O tema na obra
A razão da obra tem uma forma precisa: é o cálculo do interesse, a ideia de que o homem agiria sempre pela vantagem e de que bastaria mostrá-la para tornar o mundo bom. O homem do subsolo ataca essa ideia por dentro, como quem a conhece, e a Primeira Parte inteira é a disputa entre o que a razão enumera e o que ela deixa de fora.
Os primeiros capítulos fixam o terreno. No capítulo III da Primeira Parte a razão aparece como muro: as leis da natureza, as ciências e a aritmética, diante das quais o homem de ação cede e o narrador não se reconcilia. No capítulo V da Primeira Parte ele a descreve de dentro: cada causa primeira que o pensamento encontra arrasta atrás de si outra, anterior, e por isso ele não consegue parar numa delas para agir.
они вследствие своей ограниченности ближайшие и второстепенные причины за первоначальные принимают, таким образом скорее и легче других убеждаются, что непреложное основание своему делу нашли, ну и успокоиваются, eles, em consequência da sua limitação, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas primeiras e, assim, se convencem mais depressa e mais facilmente que os outros de que acharam o fundamento inabalável da sua obra, e então se tranquilizam.
A contestação vem a partir do capítulo VII da Primeira Parte. O narrador afirma que os sistemas que prometem tornar o homem bondoso mostrando-lhe os seus interesses são mera logística, e que a civilização desenvolve apenas a multiplicidade das sensações, entre as quais estão as do sangue.
Цивилизация выработывает в человеке только многосторонность ощущений и… решительно ничего больше., A civilização desenvolve no homem apenas a multiplicidade das sensações e… decididamente nada mais.
E aponta o que a lista dos estatísticos esquece, a vantagem que não cabe em classificação nenhuma.
Свое собственное, вольное и свободное хотенье, свой собственный, хотя бы самый дикий каприз, своя фантазия, раздраженная иногда хоть бы даже до сумасшествия, — вот это-то все и есть та самая, пропущенная, самая выгодная выгода, которая ни под какую классификацию не подходит и от которой все системы и теории постоянно разлетаются к черту., O seu próprio querer, voluntarioso e livre, o seu próprio capricho, ainda que o mais selvagem, a sua fantasia, irritada às vezes até a loucura: tudo isso é justamente aquela vantagem omitida, a mais vantajosa das vantagens, que não cabe em nenhuma classificação e por causa da qual todos os sistemas e teorias se despedaçam e vão para o diabo.
No capítulo VIII da Primeira Parte responde à objeção do interlocutor, a de que, calculado tudo, passaremos a raciocinar em vez de querer, com a distinção em que se apoia o resto: a razão satisfaz uma faculdade do homem, e o querer é a manifestação de toda a vida.
рассудок есть только рассудок и удовлетворяет только рассудочной способности человека, а хотенье есть проявление всей жизни, то есть всей человеческой жизни, и с рассудком, и со всеми почесываниями. И хоть жизнь наша в этом проявлении выходит зачастую дрянцо, но все-таки жизнь, а не одно только извлечение квадратного корня., a razão é só razão e satisfaz apenas a faculdade racional do homem, enquanto o querer é a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todas as suas coceiras. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, acabe muitas vezes numa porcariazinha, é vida, e não apenas a extração de uma raiz quadrada.
No capítulo IX da Primeira Parte a razão chega ao dois e dois são quatro, que ele chama de começo da morte, e no capítulo X da Primeira Parte ao edifício de cristal, a utopia que a razão promete. O que a Primeira Parte combate não é o raciocínio, é a pretensão de que o raciocínio esgote o homem.
A Segunda Parte devolve a razão em outra figura, a lucidez que acompanha o ato sem impedi-lo. No capítulo V da Segunda Parte, no trenó, o narrador chora com o roteiro de vingança que ensaia e sabe, no mesmo instante, que o tirou de dois livros.
Я было даже заплакал, хотя совершенно точно знал в это же самое мгновение, что все это из Сильвио и из «Маскарада» Лермонтова, Cheguei até a chorar, embora soubesse com toda a exatidão, naquele mesmo instante, que aquilo tudo vinha de Sílvio e da Mascarada, de Liérmontov.
Liza é quem lhe diz, no capítulo VI da Segunda Parte, o que a lucidez dele não impede: que ele fala como se lesse num livro.
Что-то вы… точно как по книге, Você parece... falar como se fosse por um livro.
No capítulo X da Segunda Parte o narrador generaliza, e a razão de que ele falava como adversária passa a ser o hábito de viver por leitura.
Мы мертворожденные, да и рождаемся-то давно уж не от живых отцов, и это нам все более и более нравится. Во вкус входим. Скоро выдумаем рождаться как-нибудь от идеи, Somos natimortos, e já faz tempo que nem nascemos de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Estamos pegando gosto. Daqui a pouco inventaremos de nascer de uma ideia.
A razão da obra tem, portanto, dois tempos. Na Primeira Parte é objeto de ataque e se mede pelo que não alcança. Na Segunda é o que o narrador faz com as cenas, escrevendo-as antes que aconteçam, e o que não cabe no roteiro, como o abraço de Liza, é o que ele não sabe ler.
Quem o encarna
O homem do subsolo é ao mesmo tempo o crítico e o praticante da razão: argumenta contra ela com todas as armas dela. O "amigo", a "pessoa coletiva" do capítulo VII da Primeira Parte, é o retrato do argumento: quem expõe com clareza o que a razão manda e, quinze minutos depois, faz o contrário. Liza é quem nomeia, no capítulo VI da Segunda Parte, o que há de livresco na razão do narrador.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo III: O homem do subsolo chama de muro de pedra as leis da natureza e a matemática, e diz que não vai se conformar com ele só porque lhe faltam forças para rompê-lo.
- Primeira Parte, capítulo V: O homem do subsolo explica que cada causa primeira que encontra puxa outra anterior, e que por isso não consegue parar numa delas para agir.
- Primeira Parte, capítulo VII: O homem do subsolo pergunta quem provou que o homem só faz o mal por desconhecer seus interesses, e responde que milhões de fatos mostram homens que preferiram o capricho à vantagem que entendiam.
- Primeira Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo responde ao interlocutor que a razão é só razão e satisfaz apenas a faculdade racional do homem, enquanto o querer é a manifestação de toda a vida humana.
- Primeira Parte, capítulo IX: O homem do subsolo declara que dois e dois são quatro já não é vida, e sim o começo da morte, porque depois da fórmula pronta não resta nada a fazer nem a conhecer.
- Primeira Parte, capítulo X: O homem do subsolo recusa o edifício de cristal que os senhores prometem e diz que não aceitaria o galinheiro como palácio, por gratidão.
- Segunda Parte, capítulo V: O homem do subsolo chora com o roteiro de vingança que ensaia no trenó, embora saiba no mesmo instante que o tirou de Sílvio e da Mascarada.
- Segunda Parte, capítulo VI: Liza diz ao homem do subsolo que ele fala como se lesse num livro, depois de ele pintar o quadro do casamento por amor.
- Segunda Parte, capítulo VII: O homem do subsolo admite que fala de modo travado e livresco ao sermonear Liza, mas conta com essa literatice para comovê-la.
- Segunda Parte, capítulo X: O homem do subsolo diz que todos perderam o hábito da vida viva e preferem as coisas por livro, e que a vida dele só levou ao extremo o que os outros fazem pela metade.
Onde as leituras divergem
A razão do livro se lê de dois modos, e o texto sustenta os dois. Numa leitura, o narrador defende que a liberdade vale mais que o cálculo, e a Primeira Parte é uma recusa de reduzir o homem à aritmética. Na outra, Joseph Frank vê uma sátira: o narrador aceita por inteiro o determinismo utilitarista que Dostoiévski quer refutar e o leva ao extremo até ele se destruir por dentro.
A Segunda Parte fortalece a segunda leitura, porque mostra a consequência de pensar tudo por livro, mas deixa de pé a primeira, porque nenhuma das cenas prova que o cálculo teria feito melhor.