Clavis Libri

Personagem

Dona Glória

Quem é

D. Maria da Glória Fernandes Santiago é mãe de Bentinho, viúva desde os trinta e um anos (capítulo VII), devota, que cria o filho sozinho em casa, sem escola (capítulo XI), para adiar o mais possível a separação que ela mesma prometeu a Deus. Toda a trama do seminário, que ocupa a primeira metade do romance, nasce de um voto que ela fez sem consultar ninguém (capítulo XI), e sua função no livro é sustentar esse voto contra a própria vontade de vê-lo cumprido.

Trajetória

No capítulo III, ouvida por Bentinho escondido atrás da porta, ela reage à denúncia de José Dias minimizando pela idade dos dois, mas decide ali mesmo adiantar o seminário: É promessa, há de cumprir-se.

A origem da promessa é contada no capítulo XI: tendo perdido o primeiro filho ainda no parto, ela jurou a Deus fazer padre o segundo, se homem, e nunca revelou o voto ao marido, só a parentes e agregados, como testemunhas de si mesma.

Na "audiência secreta" do capítulo XLI, sem concluir nada do namoro, apesar da denúncia de José Dias, ela explica ao filho, com a voz "velada e esganada", por que não pede a Deus a dispensa: Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existência, não lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho; são coisas que não se fazem sem pecado, e Deus que é grande e poderoso, não me deixaria assim [...]

É ela quem acolhe Capitu como íntima ainda na adolescência dos dois (capítulo LXVI), e sua doença grave, na juventude do filho, é o que o traz de volta do seminário antes da resolução do impasse (capítulo LXVII). O próprio narrador, décadas depois, conta, como coisa que descobriu mais tarde, que ela alimentava em segredo a esperança de que o namoro tornasse Bentinho "incompatível" com o seminário sem que ela tivesse culpa direta pelo rompimento do voto (capítulo LXXX). Quando a solução de Escobar chega a ela, hesita e cede depois que o Padre Cabral, tendo consultado o bispo, diz que a troca vale (capítulo XCVII).

Aprova por fim o casamento, anunciado por José Dias a Bentinho já bacharel, e ela mesma lhe faz a profecia com redação de mãe (capítulo C): "Tu serás feliz, meu filho!" Morre depois da separação do filho, no tempo das viagens dele à Europa, e é sepultada sob uma inscrição que ele mesmo escolhe, sem nome (capítulo CXLII): Uma santa.

Temas que encarna

Os temas que passam por ela são Religião e Lealdade e traição.

D. Glória é a única personagem do livro cuja palavra empenhada é cumprida por um substituto (capítulo XCVII), e não por Bentinho: ela não rompe o voto, mas também não o executa sem ajuda alheia, deixando que José Dias (capítulo XCV) e depois Escobar (capítulo XCVI) trabalhem a saída que ela própria talvez desejasse e não pudesse formular. O livro não a mostra mentindo nem manipulando, mostra uma mulher presa à própria palavra a Deus, incapaz de romper o contrato e talvez aliviada, sem nunca admitir isso, quando outra pessoa o faz por ela.

Vale notar que ela é descrita pelo narrador, a propósito do menino que ele foi, como "cândida como a primeira aurora, anterior ao primeiro pecado" (capítulo XLI), incapaz de deduzir do namoro escondido nada além do que lhe é dito abertamente; é essa mesma candura que a impede de ver o que José Dias já via, e que faz dela, sem querer, a peça que mais tempo resiste à solução que todos os outros personagens acabam encontrando por fora dela.

Leituras divergentes

Há quem leia D. Glória como vítima da própria devoção, presa a um voto impulsivo de luto que nem o marido chegou a conhecer (capítulo XI), e há quem note, como o próprio narrador conta, dizendo que a descobriu mais tarde, uma ambivalência mais funda: ela talvez precisasse do namoro de Bentinho com Capitu para se livrar da promessa sem culpa (capítulo LXXX), o que tornaria sua resistência ao romance dos dois menos sincera do que parece à primeira leitura.

O narrador conta essa esperança como coisa que só mais tarde "presumiu descobrir" (capítulo LXXIX), e o leitor fica só com a palavra dele, como ficará depois diante de Capitu, com muito mais peso e muito menos ressalva.

Relações

  • Bentinho: filho a quem consagrou a Deus antes de nascer (capítulo XI), e de quem se aproxima e se afasta ao longo da vida, sempre em função da promessa.
  • José Dias: agregado da casa desde antes da viuvez, que alimenta e reforça, por anos, a lembrança da promessa junto a ela (capítulo III, capítulo XXI).
  • Capitu: torna-se íntima dela ainda adolescente, cosendo e visitando a casa antes de a doença dela trazer Bentinho de volta do seminário (capítulo LXVI, capítulo LXVII).