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Personagem

Juno

Quem é

Juno é a rainha dos deuses, esposa de Júpiter, e a perseguidora de Enéias em todo o poema. Os motivos que o primeiro livro dá são dois: ela ama Cartago, a cidade que o destino promete destruir por mãos de descendentes dos troianos, e guarda rancor antigo contra Troia, desde o julgamento de Páris, que preferiu Vênus, e o rapto de Ganimedes. O que ela quer muda de forma conforme perde. No começo quer impedir que a frota chegue à Itália, depois que o casamento de Enéias com Lavínia se realize, e no fim só quer salvar o que for possível: atrasar, encarecer e, por último, preservar o nome dos latinos. Ela sabe que o destino é contra ela e luta mesmo assim, e é isso que dá peso próprio ao papel dela: Juno é a oposição que mede o sofrimento que o poema cobra pelo império.

Trajetória

No Livro I o narrador pergunta à Musa como cabe tanta ira no ânimo dos deuses, e a resposta é Juno, que vê a frota troiana a caminho da Itália e se pergunta se ela, vencida, desistirá. Suborna Éolo com a promessa da ninfa Deiopeia, e ele solta a tempestade. Júpiter, em sua profecia a Vênus, promete que ela mesma mudará de ideia.

Tantaene animis coelestibus irae!, tanta ira cabe no ânimo dos deuses?
Livro I: A tempestade e Cartago
Mene incepto desistere victam? / Nec posse Italia Teucrorum avertere regem?, eu, vencida, desistir do que comecei? Não poder afastar da Itália o rei dos troianos?
Livro I: A tempestade e Cartago

No Livro II, quando Vênus tira a névoa dos olhos de Enéias, ele vê Juno guardando a porta Ceia, junto com Netuno e Palas, e vê Júpiter dando força aos gregos. No Livro III o adivinho Heleno diz que as Parcas e ela o proíbem de revelar o resto, e a primeira coisa que manda Enéias fazer é rezar a ela, com humildade, como o único jeito de contornar o limite que ela impõe.

prohibent nam cetera Parcae / Scire Helenum farique vetat Saturnia Juno., pois as Parcas proíbem Heleno de saber o resto, e Juno Saturnia lhe veda falar.
Livro III: A errância

No Livro IV muda de método: já que não pôde afundar a frota, propõe a Vênus casar Dido e Enéias e unir os dois povos, para ter o herói retido em Cartago. É ela quem arma a tempestade da caçada e preside, na gruta, o que Dido chama de casamento. No fim do livro, com pena da longa agonia de Dido, manda Íris cortar a mecha de cabelo que Prosérpina ainda não cortara, e o narrador explica que a rainha não morria por destino nem por morte merecida, mas antes do tempo, num ímpeto.

Nam, quia nec fato, merita nec morte peribat, / Sed misera ante diem, subitoque accensa furore, / Nondum illi flavum Proserpina vertice crinem / Abstulerat, Stygioque caput damnaverat Orco, pois ela não morria nem por destino nem por morte merecida, mas miserável, antes do tempo, abrasada por súbito furor; Prosérpina ainda não lhe tirara da cabeça o cabelo louro, nem condenara a sua vida ao Orco estígio.
Livro IV: Dido

No Livro V manda Íris à frota. A deusa, disfarçada de Béroe, encontra as troianas cansadas na praia, dá a elas o que elas mais querem, uma cidade com nome de Troia, e acrescenta um sonho de Cassandra para transformar o desejo em ordem. Elas decidem queimar as naus depois que a deusa sobe pelo céu, e Ascânio as detém, enquanto o narrador diz que Juno foi arrancada dos peitos delas.

Nullane jam Trojae dicentur moenia? nusquam / Hectoreos amnes, Xanthum et Simoenta, videbo? / Quin agite, et mecum infaustas exurite puppes. / Nam mihi Cassandrae per somnum vatis imago / Ardentes dare visa faces: Hic quaerite Trojam, / Hic domus est, inquit, vobis., nunca mais se dirá que há muralhas de Troia? Nunca mais verei os rios de Heitor, o Xanto e o Simoente? Vamos, queimai comigo as naus infaustas. Pois em sonho me pareceu que a imagem da profetisa Cassandra me dava tochas acesas: aqui buscai Troia, aqui é a vossa casa, disse ela.
Livro V: Os jogos

No Livro VII é o centro do livro. Volta de Argos pelo ar, vê a frota troiana e Enéias já fixando casas, e admite que não pode impedir o casamento com Lavínia. Decide atrasá-lo e encharcá-lo de sangue: desce à terra e chama do inferno Alecto, a quem encomenda discórdia entre parentes e aliados, que acende Amata, Turno e uma briga por um cervo. Quando o rei Latino se recusa a abrir as portas da Guerra, é ela mesma quem desce do céu e empurra os batentes.

Ast ego, magna Jovis conjux, nil linquere inausum / Quae potui infelix, quae memet in omnia verti, / Vincor ab Aenea! Quod si mea numina non sunt / Magna satis, dubitem haud equidem implorare quod usquam est: / Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, eu, porém, grande esposa de Júpiter, infeliz, que nada deixei por tentar e me lancei a tudo, sou vencida por Enéias! Se o meu poder não basta, não hesitarei em implorar o que houver em qualquer parte: se não posso dobrar os deuses do alto, moverei o Aqueronte.
Livro VII: A chegada ao Lácio
Non dabitur regnis (esto) prohibere Latinis, / Atque immota manet fatis Lavinia conjux: / At trahere, atque moras tantis licet addere rebus; / At licet amborum populos exscindere regum. / Hac gener atque socer coeant mercede suorum. / Sanguine Trojano et Rutulo dotabere, virgo; / Et Bellona manet te pronuba, não me será dado impedi-los de reinar entre os latinos (seja), e Lavínia continua esposa certa pelos fados: mas posso arrastar e pôr demoras em tamanha empresa; posso exterminar os povos dos dois reis. Que genro e sogro se unam por esse preço, o dos seus. Com sangue troiano e rútulo serás dotada, virgem; e Belona te espera como madrinha das bodas.
Livro VII: A chegada ao Lácio
Tum regina deum, coelo delapsa, morantes / Impulit ipsa manu portas, et cardine verso / Belli ferratos rupit Saturnia postes, então a rainha dos deuses, descida do céu, empurrou ela mesma com a mão as portas que demoravam e, girado o gonzo, a Saturnina rompeu os batentes ferrados da guerra.
Livro VII: A chegada ao Lácio

No Livro VIII o deus do rio Tibre manda Enéias rezar a ela, e ele sacrifica a porca branca com toda a ninhada à deusa que o persegue, porque o sonho mandou.

Candida per silvam cum fetu concolor albo / Procubuit, viridique in littore conspicitur sus: / Quam pius Aeneas tibi enim, tibi maxima Juno, / Mactat, sacra ferens, et cum grege sistit ad aram, uma porca branca, da cor da ninhada branca, deitou-se pela mata e é vista na margem verde; o piedoso Enéias a sacrifica a ti, a ti, máxima Juno, trazendo as oferendas, e a leva com a ninhada ao altar.
Livro VIII: O escudo

No Livro IX aproveita a ausência de Enéias: manda Íris a Turno com a notícia de que ele partiu e é a hora de atacar, e dá forças a Turno quando ele entra no acampamento.

Turne, quod optanti divum promittere nemo / Auderet, volvenda dies en attulit ultro. [...] Quid dubitas? nunc tempus equos, nunc poscere currus; / Rumpe moras omnes, et turbata arripe castra., Turno, o que nenhum deus ousaria prometer a quem o desejasse, o correr dos dias te trouxe por si mesmo. [...] Por que hesitas? Agora é hora de pedir os cavalos, agora os carros; rompe toda demora e toma o acampamento em desordem.
Livro IX: O cerco

No Livro X responde no concílio à acusação de Vênus devolvendo a comparação, e pede a Júpiter que tire Turno do combate. Júpiter concede só o adiamento, e ela forma uma sombra com o rosto e as armas de Enéias, que leva Turno atrás de si até um navio e depois ao mar. Quando Turno, sem entender, tenta três vezes se matar ou se atirar às ondas, é ela quem o contém, e o navio o deixa na cidade do pai dele.

Tu potes Aenean manibus subducere Graium, / Proque viro nebulam et ventos obtendere inanes; / Et potes in totidem classem convertere Nymphas: / Nos aliquid Rutulos contra juvisse, nefandum est!, tu podes tirar Enéias das mãos dos gregos e pôr diante dele, em lugar do homem, uma nuvem e ventos vazios; podes transformar a frota em tantas ninfas; e nós, ter ajudado os rútulos em alguma coisa, é um crime!
Livro X: A batalha
Quo feror? unde abii? quae me fuga? quemve reducet? / Laurentesne iterum muros aut castra videbo? / Quid manus illa virum, qui me meaque arma secuti, / Quosque (nefas) omnes infanda in morte reliqui?, para onde sou levado? De onde saí? Que fuga é esta, e quem me trará de volta? Voltarei a ver os muros de Laurento e o acampamento? E aquela tropa de homens que me seguiram, a mim e às minhas armas, e que (crime!) deixei toda numa morte indigna?
Livro X: A batalha

No Livro XII diz a Juturna, a ninfa irmã de Turno, que o protegeu enquanto o destino permitiu, mas que agora ele corre para destinos desiguais, e a manda salvá-lo ou romper o tratado, e é por isso que o pacto dura menos de cem versos. No céu, Júpiter a proíbe de continuar e lembra que Enéias é destinado ao céu. Ela cede, e pede em troca que os latinos mantenham o antigo nome e a fala, e que Troia caia com o nome dela. Júpiter concede, sorrindo, que serão todos um só povo latino.

Ne vetus indigenas nomen mutare Latinos, / Neu Troas fieri jubeas Teucrosque vocari, / Aut vocem mutare viros, aut vertere vestes. / Sit Latium, sint Albani per secula reges; / Sit Romana potens Itala virtute propago: / Occidit, occideritque sinas cum nomine Troja, que o antigo nome não mude para os latinos nativos, nem mandes que eles se tornem troianos e se chamem teucros, nem que os homens mudem de voz ou troquem de roupa. Que haja Lácio, que haja reis albanos por séculos, que a linhagem romana seja poderosa pelo valor itálico: caiu Troia, e permitas que tenha caído com o seu nome.
Livro XII: Turno
Sermonem Ausonii patrium moresque tenebunt; / Utque est, nomen erit: commixti corpore tanto / Subsident Teucri: morem ritusque sacrorum / Adjiciam, faciamque omnes uno ore Latinos, os ausônios manterão a fala dos pais e os costumes; o nome será como é: os teucros, misturados num corpo tão grande, se assentarão; acrescentarei o costume e os ritos sagrados, e farei todos latinos de uma só boca.
Livro XII: Turno

Temas que encarna

A figura de Juno é o Destino e livre-arbítrio visto de baixo: uma deusa que sabe que o destino é contra ela e escolhe o que ele não proíbe, a demora e o custo, de modo que o conflito entre vontade e fado ganha uma personagem que aposta contra ele. A Guerra da Itália é obra dela, de Alecto às portas da Guerra, e a Paixão de Dido foi armada por ela e por Vênus. O Império e colonialismo aparece no que ela defende, Cartago, cuja ruína o destino promete e cuja inimizade com Roma nasce da maldição de Dido, e no que ela salva no fim, o nome latino. O Lar, exílio e retorno aparece nos anos de errância que ela impõe.

O desfecho dela é uma negociação, não uma derrota limpa. No Livro I o destino a vence e ela o diz com raiva; no Livro XII ela pede a Júpiter uma última coisa e a obtém, e o que obtém é a sobrevivência de um povo, não de um herói. O mesmo fato se lê de outro modo: ela perde o que mais queria e ganha a forma do império de Roma, de modo que a perseguição que tanto custou a Enéias também molda o resultado. O texto sustenta as duas leituras.

Relações

  • Enéias: o herói que ela persegue por mar e por terra e que lhe sacrifica a porca branca no Lácio.
  • Vênus: a adversária divina, com quem negocia o casamento de Dido e a quem responde no concílio.
  • Dido: a rainha de Cartago, a cidade que Juno ama, e cuja alma ela manda libertar no fim do Livro IV.
  • Turno: o rei dos rútulos que ela acende, protege, afasta do combate e abandona ao destino.
  • Amata: a rainha latina em quem a Fúria Alecto lança a serpente, a mando dela.
  • Júpiter: o marido e árbitro, que a contém, adia o castigo de Turno e lhe concede o nome latino.

Depois de Virgílio

O verso em que ela diz que, se não pode dobrar os deuses do alto, moverá o Aqueronte, foi tomado por Sigmund Freud como epígrafe de A Interpretação dos Sonhos, para dizer que, se a razão consciente não confessa o desejo, a análise revolve o inferno.