Clavis Libri

Tema em Noites Brancas

Felicidade

O que é viver bem: felicidade, plenitude, contentamento, a vida boa e o que a impede.

O tema na obra

A felicidade, no livro, é sempre de curta duração e sempre sabida como tal. Começa na epígrafe, que fala de um instante na vizinhança de um coração, e termina na última frase, que pergunta se um minuto de bem-aventurança é pouco para uma vida inteira. Entre as duas, o Sonhador é feliz de verdade algumas vezes, e cada vez a felicidade traz o prazo dentro dela: até amanhã, até o outro chegar, até o fim da noite (A noite branca). O livro não pergunta se ele foi feliz, pergunta quanto vale uma felicidade que não dura.

A felicidade de Nástienka corre em paralelo e em outro ritmo: a febre de alegria depois da ópera, na história de Nástienka, na Segunda Noite, a espera feliz da Terceira Noite, e o casamento anunciado na Manhã. A dela se cumpre; a dele se lembra.

Na Primeira Noite, a epígrafe dá a medida antes de tudo:

Иль был он создан для того, / Чтобы побыть хотя мгновенье / В соседстве сердца твоего?.., Ou teria sido criado só para isto: / estar, nem que fosse por um instante, / na vizinhança do teu coração?
Primeira Noite: O encontro

No mesmo dia, ao passar a cancela da cidade, o Sonhador fica alegre como nunca, como se estivesse na Itália, e compara a primavera de Petersburgo a uma moça doente que por um instante fica deslumbrante.

Я был так счастлив… до завтра!, Eu estava tão feliz... até amanhã!
Primeira Noite: O encontro

Na Segunda Noite, ele diz que o devaneio é a sua felicidade e o seu veneno:

Новый сон — новое счастие! Новый прием утонченного, сладострастного яда!, Novo sonho, nova felicidade! Nova dose de um veneno refinado e voluptuoso!
Segunda Noite: O sonhador e a história de Nástienka

Na Terceira Noite, escrevendo num dia de chuva, ele entende que a ternura de Nástienka na noite anterior era a alegria dela pela chegada do outro, e que a tomou por moeda verdadeira. Ela, feliz, o elogia por não se ter apaixonado.

Na Quarta Noite, depois que ela aceita a mão dele, os dois riem, choram e andam sem rumo como crianças, fazendo planos de vida em comum, e ela recusa rindo a ida à ópera (O Barbeiro de Sevilha). A felicidade dura até um moço parar na calçada.

Na Manhã, o Sonhador recusa turvar a felicidade dela com uma censura e a abençoa:

да будешь ты благословенна за минуту блаженства и счастия, которое ты дала другому, одинокому, благодарному сердцу!, que você seja abençoada pelo minuto de bem-aventurança e de felicidade que deu a outro coração, solitário e agradecido!
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

E termina com a pergunta:

Боже мой! Целая минута блаженства! Да разве этого мало хоть бы и на всю жизнь человеческую?.., Meu Deus! Um minuto inteiro de bem-aventurança! Será isso pouco, mesmo para uma vida humana inteira?...
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

O livro trata a felicidade como coisa que se mede pelo tamanho, e o tamanho é sempre pequeno: um instante na epígrafe, uma noite na Primeira Noite, algumas horas na Quarta Noite, um minuto na Manhã. O Sonhador, que vivia de felicidades inventadas e inteiras, recebe uma real e mínima, e o fecho decide chamá-la de inteira. A última frase é uma pergunta porque a resposta muda conforme quem a lê: para quem teve uma vida cheia, um minuto é pouco; para quem passou a vida sonhando, pode ser tudo o que houve.

Quem o encarna

O Sonhador é a felicidade com prazo. Na Primeira Noite, anda a noite inteira sem conseguir voltar para casa; na Manhã, faz da felicidade dela a sua, ao abençoá-la pelo minuto que lhe deu.

Nástienka é a felicidade que se cumpre. Na história de Nástienka, na Segunda Noite, depois do Barbeiro de Sevilha, deita-se tão orgulhosa e contente que tem febre; na Manhã, anuncia o casamento e pede ao Sonhador que venha vê-los.

Onde aparece

  • Primeira Noite: A epígrafe fala de um instante na vizinhança de um coração, e o Sonhador se despede da moça dizendo que está tão feliz, até amanhã.
  • Segunda Noite: O Sonhador chama cada novo sonho de nova felicidade e de nova dose de um veneno refinado.
  • Segunda Noite, história de Nástienka: Nástienka volta do Barbeiro de Sevilha tão orgulhosa e alegre que tem febre.
  • Terceira Noite: O Sonhador entende que a ternura de Nástienka era a alegria dela pela chegada do inquilino.
  • Quarta Noite: Nástienka aceita a mão do Sonhador, e os dois riem, choram e fazem planos até o inquilino aparecer.
  • Manhã: O Sonhador abençoa Nástienka pelo minuto de bem-aventurança que ela lhe deu e pergunta se isso é pouco para uma vida inteira.

Onde as leituras divergem

A última frase se lê como gratidão plena, um homem que se declara satisfeito com o que teve, ou como a medida exata da perda, um minuto que é tudo o que ele terá. O texto a escreve como pergunta e a põe logo depois da visão dos quinze anos de solidão, o que sustenta as duas.

A epígrafe já fazia a mesma pergunta, e com as mesmas duas leituras: estar só um instante na vizinhança de um coração pode ser queixa ou consolo. O livro fecha o anel sem escolher, e a escolha que o Sonhador faz, a de abençoar, é dele, não do texto.