O tema na obra
A Eneida abre dizendo que o herói chega à Itália "fugitivo pelo destino", e no Livro I Júpiter garante a Vênus um império sem limite de espaço nem de tempo. O fim está dito antes de a história andar, e o poema acompanha o caminho, cheio de erro, demora e custo.
O destino chega em pedaços e por intermediários. No Livro II, o fantasma de Heitor entrega a Enéias a tarefa de levar os Penates e fundar muralhas depois de atravessar o mar, e Enéias, em vez de obedecer, pega em armas por achar belo morrer lutando. Só parte depois que Vênus lhe mostra os deuses derrubando a cidade e que um sinal do céu vence a recusa de Anquises. No Livro III, o oráculo de Apolo manda buscar "a antiga mãe", Anquises lê Creta, e a leitura custa uma cidade e uma peste antes de os Penates a corrigirem. O poema separa assim a palavra dos deuses, que não erra, da interpretação dos homens, que erra.
Os próprios deuses obedecem. Juno sabe que o destino está contra ela: no Livro I diz que os fados a impedem e, no Livro VII, admite que Lavínia será mesmo esposa de Enéias e decide atrasar o casamento e encarecê-lo, pois, se não pode dobrar os deuses do alto, moverá o Aqueronte. No Livro X, Júpiter consola Hércules lembrando que cada um tem o seu dia e cita a morte de Sarpédon, o próprio filho. No Livro XII, ele pesa os destinos de Enéias e de Turno numa balança igual, e Juno cede.
Resta aos homens o espaço do como. No Livro IV, Enéias diz a Dido que não segue para a Itália por vontade própria, e o poema deixa em aberto se a frase é dor contida ou desculpa. No Livro IX, Niso pergunta se o ardor que o empurra à incursão noturna vem dos deuses ou se cada um faz do próprio desejo um deus. No Livro XII, Turno dispensa a irmã Juturna dizendo que os fados prevalecem e que prefere ir ao encontro de Enéias a ser visto indigno: aceita o destino em palavras e escolhe o modo de cumpri-lo.
A Eneida não discute se há destino, discute o que ele deixa a cargo de quem o cumpre. O resultado está fixo, o preço não: no Livro V, Netuno promete que só uma vida se perderá na travessia e leva Palinuro, e no Livro IV o narrador diz que Dido morre nem por destino nem por morte merecida, mas antes do tempo. O poema sustenta também a leitura contrária, a de que o destino serve de desculpa a quem manda: o Enéias que o invoca diante de Dido invoca Palante, e não os fados, ao matar no Livro XII um homem que lhe pede a vida.
Onde aparece
- Livro I: Júpiter promete a Vênus que os romanos terão um império sem limite de espaço nem de tempo, e Juno reconhece que o destino a impede de afastar Enéias da Itália.
- Livro II: O fantasma de Heitor manda Enéias fugir e levar os Penates para fundar muralhas além do mar, e Enéias, antes de obedecer, pega em armas sem razão.
- Livro III: Anquises lê o oráculo de Apolo como Creta, e os Penates corrigem o erro depois da peste: a terra prometida é a Hespéria.
- Livro IV: Mercúrio repreende Enéias por erguer Cartago, e Enéias diz a Dido que não segue para a Itália por vontade própria.
- Livro V: Netuno promete a Vênus que só uma vida se perderá na travessia, e o Sono derruba Palinuro ao mar.
- Livro VI: A Sibila diz que o ramo de ouro cederá sem esforço a quem os fados chamam, e Enéias o quebra enquanto ele hesita.
- Livro VII: Juno admite que Lavínia será esposa de Enéias e decide atrasar o casamento: se não pode dobrar os deuses do alto, moverá o Aqueronte.
- Livro VIII: O deus do Tibre promete a Enéias casa certa e Penates certos, e a porca branca com a ninhada aparece na margem como sinal.
- Livro IX: Cibele obtém de Júpiter que as naus de pinho do Ida virem ninfas ao chegar à Itália, e Niso pergunta se o seu ardor vem dos deuses ou do próprio desejo.
- Livro X: Júpiter diz ao concílio que os destinos acharão o caminho e consola Hércules lembrando que cada um tem o seu dia.
- Livro XI: Diana, que sabe que Camila vai morrer, lamenta que ela tenha sido arrastada à guerra, e Apolo concede a Aruns a morte de Camila mas nega a sua volta.
- Livro XII: Júpiter pesa os destinos de Enéias e de Turno numa balança igual, Juno cede, e Turno diz a Juturna que os fados prevalecem.
Passagens
Júpiter dá a garantia que sustenta o poema inteiro.
His ego nec metas rerum nec tempora pono: / Imperium sine fine dedi., a estes não ponho limite de espaço nem de tempo: dei-lhes um império sem fim.
Heitor muda o dever de Enéias: já não se trata de defender Troia, e sim de fundar outra cidade.
Sacra suosque tibi commendat Troja Penates. / Hos cape fatorum comites: his moenia quaere, / Magna pererrato statues quae denique ponto., Troia te confia os seus objetos sagrados e os seus Penates. Toma-os como companheiros dos fados: busca para eles as muralhas que, depois de percorrido o mar, enfim fundarás.
Enéias tira de si a decisão da partida diante de Dido.
Desine meque tuis incendere teque querelis: / Italiam non sponte sequor, para de nos incendiar, a mim e a ti, com as tuas queixas: não é por vontade própria que sigo para a Itália.
Niso duvida de onde vem o próprio ardor.
Dine hunc ardorem mentibus addunt, / Euryale? an sua cuique deus fit dira cupido? / Aut pugnam, aut aliquid jamdudum invadere magnum, / Mens agitat mihi, nec placida contenta quiete est. [...] Aenean acciri omnes populusque patresque / Exposcunt, mittique viros qui certa reportent; / Si tibi quae posco promittunt (nam mihi facti / Fama sat est), tumulo videor reperire sub illo / Posse viam ad muros et moenia Pallantea., Os deuses põem esse ardor em nossas mentes, Euríalo, ou cada um faz de seu desejo violento um deus? Há tempo que a mente me incita a um combate ou a algum grande feito, e não se contenta com a quietude tranquila. [...] Todos pedem que Enéias seja chamado, o povo e os anciãos, e que sejam enviados homens com notícias seguras; se te prometem o que peço (pois a mim basta a fama do feito), parece-me que, junto àquele outeiro, posso achar caminho até os muros e a cidade de Palante.
Júpiter confessa o limite do próprio poder diante do dia marcado de cada um.
Stat sua cuique dies, breve et irreparabile tempus / Omnibus est vitae; sed famam extendere factis, / Hoc virtutis opus. Trojae sub moenibus altis / Tot nati cecidere deum! quin occidit una / Sarpedon, mea progenies: etiam sua Turnum / Fata vocant, metasque dati pervenit ad aevi, cada um tem o seu dia, breve e sem volta é o tempo da vida de todos; mas estender a fama pelos feitos, isso é obra da virtude. Sob as altas muralhas de Troia tantos filhos de deuses caíram! Com eles morreu Sarpédon, meu filho; também a Turno chamam seus destinos, e ele chegou ao fim do tempo que lhe foi dado.
Turno aceita o destino em palavras e escolhe o modo de ir ao encontro dele.
Jam jam fata, soror, superant; absiste morari: / Quo deus, et quo dura vocat fortuna, sequamur. / Stat conferre manum Aeneae, stat, quidquid acerbi est / Morte pati; neque me indecorem, germana, videbis / Amplius: hunc, oro, sine me furere ante furorem, já os fados prevalecem, irmã; deixa de me demorar: sigamos aonde o deus e a dura fortuna nos chamam. Estou decidido a medir forças com Enéias, decidido a sofrer na morte tudo o que há de amargo; não me verás mais, irmã, indigno: deixa-me, peço, descarregar primeiro este furor.