Clavis Libri

Tema em Noites Brancas

Memória e passado

A lembrança e o peso do passado: o que se recorda, o que se esquece, a nostalgia, a herança que não se escolheu, o arrependimento.

O tema na obra

O livro é feito de lembrança em dois sentidos. É uma lembrança escrita: o narrador conta as noites já sabendo como terminaram, e a Terceira Noite é escrita no próprio dia de chuva em que ele não vê Nástienka. E é um livro sobre gente que vive do passado: o Sonhador transforma cada momento em lembrança antes que o momento termine, a avó vive dos velhos tempos, e Nástienka espera um ano por uma promessa feita num banco (O cais e o banco). O passado, aqui, não é o que passou: é o que cada personagem guarda para revisitar.

O que o tema mostra no Sonhador é uma memória sem substância. Ele já não recorda fatos, recorda devaneios, e confessa a Nástienka que comemora aniversários de sensações que nunca aconteceram. No fim, a carta dela (A carta) promete guardá-lo como lembrança doce, e ele recebe de volta, como destino, exatamente o que fazia com os próprios momentos.

Na Primeira Noite, ao pedir para voltar ao cais, ele explica que tem tão pouca vida real que repete em devaneio os raros momentos que vive:

Я мечтатель; у меня так мало действительной жизни, что я такие минуты, как эту, как теперь, считаю так редко, что не могу не повторять этих минут в мечтаньях, Eu sou um sonhador; tenho tão pouca vida real que momentos como este, como agora, conto-os tão raramente que não posso deixar de repeti-los em devaneio.
Primeira Noite: O encontro

Na Segunda Noite, ele confessa a que ponto chegou:

я уже принужден справлять годовщину своих ощущений, годовщину того, что было прежде так мило, чего в сущности никогда не бывало, já me vejo obrigado a comemorar o aniversário das minhas sensações, o aniversário do que antes era tão querido e que, no fundo, nunca aconteceu.
Segunda Noite: O sonhador e a história de Nástienka

Ao rever os lugares de um ano antes, cobra de si o tempo:

что же ты сделал с своими годами? куда ты схоронил свое лучшее время? Ты жил или нет?, o que você fez dos seus anos? onde enterrou o seu melhor tempo? Você viveu ou não?
Segunda Noite: O sonhador e a história de Nástienka

Na história de Nástienka, na Segunda Noite, Nástienka conta a avó que vive dos velhos tempos, em que era mais moça, o sol mais quente e o creme azedava mais devagar, e que nos velhos tempos fez o papel de Rosina num teatro caseiro; é por essa saudade que a avó aceita ir à ópera com o inquilino (O Barbeiro de Sevilha). A própria espera de Nástienka é memória: a noite no banco, às dez, um ano antes.

Na Quarta Noite, o livro devolve Nástienka à posição da primeira noite:

она стояла, как тогда, в первый раз, облокотясь на перила набережной, ela estava parada, como daquela vez, a primeira, apoiada na grade do cais.
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

Na Manhã, a carta dela diz que o amor do Sonhador ficará na memória dela como um sonho doce, lembrado muito tempo depois de acordar, e pede que ele venha vê-los. O quarto envelhece diante dele, e o que ele vê do futuro é o passado repetido:

я увидел себя таким, как я теперь, ровно через пятнадцать лет, постаревшим, в той же комнате, так же одиноким, с той же Матреной, eu me vi tal como sou agora, daqui a exatamente quinze anos, envelhecido, no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona.
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

E termina pondo o minuto vivido no lugar da vida inteira:

Боже мой! Целая минута блаженства! Да разве этого мало хоть бы и на всю жизнь человеческую?.., Meu Deus! Um minuto inteiro de bem-aventurança! Será isso pouco, mesmo para uma vida humana inteira?...
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

A memória do Sonhador funciona antes da hora: ele pede para lembrar o encontro quando o encontro ainda não terminou, e é isso que o livro inteiro faz, escrito como lembrança das quatro noites. Na Manhã ele recebe o papel que dava aos seus momentos, o de lembrança doce na memória de outra pessoa, e o que fica para ele é um futuro desenhado à imagem do passado, o mesmo quarto, a mesma criada, quinze anos mais velhos. A única coisa nova que a memória lhe dá no fim é a decisão de chamar o minuto de inteiro.

O subtítulo da novela, Romance sentimental. Das lembranças de um sonhador, apresenta a obra inteira como memória do narrador.

Quem o encarna

O Sonhador é a memória de quem viveu pouco. Na Primeira Noite, diz que tem dois ou três lugares em Petersburgo aonde volta para lembrar, e imagina que a moça chorava por uma lembrança também.

A avó é a memória de quem viveu antes. Na história de Nástienka, na Segunda Noite, tudo nela aponta para os velhos tempos, e é dela que vem o Barbeiro de Sevilha que aproxima a neta do inquilino.

Nástienka é a memória que espera. Na história de Nástienka, na Segunda Noite, guarda por um ano a noite do banco, e na Manhã promete guardar o Sonhador como lembrança fiel.

Onde aparece

  • Primeira Noite: O Sonhador pede para voltar ao cais à mesma hora para lembrar o encontro e diz que repete em devaneio os raros momentos da sua vida real.
  • Segunda Noite: O Sonhador diz que já comemora o aniversário de sensações que nunca aconteceram e se pergunta onde enterrou o seu melhor tempo.
  • Segunda Noite, história de Nástienka: A avó vive dos velhos tempos, quando fez Rosina num teatro caseiro, e Nástienka guarda a promessa feita no banco um ano antes.
  • Quarta Noite: Nástienka espera o Sonhador apoiada na grade do cais, como na primeira noite.
  • Manhã: A carta de Nástienka promete guardar o amor do Sonhador como um sonho doce, e ele se vê daqui a quinze anos no mesmo quarto.

Onde as leituras divergem

A memória do Sonhador se lê como fuga, um modo de não viver o presente, ou como a forma própria da vida dele, a única em que ele consegue possuir alguma coisa. O texto sustenta a primeira na Segunda Noite, onde ele mesmo chama a vida passada em devaneio de zero redondo, e a segunda na Manhã, onde a lembrança do minuto é o que ele escolhe guardar.

As duas leituras se encontram no próprio livro: se a memória fosse só fuga, a lembrança das quatro noites seria mais um devaneio; mas o que ele lembra desta vez aconteceu, e é a primeira lembrança dele com substância.