O tema na obra
O devaneio é o mecanismo do livro. A solidão do Sonhador é o estado (ver Solidão e isolamento); o sonho é o que ele faz com ela, a máquina que fabrica uma vida inteira dentro do quarto, com amores, viagens e batalhas. O livro trata esse mecanismo com uma precisão quase clínica: mostra como começa (a volta para casa no fim do expediente), como funciona (a deusa fantasia tecendo enquanto ele janta sem perceber), o que dá (felicidade, lágrimas, noites em claro) e o que cobra (anos perdidos e a dúvida se viveu). O mais singular é que quem faz o diagnóstico é o próprio doente, em voz alta, para uma moça que acabou de conhecer.
O sonho não é só dele. Nástienka também sonha, presa ao vestido da avó, primeiro com um príncipe chinês, depois com o inquilino que os livros lhe trouxeram, e na Quarta Noite chega a se perguntar se o seu amor não foi obra da imaginação. O livro põe os dois sonhadores frente a frente e decide o fim pela diferença: o sonho dela tem um rosto que pode chegar pela rua.
Na Primeira Noite, o Sonhador confessa à moça, logo no primeiro passeio, de quem já se apaixonou:
Да ни в кого, в идеал, в ту, которая приснится во сне. Я создаю в мечтах целые романы, Ora, por ninguém, por um ideal, por aquela que aparece em sonho. Eu crio romances inteiros nos meus devaneios.
O mesmo mecanismo já trabalha quando ele pede para voltar ao cais, não para vê-la, mas para repetir o momento em pensamento:
Я мечтатель; у меня так мало действительной жизни, что я такие минуты, как эту, как теперь, считаю так редко, что не могу не повторять этих минут в мечтаньях, Eu sou um sonhador; tenho tão pouca vida real que momentos como este, como agora, conto-os tão raramente que não posso deixar de repeti-los em devaneio.
Na Segunda Noite, o discurso do Sonhador descreve a hora do devaneio: a deusa fantasia, a de Jukóvski, tece para o herói uma vida que não existe enquanto ele caminha para casa, e quando o sonho desmorona outro já começa a chamar fantasmas:
Новый сон — новое счастие! Новый прием утонченного, сладострастного яда!, Novo sonho, nova felicidade! Nova dose de um veneno refinado e voluptuoso!
Os papéis que ele se dá vão de amigo de Hoffmann às heroínas de Walter Scott, da noite de São Bartolomeu à casinha em Kolomna, e o resultado é uma liberdade que dispensa os outros:
потому что он сам художник своей жизни и творит ее себе каждый час по новому произволу, porque ele mesmo é o artista da sua vida e a cria para si a cada hora, ao seu arbítrio, de um jeito novo.
Ao largar a pose, ele faz a si mesmo a pergunta que o devaneio deixa:
что же ты сделал с своими годами? куда ты схоронил свое лучшее время? Ты жил или нет?, o que você fez dos seus anos? onde enterrou o seu melhor tempo? Você viveu ou não?
Na Terceira Noite, Nástienka lhe diz que o sonhador que ele descreveu não é ele, que ele está se curando. Na Quarta Noite, ela aplica ao próprio amor a palavra que ele usou para a vida:
может быть, и вся любовь моя была обман чувств, воображения, может быть, началась она шалостью, пустяками, оттого, что я была под надзором у бабушки?, talvez todo o meu amor tenha sido uma ilusão dos sentidos, da imaginação, talvez tenha começado por travessura, por ninharias, porque eu vivia sob a vigilância da avó?
Na Manhã, a carta dela (A carta) chama de sonho o que viveram, e o último devaneio do Sonhador não é um palácio na Itália, é o seu quarto daqui a quinze anos:
я увидел себя таким, как я теперь, ровно через пятнадцать лет, постаревшим, в той же комнате, так же одиноким, с той же Матреной, eu me vi tal como sou agora, daqui a exatamente quinze anos, envelhecido, no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona.
O devaneio, no livro, não é o contrário da vida real: é uma forma de vivê-la por antecipação e por lembrança, sem o risco do presente. A Quarta Noite mostra o que acontece quando o sonho e a vida coincidem por algumas horas: os planos com Nástienka têm a mesma velocidade dos romances do quarto, com aluguel, criadas e ópera decididos numa caminhada, e são desfeitos pela única coisa que o devaneio não controla, outra pessoa passando na rua. Na Manhã, a imaginação que inventava palácios só sabe projetar repetição, e o livro termina com o mecanismo intacto e sem matéria.
Quem o encarna
O Sonhador é o devaneio que se sabe devaneio. Na Segunda Noite ele fala de si em terceira pessoa, como quem lê, e Nástienka lhe pede que fale de um jeito menos bonito; ele responde que não sabe falar de outro modo.
Селится он большею частию где-нибудь в неприступном углу, как будто таится в нем даже от дневного света, и уж если заберется к себе, то так и прирастет к своему углу, как улитка, Instala-se quase sempre num canto inacessível, como se nele se escondesse até da luz do dia, e, uma vez recolhido, gruda-se ao seu canto como um caracol.
Nástienka é o devaneio com saída. Na Segunda Noite, diz que ao lado da avó já se casou em pensamento com um príncipe chinês; na história de Nástienka, na Segunda Noite, conta que os livros do inquilino a fizeram parar de sonhar com o príncipe chinês.
Onde aparece
- Primeira Noite: O Sonhador diz que nunca se apaixonou por ninguém além de um ideal e que cria romances inteiros nos devaneios, e pede para voltar ao cais para repetir o momento em pensamento.
- Segunda Noite: O Sonhador descreve o sonhador de Petersburgo, a deusa fantasia de Jukóvski, o devaneio como felicidade e veneno, e se pergunta se viveu.
- Segunda Noite, história de Nástienka: Nástienka conta que deixou de sonhar com o príncipe chinês quando o inquilino lhe mandou Walter Scott e Púchkin.
- Terceira Noite: Nástienka diz ao Sonhador que o sonhador que ele descreveu não é ele e que ele está se curando.
- Quarta Noite: Nástienka se pergunta se todo o seu amor pelo inquilino não foi ilusão da imaginação, e os dois fazem em poucas horas os planos de uma vida.
- Manhã: A carta de Nástienka chama de sonho o que viveram, e o Sonhador se vê no mesmo quarto daqui a quinze anos.
Onde as leituras divergem
O devaneio do Sonhador se lê como doença, que o livro diagnostica e cuja conta é a vida perdida, ou como dom, a imaginação de um artista sem obra, que ao menos lhe deu intensidade. O texto sustenta as duas na mesma linha, quando o novo sonho é chamado de nova felicidade e de veneno.
O livro inteiro é, ele mesmo, uma lembrança escrita por esse sonhador, e por isso não pode condenar o devaneio sem condenar a própria forma. O que ele faz é mostrar o mecanismo funcionando sobre uma coisa real, quatro noites, e deixar que o leitor veja a diferença entre o romance inventado do quarto e o que ele escreve sobre Nástienka.