeira metade destrói a rainha que acolhe, a segunda destrói o príncipe que já tinha o casamento prometido. Nos dois casos a vítima é um soberano legítimo, nos dois casos o gatilho é um decreto divino que ninguém pediu, e nos dois casos Virgílio dá à vítima mais interioridade do que ao herói que a atropela. É por essa simetria que a Eneida não funciona como propaganda simples: o poema exibe o custo em vez de escondê-lo.

A diferença entre os dois é o lugar na estrutura. Dido morre no meio, e o poema segue por mais oito livros mostrando o que foi feito com o preço que ela pagou. Turno morre na última linha, e não há nada depois: nem casamento, nem fundação, nem jogos fúnebres, embora Virgílio tivesse material de sobra para todos os três. O silêncio posterior é a única coisa que o poema oferece como comentário do gesto, e ele não comenta nada.

A divergência sobre o gesto final

O fecho da Eneida é o problema interpretativo do poema, e as duas leituras se apoiam nos mesmos versos.

A leitura otimista, ou augustana, lê a morte como justiça cumprida: Turno matara Palante podendo poupá-lo, exibe o talim como troféu deliberado, e a fúria final de Enéias é a mesma Pietas que rege o resto do poema, agora voltada para a única dívida que ainda lhe restava, vingar um morto que confiara nele. Nessa chave, o verdadeiro final do poema não é o duelo, mas o acordo alguns versos antes, em que Júpiter garante a Juno que o nome, a língua e o costume latinos sobrevivem à fusão, e a morte de Turno é só a violência necessária para chegar lá.

A leitura pessimista lê o mesmo golpe como o instante em que o poema admite o preço do império: Turno já está desarmado, ferido e suplicante, o pedido dele é o mesmo que Príamo faz a Aquiles pelo corpo de Heitor, e Enéias mata mesmo assim, movido por raiva pessoal e não por lei nem necessidade militar. O herói da Pietas e da clemência sucumbe ao furor que o poema condenava, e é essa imagem, não a fundação, que a Eneida escolhe deixar como última.

A leitura pessimista tem nome próprio na crítica desde os anos 1960, quando trabalhos como The Two Voices of Virgil's Aeneid, de Adam Parry (1963), abriram o que se convencionou chamar de Harvard School, em oposição à leitura augustana então dominante. A discussão é, portanto, moderna, mesmo que a ambiguidade do texto seja antiga.

As duas leituras cabem no texto e nenhuma resolve a outra, e aqui as duas ficam lado a lado, sem escolha. Vale notar, porém, que a fala final de Enéias nomeia Palante duas vezes e não menciona Lavínia, o reino nem a paz que o duelo deveria selar. Isso não decide a questão, mas desloca o ônus: quem defende a leitura otimista precisa explicar por que a justiça pública se pronuncia em linguagem de dívida privada.