Quem é
Capitu, Capitolina Pádua, é a vizinha e amor de infância de Bentinho, filha de um funcionário público apelidado Tartaruga e de D. Fortunata (capítulo XV, capítulo XVI), morena, curiosa por tudo (capítulo XXXI), e a mulher que Bentinho, décadas depois, acusa por escrito de tê-lo traído com Escobar (capítulo CXLVIII). Ninguém neste romance descreve Capitu sem interesse na descrição: o que importa aqui é o que o texto mostra dela fazendo e dizendo, separado do que o narrador, um homem que já decidiu que ela o enganou, escolhe ler nesses gestos.
Trajetória
Aos catorze anos ela é apresentada por gesto e por retrato físico: risca com um prego a inscrição BENTOCAPITOLINA no muro do quintal, tenta escondê-la de Bentinho e é vencida pela curiosidade dele (capítulo XIII, capítulo XIV).
É Bentinho quem batiza os olhos dela de "ressaca" no capítulo XXXII, depois de José Dias já os ter chamado "de cigana oblíqua e dissimulada" (capítulo XXV) dias depois de ele mesmo ter denunciado o namoro dela com Bentinho; o texto mostra Capitu apenas se deixando olhar. Sabendo do plano do seminário, ela é quem planeja que Bentinho peça a José Dias que interceda (capítulo XVIII), quem escreve mentiroso
no chão quando Bentinho responde que viria contra a ordem da mãe (capítulo XLIV), e quem corrige a fórmula do juramento à beira do poço, trocando a promessa vaga dele por uma que não deixa saída (capítulo XLVIII).
juremos que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver
No seminário, quando Bentinho estranha a alegria dela, Capitu explica que se mostra alegre diante de Dona Glória e de D. Justina para não confirmar a denúncia de José Dias, e que lhe basta o juramento do poço (capítulo LXV). Ao mesmo tempo vai ganhando a futura sogra, cosendo e visitando a casa (capítulo L, capítulo LXVI).
Casada, ela guarda dinheiro em segredo com a ajuda de Escobar como corretor (capítulo CVI), o que rende a Bentinho os ciúmes do mar (capítulo CVII); tem Ezequiel (capítulo CVIII), e é ela quem chama de esquisito o olhar do filho e o compara, à mesa, ao de Escobar (capítulo CXXXI).
Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? [...] Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defunto Escobar
No velório de Escobar, o texto mostra Capitu chorando pouco, escondendo o choro, consolando a viúva e olhando fixo para o corpo (capítulo CXXIII); o que o narrador escreve por cima disso, que aqueles olhos pareciam a onda querendo tragar também o nadador, é figura de linguagem dele, não fato relatado por ninguém além dele. Acusada meses depois (capítulo CXXXVIII), ela pede várias vezes que Bentinho diga tudo para poder se defender, ele recusa contar o resto, e ela responde com a única explicação que o livro registra da boca dela: Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... A vontade de Deus explicará tudo...
Aceita a separação (capítulo CXL), vai para a Europa com o filho, escreve cartas saudosas que Bentinho responde com secura (capítulo CXLI), e morre na Suíça sem que ele a procure nas viagens que faz depois; a única descrição da morte dela vem do próprio filho, de segunda mão (capítulo CXLV): Morreu bonita
Temas que encarna
Os temas que passam por ela são Aparência e realidade, Lealdade e traição e Linguagem e narração.
Capitu é o único personagem principal do livro sem acesso à própria voz na forma em que o leitor recebe o texto: tudo o que se sabe dela vem filtrado por um narrador que escreve depois de já ter decidido o veredito, e mesmo assim ela não é muda dentro da cena, ela recusa, corrige, escreve no chão, pede várias vezes para se defender. A tensão do personagem não está entre inocência e culpa, está entre o que ela faz em cena e o vocabulário com que Bentinho relata décadas depois o que ela fez.
É notável que seja a própria Capitu quem aponta em voz alta a semelhança dos olhos de Ezequiel com os de Escobar, sem constrangimento nenhum, à mesa de jantar (capítulo CXXXI), num comentário que soa como observação comum de mãe. Se ela fosse tão dissimulada quanto o texto de Bentinho a acusa de ser, esse seria o pior momento possível para levantar o assunto sozinha; o livro não resolve essa contradição, só a deixa registrada.
O ponto em que ela encerra a conversa na cena da acusação, dizendo que não lhes fica bem dizer mais nada (capítulo CXXXVIII) também admite duas leituras opostas: pode ser o silêncio de quem não tem defesa, ou o silêncio de quem entendeu, antes de Bentinho, que nenhuma palavra dela vai convencer um homem que já escreveu a sentença antes de perguntar.
Leituras divergentes
A crítica de Machado se divide, de longa data, entre ler Capitu como culpada, adúltera dissimulada desde a infância, cuja lucidez estratégica no juramento do poço (capítulo XLVIII) e na dissimulação ensinada a Bentinho seriam prova de caráter, e ler o romance inteiro como a fabricação de um ciumento sem provas, leitura que ganhou peso a partir de estudos que notam que nenhuma cena do livro mostra Capitu e Escobar a sós, trocando palavra ou gesto que não passe pela suspeita alheia. A primeira leitura toma o comportamento competente de Capitu menina (o plano dos "meios pequenos" no capítulo XVIII, a instrução de dissimular no capítulo LXV) como prenúncio de caráter; a segunda toma o mesmo comportamento como competência de sobrevivência de uma adolescente pobre namorando às escondidas, sem relação necessária com o que aconteceria uns quinze anos depois.
As duas leituras concordam inteiramente sobre os fatos narrados (o olhar no velório, capítulo CXXIII; a recusa em se explicar mais, capítulo CXXXVIII; a semelhança do filho, capítulo CXXXI) e divergem só sobre o peso de cada um, o que confirma que a disputa não é sobre o que Capitu fez, é sobre quanto se confia no homem que está contando.
Relações
- Bentinho: marido e narrador, quem a acusa, quem nunca a deixa contar o resto da própria defesa, e a quem ela pede várias vezes, sem sucesso, que diga tudo antes de julgá-la (capítulo CXXXVIII).
- Escobar: amigo do marido, corretor informal das economias secretas dela (capítulo CVI), e o homem cuja morte detona a suspeita que a separa do marido (capítulo CXXIII).
- Ezequiel: filho cuja semelhança com Escobar ela mesma aponta à mesa (capítulo CXXXI), sem se saber se por inocência ou por dissimulação, o que o texto não resolve.
- Dona Glória: sogra a quem ela se torna próxima ainda adolescente, cosendo e visitando a casa antes de a doença dela trazer Bentinho de volta do seminário (capítulo LXVI, capítulo LXVII).
- José Dias: o primeiro a descrever os olhos dela como dissimulados, ainda menina, num momento em que criticava Pádua (capítulo XXV).