Clavis Libri

Tema em Memórias do Subsolo

Destino e livre-arbítrio

O quanto a vida de alguém já está decidida, pelos deuses, pela fortuna, pela providência ou pelo acaso, e o quanto depende da escolha dele. Entram profecia, oráculo, sorte, predestinação e a pergunta sobre quem responde pelo que acontece.

O tema na obra

O destino da obra tem o nome de lei da natureza, e o livre-arbítrio o de querer. O homem do subsolo argumenta que, se tudo o que o homem faz pudesse ser calculado numa tabela, o homem seria uma tecla de piano, e que a única resposta digna dele é um ato que a tabela não preveja. A palavra que a obra põe no centro não é liberdade, é querer: a faculdade de desejar o que se deseja, ainda que seja o tolo, ainda que faça mal.

A primeira forma do destino é a ofensa sem culpado. No capítulo V da Primeira Parte a raiva do narrador se decompõe pelas leis da consciência, o culpado se volatiliza e a ofensa vira fatum, como uma dor de dentes de que ninguém responde, e só sobra bater no muro (O muro de pedra). A contrapartida vem no capítulo VII da Primeira Parte, onde o querer ganha a sua tese mais seca.

Человеку надо — одного только самостоятельного хотенья, чего бы эта самостоятельность ни стоила и к чему бы ни привела., O homem precisa de uma coisa só: de um querer independente, custe o que custar essa independência e aonde quer que ela leve.
Primeira Parte: O subsolo

No capítulo VIII da Primeira Parte o argumento é levado até o fim: se existisse a fórmula do querer, o homem passaria a ser a tecla de piano, um pino no cilindro de um órgão, e por isso ele desejaria o absurdo, para ter o direito de querer o que faz mal e não ficar preso à obrigação de querer só o inteligente.

чтоб иметь право пожелать себе даже и глупейшего и не быть связанным обязанностью желать себе одного только умного., para ter o direito de querer para si até o mais tolo e não ficar preso à obrigação de querer apenas o inteligente.
Primeira Parte: O subsolo

No capítulo X da Primeira Parte a pergunta passa do homem à sua constituição: por que fui feito com estes desejos, e para chegar à conclusão de que tudo é engodo? A resposta é um não acredito, que o texto deixa sem objeto.

Зачем же я устроен с такими желаниями? Неужели ж я для того только и устроен, чтоб дойти до заключения, что все мое устройство одно надувание? Неужели в этом вся цель? Не верю., Por que fui feito com esses desejos? Será que fui feito só para chegar à conclusão de que toda a minha constituição é um engodo? Será que é esse todo o objetivo? Não acredito.
Primeira Parte: O subsolo

Na Segunda Parte a tese vira conduta, e cada ensaio de querer porque quer termina na dependência do outro. No capítulo III da Segunda Parte ele vai ao jantar de propósito, e quanto mais indecoroso for ir, mais depressa irá. No capítulo V da Segunda Parte, de volta ao trenó, diz que está predestinado, que é o destino, e dá um soco no pescoço do cocheiro. No capítulo VIII da Segunda Parte decide reter o salário de Apolón só para provar que pode.

«не хочу, не хочу, просто не хочу выдать ему жалованье, не хочу, потому что так хочу», потому что на это «моя воля господская», não quero, não quero, simplesmente não quero lhe pagar o salário, não quero porque assim eu quero, porque para isso tenho a minha vontade de senhor.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

A prova falha, porque a vontade de senhor só vale se o outro a respeitar. No capítulo IX da Segunda Parte o narrador, chorando nos braços de Liza, diz que não o deixam ser bom, que não pode ser bom. O que ele afirmara na Primeira Parte como a única coisa que o homem precisa, o querer independente, na Segunda é o que ele tem de mais disponível e de menos eficaz.

O destino e o livre-arbítrio da obra formam por isso um paradoxo montado de ponta a ponta. Defende-se uma liberdade que só se prova contrariando o próprio interesse, e a Segunda Parte mostra o que custa viver assim: a liberdade que se afirma pelo avesso fica na dependência do que contraria.

Quem o encarna

O homem do subsolo, que defende o querer e o exerce em cenas pequenas e fracassadas. Apolón, em sentido contrário, que dá ao narrador a prova de que o querer porque quer precisa de quem peça. E Liza, que age sem plano e sem repertório e que por isso lhe parece livre de um modo que ele não consegue medir.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo V: O homem do subsolo diz que a raiva, decomposta pela consciência, faz da ofensa um fatum, como uma dor de dentes de que ninguém é culpado, e que sobra bater no muro.
  • Primeira Parte, capítulo VII: O homem do subsolo afirma que o homem precisa de uma coisa só, um querer independente, custe o que custar essa independência e aonde quer que ela leve.
  • Primeira Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo argumenta que, se houvesse uma fórmula de todos os quereres, o homem viraria um pino de órgão, e por isso desejaria o absurdo para provar que não é uma tecla de piano.
  • Primeira Parte, capítulo X: O homem do subsolo pergunta por que foi feito com tais desejos e se foi feito só para concluir que toda a sua constituição é um engodo, e responde que não acredita.
  • Segunda Parte, capítulo III: O homem do subsolo sabe que vai ao jantar de propósito, e que quanto mais indelicado for ir, mais depressa irá.
  • Segunda Parte, capítulo V: O homem do subsolo volta ao trenó dizendo que está predestinado e que é o destino, e dá um soco no pescoço do cocheiro.
  • Segunda Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo decide reter o salário de Apolón só para provar que pode, e se prepara para dizer que não quer pagar porque assim quer, por vontade de senhor.
  • Segunda Parte, capítulo IX: O homem do subsolo diz a Liza, entre soluços, que não o deixam ser bom e que não pode ser bom, e cai de bruços no sofá.

Onde as leituras divergem

O querer independente da obra se lê de dois modos. Numa leitura é o centro do livro e a resposta de Dostoiévski ao determinismo da época: o homem não se deixa reduzir a cálculo, e o sofrimento que isso custa é prova de que ele existe. Na outra, Joseph Frank lê a Primeira Parte como sátira: o narrador aceita o determinismo de Tchernichévski e descobre que essa aceitação torna impossível qualquer reação moral, culpa, perdão ou vingança, porque já não há culpado, só um fatum.

As duas leituras concordam num ponto: o capricho, quando posto à prova na Segunda Parte, não rende liberdade, rende a cena de Apolón, em que a vontade de senhor depende de o criado pedir. O que fica da Primeira Parte, nesse caso, é a pergunta, e a resposta que o livro dá a ela é o abraço de Liza, que o querer do narrador não previa.