Memórias do Subsolo, de 1864, pode ser lida como a continuação de Noites Brancas: o homem do subsolo é o sonhador dezesseis anos depois, outro homem de Petersburgo que vive de devaneio num canto, agora sem ternura. As duas obras não têm os mesmos personagens; o que se repete é o tipo, o homem solitário que se descreve a si mesmo e não sabe viver o que imagina.
Em Noites Brancas, o Sonhador já faz o retrato desse tipo. Descreve o sonhador de Petersburgo, que se instala "num canto inacessível" e "gruda-se ao seu canto como um caracol", e conta a visita de um conhecido que o encontra perturbado, como se tivesse cometido um crime entre as quatro paredes, e que sai rindo dele. A vergonha diante do visitante e a vida passada num canto voltam no livro de 1864.
A diferença está no que cada um faz com a chance de amor. O Sonhador de 1848 recebe essa chance e a perde: declara o amor, é aceito por algumas horas e, no fim, abençoa a moça que o deixou. O homem do subsolo recebe uma chance parecida e a recusa. Um termina numa bênção; o outro, sem a ternura que salva o primeiro.
Ler as duas em sequência mostra o caminho que Dostoiévski fez entre uma e outra, passando pela prisão de 1849. Há quem veja no Sonhador o subsolo ainda em germe, com a mesma solidão disfarçada de humor; e quem veja nele o contrário, um homem ainda capaz de gratidão, e por isso longe do subsolo. O texto de Noites Brancas dá matéria às duas leituras.