Clavis Libri

Tema em Memórias do Subsolo

Amor

O amor como vínculo que move a obra: amor romântico, amor cortês, amor de pai e de filho, amor a Deus.

O tema na obra

O amor da obra é o amor que o homem do subsolo não sabe fazer. A Primeira Parte quase não fala dele: no capítulo V da Primeira Parte admite que quis se apaixonar à força, duas vezes, e sofreu de verdade com ciúmes, tudo por tédio. A Segunda Parte vai mostrar o resto, e o que mostra é uma tentativa de amar em que cada gesto de ternura vira um gesto de poder.

O padrão está desenhado antes de Liza aparecer. No capítulo III da Segunda Parte, ao contar o único amigo que teve na escola, ele diz que, quando o outro se entregou inteiro, o odiou e o afastou, como se só precisasse dele para vencê-lo.

но когда он отдался мне весь, я тотчас же возненавидел его и оттолкнул от себя, — точно он и нужен был мне только для одержания над ним победы, для одного его подчинения, mas, quando ele se entregou inteiro a mim, odiei-o na mesma hora e o afastei de mim, como se eu só precisasse dele para vencê-lo, para submetê-lo.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Com Liza o mesmo mecanismo se repete em escala maior. No capítulo V da Segunda Parte ele gosta dela assim que a vê, séria e ingênua, e teria odiado se ela sorrisse. No capítulo VI da Segunda Parte inventa o quadro do casamento por amor, com a briga que termina em reconciliação e o bebê que morde o seio da mãe, e ela lhe diz que ele fala como num livro. No capítulo VII da Segunda Parte ela corre a buscar a carta de um estudante de medicina, uma declaração de amor respeitosa, a prova de que o sermão não a descreve inteira. No capítulo VIII da Segunda Parte, passados os dias de espera, o devaneio com que ele se acalma é este: salvaria Liza, a educaria, perceberia que ela o ama e se conteria por delicadeza, para não exercer despotismo sobre quem lhe devesse gratidão.

ты моя, ты мое созданье, ты чиста, прекрасна, ты — прекрасная жена моя, você é minha, você é a minha criatura, é pura, bela, é a minha bela esposa.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

A cena do capítulo IX da Segunda Parte inverte tudo. Liza responde à confissão dele com um abraço, e ele, depois de chorar, ao erguer a cabeça sente algo diferente do que esperava: a vergonha diante dela vira vontade de dominá-la, quase como vingança. O capítulo X da Segunda Parte dá a regra por trás disso.

Во-первых, я и полюбить уж не мог, потому что, повторяю, любить у меня — значило тиранствовать и нравственно превосходствовать, Em primeiro lugar, eu já nem podia amar, porque, repito, para mim amar significava tiranizar e ter superioridade moral.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

E dá o preço: ele diz que concebeu o amor como luta que começa no ódio e termina na submissão moral, e que só depois entendeu que Liza fora para amá-lo, porque para a mulher, no amor, está toda a ressurreição, toda a salvação e todo o renascimento. O desfecho vem na devolução do dinheiro e na esquina onde ele para.

O livro, aqui, não dá o desfecho do amor que salva, como o de Sônia por Raskólnikov em Crime e Castigo. Liza vai embora e o narrador nunca mais a encontra.

Quem o encarna

Liza, que no capítulo IX da Segunda Parte responde, pela leitura do narrador, ao que ele sente e não ao que ele faz, e que age sem pedir nada em troca na carta do estudante, no abraço e na cédula. O homem do subsolo, que encarna o amor como tirania. O amigo da escola (capítulo III da Segunda Parte) e Olímpia, a quem ele imagina junto de Zvierkóv (capítulo V da Segunda Parte), aparecem só como lembrança e como cena imaginada.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo V: O homem do subsolo conta que quis se apaixonar à força, duas vezes, e sofreu de verdade com ciúmes, tudo por tédio, porque a inércia o esmagava.
  • Segunda Parte, capítulo III: O homem do subsolo conta que, quando o único amigo da escola se entregou inteiro a ele, o odiou na hora e o afastou, como se só precisasse vencê-lo.
  • Segunda Parte, capítulo V: O homem do subsolo gosta de Liza assim que a vê, com seu rosto sério e ingênuo, e diz que teria odiado se ela sorrisse.
  • Segunda Parte, capítulo VI: O homem do subsolo descreve a Liza o casamento por amor, com brigas que terminam em reconciliação e um bebê que morde o seio, e ela responde que ele fala como num livro.
  • Segunda Parte, capítulo VII: Liza corre a buscar a carta de um estudante de medicina que lhe declara amor com respeito e a mostra ao homem do subsolo depois de ouvir o pior sobre si.
  • Segunda Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo sonha salvar Liza, educá-la e ser amado por ela, e se conter por delicadeza, até a chamar de sua criatura e de sua bela esposa.
  • Segunda Parte, capítulo IX: Liza responde à confissão do homem do subsolo com um abraço, e ele, ao erguer a cabeça, sente vontade de dominá-la, quase como uma vingança.
  • Segunda Parte, capítulo X: O homem do subsolo diz que já não podia amar, porque para ele amar significava tiranizar e ter superioridade moral.
  • Segunda Parte, capítulo X: Liza devolve a cédula de cinco rublos que o homem do subsolo pusera na mão dela, e ele corre atrás dela para se jogar a seus pés, mas para na esquina.

Onde as leituras divergem

O amor da obra se lê de dois modos. Numa leitura, o gesto de Liza é o centro moral do livro: Joseph Frank vê no gesto final dela, a devolução do dinheiro, a única dignidade intacta de todo o texto e o espelho exato da incapacidade do narrador de amar sem dominar. Na outra, tudo o que se sabe do amor de Liza vem do narrador, que no capítulo IX da Segunda Parte lhe atribui a compreensão de que ele era infeliz, e no capítulo X da Segunda Parte admite que não podia imaginar o gesto dela.

O texto não permite fechar a questão. O que a cena fixa é o contraste entre o narrador, que ama dominando, e Liza, cujo gesto não pede nada em troca, e o livro termina antes de dizer o que ela fez com o que recebeu.