Enéias é o herói da Eneida: um príncipe troiano, filho da deusa Vênus e de Anquises, que escapa de Troia em chamas e, depois de anos de errância pelo mar, chega à Itália, onde a sua linhagem vai dar origem a Roma.
O poema não o apresenta como conquistador. A primeira fala dele é um lamento: no meio da tempestade, ele inveja os que morreram sob as muralhas de Troia, "diante dos olhos dos pais". Chega à Líbia como náufrago e consola os companheiros com uma esperança que ele mesmo não sente, porque o chefe precisa que os homens continuem.
O traço que o define é a piedade, o dever para com o pai, os deuses, o filho e a pátria. Na última noite de Troia ele carrega Anquises nos ombros "por entre chamas e mil dardos", leva Ascânio pela mão e salva os Penates, os deuses da casa. Antes disso, o sonho com Heitor já lhe tinha mudado a tarefa: em vez de defender a cidade, deve buscar para os deuses de Troia as muralhas que fundará depois de atravessar o mar. O destino chega a ele como ordem, e ele a cumpre.
Cumprir custa caro. Enéias deixa Dido, que se mata, e diz a ela que não segue para a Itália "por vontade própria". Perde o pai antes de chegar, perde Palante na guerra do Lácio e, no último verso do poema, mata Turno. O poema mostra o chefe firme e o homem abalado no mesmo personagem, e os leitores discutem desde sempre se ele é um modelo de dever ou um homem conduzido por forças maiores que a sua vontade.