O tema na obra
O sofrimento da obra é, antes de tudo, um prazer que se diz. O homem do subsolo começa recusando-se a tratar o fígado, por raiva, e ao longo da Primeira Parte explica que a dor que cultiva lhe dá algo para sentir. A obra tem, depois, uma segunda forma de sofrimento, a de quem não escolhe: Liza.
No capítulo II da Primeira Parte a vergonha dos atos feios que ele cometia à noite virava, voltando ao canto, uma doçura vergonhosa e por fim um prazer sério, e o prazer vinha de ter consciência demais da própria humilhação.
наслаждение было тут именно от слишком яркого сознания своего унижения, o prazer vinha justamente da consciência viva demais da própria humilhação.
No capítulo IV da Primeira Parte a dor de dentes dá a imagem: o doente geme sem sinceridade, com maldade, e o gemido é a mensagem de que ninguém da casa dormirá enquanto ele sofre.
Дескать, я вас беспокою, сердце вам надрываю, всем в доме спать не даю. Так вот не спите же, чувствуйте же и вы каждую минуту, что у меня зубы болят., Como quem diz: eu incomodo vocês, rasgo o coração de vocês, não deixo ninguém da casa dormir. Pois então não durmam, sintam vocês também, a cada minuto, que meus dentes doem.
No capítulo V da Primeira Parte admite que inventava aventuras e vivia de ofensas fabricadas, e que mesmo assim sofria de verdade, com ciúmes, por puro tédio. O ponto de chegada da Primeira Parte está no capítulo IX da Primeira Parte, onde o sofrimento é posto no lugar mais alto.
Страдание — да ведь это единственная причина сознания., O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência.
Antes disso, no mesmo capítulo, ele já dissera por que o sofrimento não cabe no edifício que os senhores prometem.
Страдание, например, в водевилях не допускается, я это знаю. В хрустальном дворце оно и немыслимо: страдание есть сомнение, есть отрицание, а что за хрустальный дворец, в котором можно усумниться?, O sofrimento, por exemplo, não é admitido nos vaudevilles, eu sei. No palácio de cristal ele é impensável: o sofrimento é dúvida, é negação, e que palácio de cristal é esse em que se pode duvidar?
Na Segunda Parte o sofrimento sai da tese e passa a ter corpo. O de Liza, no capítulo VII da Segunda Parte, é físico e calado: de bruços, agarrada ao travesseiro, ela morde a própria mão até sangrar para que ninguém na casa saiba. O do narrador, depois, é de outra natureza: no capítulo VIII da Segunda Parte, passa três dias esperando que ela venha, com uma angústia que não morre e que o faz voltar para casa como quem carrega um crime; no capítulo IX da Segunda Parte, na histeria, ele chora um quarto de hora de bruços no sofá. Entre os dois sofrimentos há uma diferença que a obra organiza: o dela não tem plateia, e o dele precisa de uma.
O fecho do capítulo X da Segunda Parte repete a tese da Primeira Parte e a leva ao ponto de cinismo possível: já em casa, depois de voltar da esquina, o narrador fantasia que a ofensa é purificação e a consciência mais corrosiva e dolorosa, e se pergunta o que é melhor, a felicidade barata ou o sofrimento elevado.
Оскорбление, — да ведь это очищение; это самое едкое и больное сознание!, Ofensa, ora, ofensa é purificação; é a consciência mais corrosiva e dolorosa!
O sofrimento da obra, portanto, é um valor que o narrador defende sem poder sustentar. Ele o diz causa única da consciência, e na cena de Liza o que acontece com ele é que passa do narrador para ela.
Quem o encarna
O homem do subsolo, que cultiva o sofrimento e o descreve; e Liza, que o recebe, e em quem ele aparece sem comentário. Apolón é o contraponto cômico: o criado de quem o texto não registra sofrimento nenhum e que faz o patrão sofrer em silêncio.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo II: O homem do subsolo conta que a vergonha de seus atos feios virava uma doçura e por fim um prazer sério, vindo da consciência viva demais da própria humilhação.
- Primeira Parte, capítulo IV: O homem do subsolo explica que o doente de dentes geme porque sente prazer no gemido, e que o gemido avisa a casa de que ninguém vai dormir enquanto ele sofre.
- Primeira Parte, capítulo V: O homem do subsolo diz que inventava ofensas e amores só para viver, e que sofria de verdade com ciúmes, mesmo sabendo que tudo vinha do tédio.
- Primeira Parte, capítulo IX: O homem do subsolo afirma que o sofrimento é a única causa da consciência, e que no palácio de cristal ele seria impensável, porque o sofrimento é dúvida e negação.
- Segunda Parte, capítulo VII: Liza chora de bruços, agarrada ao travesseiro, e morde a própria mão até sangrar, para que ninguém na casa saiba do seu tormento, depois de ouvir o sermão do homem do subsolo.
- Segunda Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo passa três dias esperando Liza com uma angústia que não morre no fundo do coração e da consciência, e volta para casa como se carregasse um crime.
- Segunda Parte, capítulo IX: O homem do subsolo chora um quarto de hora de bruços no sofá, numa histeria de verdade, depois de gritar a Liza que sente vergonha e que a odiará por ter ouvido.
- Segunda Parte, capítulo X: O homem do subsolo conclui, já em casa, depois de voltar da esquina, que a ofensa é uma purificação e a consciência mais corrosiva e dolorosa, e que talvez seja melhor que Liza leve a ofensa consigo para sempre.
- Segunda Parte, capítulo X: O homem do subsolo pergunta, ao escrever, o que é melhor, a felicidade barata ou os sofrimentos elevados, depois de contar que passou aquela noite quase morto de dor.
Onde as leituras divergem
O sofrimento da obra se lê de dois modos. Numa leitura, é a tese central de Dostoiévski: a consciência e o sofrimento nascem juntos, quem recusa um perde o outro, e o homem não troca a consciência por nenhuma satisfação. Na outra, o sofrimento do narrador é masoquismo, um prazer em ser humilhado que ele cultiva por vaidade. Joseph Frank rejeita a segunda como leitura exclusiva e vê a novela como sátira.
O texto sustenta as duas até o fim, e a diferença entre elas é o que se faz com Liza. Quem lê o sofrimento como valor precisa explicar por que o narrador o transfere para ela, e quem lê como vaidade precisa explicar a dor real das últimas páginas, que ele mesmo chama de castigo corretivo. O livro termina sem resolver: não há, depois da cédula sobre a mesa, uma cena em que o sofrimento sirva a alguém.