O tema na obra
A ação e a inação da obra têm uma pergunta dentro: por que o homem que mais entende o que faz é o que menos faz? O homem do subsolo responde de dois modos. Na Primeira Parte, dá a explicação: a consciência produz inércia. Na Segunda, mostra o resultado: o que ele faz é sempre menor, mais tarde ou mais torto do que o que tinha planejado.
Já no capítulo I da Primeira Parte ele se define pelo que não conseguiu ser, e tira daí uma consolação: o homem inteligente não pode se tornar alguma coisa a sério, só o tolo se torna.
что умный человек и не может серьезно чем-нибудь сделаться, а делается чем-нибудь только дурак., que o homem inteligente nem pode se tornar alguma coisa a sério, e só o tolo se torna alguma coisa.
No capítulo III da Primeira Parte opõe a si o homem de ação, que avança como touro e ao encontrar o muro se acalma, e diz invejá-lo. A explicação lógica vem no capítulo V da Primeira Parte: o homem de ação confunde a causa próxima com a primeira e, assim, age e se tranquiliza; ele não faz essa troca, porque cada causa primeira arrasta atrás de si outra.
они вследствие своей ограниченности ближайшие и второстепенные причины за первоначальные принимают, таким образом скорее и легче других убеждаются, что непреложное основание своему делу нашли, ну и успокоиваются, eles, em consequência da sua limitação, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas primeiras e, assim, se convencem mais depressa e mais facilmente que os outros de que acharam o fundamento inabalável da sua obra, e então se tranquilizam.
No capítulo VI da Primeira Parte imagina o oposto: se ao menos ele não fizesse nada por preguiça, teria uma definição positiva, um título e uma carreira. O capítulo XI da Primeira Parte fecha com o resultado, que ele anuncia e desmente no parágrafo seguinte.
Конец концов, господа: лучше ничего не делать! Лучше сознательная инерция! Итак, да здравствует подполье!, No fim das contas, senhores: é melhor não fazer nada! Melhor a inércia consciente! Então, viva o subsolo!
A Segunda Parte põe a inação em cena. No capítulo I da Segunda Parte um esbarrão é preparado por anos de ódio e muito ensaio e se resolve de olhos fechados, no último segundo, num lance que o oficial finge não ter sentido. No capítulo II da Segunda Parte ele conta que entre herói e lama não havia meio-termo, e que na lama se consolava pensando que em outras horas era herói.
Либо герой, либо грязь, средины не было. Это-то меня и сгубило, Ou herói, ou lama, não havia meio-termo. Foi isso, justamente, que me perdeu.
No capítulo IV da Segunda Parte anda três horas pela sala para provar que passa bem sem os colegas, e no capítulo V da Segunda Parte ensaia a bofetada, o duelo e o perdão final e não chega a executar nada: a casa vazia o salva do ato, e ele confessa que o teria dado. O mesmo se repete no capítulo VIII da Segunda Parte: passa três dias esperando Liza, pensa em ir à casa dela para pedir que não venha e não vai. No capítulo X da Segunda Parte corre atrás dela e para na esquina, perguntando-se se não a odiaria amanhã justamente por ter beijado seus pés hoje. O padrão é sempre o mesmo: o ato imaginado vence o ato executado, e o que ele executa é a metade que o dispensa de executar o resto.
O que a obra faz com a ação, portanto, é mostrá-la como excesso ou como falta de causa. A explicação da Primeira Parte, a causa que arrasta outra causa, sobrevive intacta na Segunda: não há cena em que ele aja com a segurança do homem de ação. O fecho do capítulo X da Segunda Parte, em que ele diz ter levado até o extremo o que os leitores fazem pela metade, devolve a pergunta ao leitor.
Что же собственно до меня касается, то ведь я только доводил в моей жизни до крайности то, что вы не осмеливались доводить и до половины, да еще трусость свою принимали за благоразумие, и тем утешались, обманывая сами себя, Quanto a mim, o que fiz foi só levar até o extremo, na minha vida, aquilo que vocês não ousavam levar nem até a metade, e ainda tomavam a sua covardia por prudência e com isso se consolavam, enganando a si mesmos.
Quem o encarna
O homem do subsolo, em ato e em teoria. Trudoliúbov e o oficial do bilhar, no outro polo: o homem de ação, tranquilo quanto ao próprio lugar, a quem ele inveja e despreza. Apolón, que mal faz o serviço e decide cada embate pelo silêncio, e Liza, que age sem plano, no abraço e na cédula, e põe o narrador diante de uma ação que ele não escreveu.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo I: O homem do subsolo diz que o homem inteligente nem pode se tornar alguma coisa a sério, e que só o tolo se torna alguma coisa.
- Primeira Parte, capítulo III: O homem do subsolo inveja o homem de ação, que avança como touro de chifres baixos até o muro de pedra e ali se acalma, e se compara a um camundongo.
- Primeira Parte, capítulo V: O homem do subsolo afirma que o fruto direto da consciência é a inércia, o ficar conscientemente de braços cruzados, enquanto os homens de ação tomam as causas próximas pelas primeiras.
- Primeira Parte, capítulo VI: O homem do subsolo imagina que ser preguiçoso seria um título e uma carreira, e que assim teria uma definição positiva e poderia se respeitar.
- Primeira Parte, capítulo XI: O homem do subsolo conclui aos gritos que é melhor não fazer nada, melhor a inércia consciente, e no parágrafo seguinte retira o que disse.
- Segunda Parte, capítulo I: O homem do subsolo passa muito tempo preparando o esbarrão no oficial, desiste na véspera e acaba batendo ombro com ombro de olhos fechados.
- Segunda Parte, capítulo II: O homem do subsolo diz que não havia meio-termo entre herói e lama, e que na lama se consolava lembrando que em outras horas era herói.
- Segunda Parte, capítulo V: O homem do subsolo ensaia no trenó a bofetada, o duelo e o perdão final, e se salva por acaso quando encontra a casa vazia.
- Segunda Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo passa três dias esperando Liza e pensa em ir à casa dela para pedir que não venha, mas não vai.
- Segunda Parte, capítulo X: O homem do subsolo corre atrás de Liza para cair a seus pés, para na esquina da rua deserta e se pergunta se não a odiaria amanhã por isso.
Onde as leituras divergem
A inação da obra se lê de dois modos. Numa leitura, é a consequência lógica da consciência: o homem que vê a causa da causa não consegue começar, e a inércia é o preço da lucidez. Na outra, o que o paralisa é o medo do resultado. Joseph Frank, que lê o texto como sátira, permite ver a paralisia como o ponto em que as duas ideologias que o narrador leva às últimas consequências, a utilitarista da Primeira Parte e a romântica da Segunda, se destroem por dentro.
O texto dá razão à primeira em quase todos os capítulos, e à segunda no capítulo IX da Primeira Parte, onde o narrador diz que dois e dois são quatro é o começo da morte porque depois dele não há o que fazer. O lugar onde as duas leituras se encontram é a esquina do capítulo X da Segunda Parte: ele para porque vê o que o ato custaria, e o texto não diz se o que pesa é a lucidez ou o medo do que viria depois.