O tema na obra
O repertório de Emma Bovary se forma no convento, no capítulo 6 da Parte I: os romances que uma velha costureira contrabandeia para o convento, Walter Scott, os livros de lembranças com gravuras. Antes disso o leitor já a viu querer casar-se à meia-noite, à luz de tochas, no capítulo 3. Casada, ela imagina no capítulo 7 a lua de mel que não teve, em terras de nomes sonoros, e depois do baile de La Vaubyessard, no capítulo 8, a fantasia ganha objetos: no capítulo 9 a cigarreira (ver A cigarreira verde) vira uma história de amor bordada por uma amante, Paris vira um mapa percorrido com o dedo, o Visconde vira um rosto.
Na Parte II, o jantar com Léon no capítulo 2 é uma troca de lugares-comuns de leitura, e Emma conclui que um lugar novo há de trazer uma vida melhor. No capítulo 4 ela espera que o amor chegue como tempestade; no capítulo 7, com Léon longe, o recria mais alto e mais vago. Depois de ceder a Rodolphe Boulanger, no capítulo 9, lembra-se das heroínas adúlteras dos livros que lera, e no capítulo 10 faz a conta das ilusões gastas. No capítulo 12 sonha a fuga a galope para um país novo, enquanto Charles Bovary, ao lado, sonha o futuro da filha. No capítulo 15, na ópera, ela se reconhece em Lucie de Lammermoor e imagina uma vida de amor com o tenor.
Na Parte III a fantasia não desaparece com o amante novo. No capítulo 3, ao luar, Emma canta no barco; no capítulo 5, Rouen vista do alto é uma Babilônia de paixões que ela atribui às cento e vinte mil almas da cidade; no capítulo 6, escrevendo a Léon, ela já vê outro homem, feito de recordações e de leituras.
A fantasia de Emma não é fuga ocasional, é o modo como ela percebe tudo: ela não vê o que tem diante dos olhos, vê o que leu. O romance mostra o custo pela alternância, sonho e desmentido, desmentido e sonho maior, e o desmentido nunca ensina nada. O fantasma do capítulo 6 da Parte III é o ponto de chegada: o amante ideal já não precisa de corpo, e nenhum homem real pode competir com ele.
Onde aparece
- Parte I, capítulo 3: Emma queria um casamento à meia-noite, à luz de tochas, que o pai não entende.
- Parte I, capítulo 6: os romances do convento formam o repertório com que ela vai medir a vida.
- Parte I, capítulo 7: Emma imagina a lua de mel que não teve e compara a própria vida à das colegas de convento.
- Parte I, capítulo 8: o baile oferece por uma noite a vida que ela vai passar o livro tentando repetir.
- Parte I, capítulo 9: a cigarreira e o mapa de Paris viram matéria de uma vida vivida por procuração.
- Parte II, capítulo 2: Emma e Léon trocam lugares-comuns de leitura, e ela aposta que o lugar novo trará vida nova.
- Parte II, capítulo 4: o amor que Emma espera deve cair como tempestade dos céus.
- Parte II, capítulo 7: ausente, Léon renasce na lembrança mais belo e mais vago.
- Parte II, capítulo 9: depois da floresta, as heroínas dos livros cantam na memória de Emma.
- Parte II, capítulo 10: Emma conta as ilusões gastas desde a virgindade.
- Parte II, capítulo 12: a fuga sonhada a galope para um país novo, ao lado do sonho doméstico de Charles.
- Parte II, capítulo 15: na ópera, Emma se põe no lugar de Lucie e se oferece em pensamento ao tenor.
- Parte III, capítulo 3: os três dias com Léon em Rouen, com barco, ilha e canção ao luar.
- Parte III, capítulo 5: Rouen vista do alto é uma Babilônia de paixões atribuídas.
- Parte III, capítulo 6: nas cartas a Léon, Emma vê um amante feito de leituras.
Passagens
O temperamento que o convento forma procura emoção, não o mundo.
She wanted to get some personal profit out of things, and she rejected as useless all that did not contribute to the immediate desires of her heart, being of a temperament more sentimental than artistic, looking for emotions, not landscapes, ela queria tirar das coisas algum proveito pessoal, e rejeitava como inútil tudo que não contribuísse para os desejos imediatos do coração, sendo de temperamento mais sentimental que artístico, em busca de emoções, não de paisagens.
Um objeto achado na estrada basta para Emma inventar uma paixão inteira.
A breath of love had passed over the stitches on the canvas; each prick of the needle had fixed there a hope or a memory, and all those interwoven threads of silk were but the continuity of the same silent passion, um sopro de amor passara sobre os pontos da tela; cada picada da agulha ali fixara uma esperança ou uma lembrança, e todos aqueles fios de seda entrelaçados eram apenas a continuidade da mesma paixão silenciosa.
A conta das ilusões vem com a imagem do viajante que paga em cada estalagem.
Que abundância de ilusões! Agora já não lhe restava nenhuma! Gastara-as todas com as aventuras da sua alma, em todas as condições sucessivas, na virgindade, no casamento e no amor, perdendo-as assim continuamente ao longo da vida, como um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho.
Na ópera, a fantasia já dispensa até que o outro saiba que ela existe.
Rapta-me, leva-me, fujamos! Para ti, para ti!, todos os meus ardores e todos os meus sonhos!
O amante ideal das cartas é feito do que Emma leu e desejou.
Nas cartas que continua a escrever a Léon, o destinatário já é outro:via outro homem, um fantasma construído das suas mais ardentes recordações, das suas mais belas leituras, dos seus mais fortes desejos