Não. O narrador de Noites Brancas nunca diz o próprio nome, e ninguém o chama por um nome no livro. Ele é conhecido pela palavra com que se apresenta a Nástienka na Primeira Noite: sonhador. Sabe-se que tem vinte e seis anos, que mora há oito em São Petersburgo e que nesse tempo não fez um só conhecido.
A falta de nome combina com o modo como ele se vê. Na Primeira Noite ele diz: "Eu sou um sonhador". Na Segunda, quando Nástienka quer saber quem ele é, responde que é um tipo, e passa a descrever o sonhador de Petersburgo em terceira pessoa, como uma espécie e não como uma pessoa, porque na primeira pessoa tem vergonha. Ele mesmo prefere ser um exemplar a ser alguém.
Os outros nomes do livro reforçam o contraste. Nástienka só diz o seu na Segunda Noite, e ele declara que nunca vai se cansar de repeti-lo. O inquilino também não tem nome e é chamado só assim até o fim; a avó é a avó. Os nomes próprios ficam com as mulheres que cercam os dois: Nástienka, Matriona, a criada dele, e Fiekla, a criada da avó.
Há quem leia o anonimato como um recurso para que qualquer leitor se ponha no lugar dele, e quem o leia como parte do retrato: um homem que vive de devaneio e não deixou marca em ninguém não precisa de nome, porque ninguém o chamaria. O texto sustenta as duas leituras.