Clavis Libri

Personagem

José Dias

Quem é

José Dias é o agregado da casa de Bentinho desde que ele acabou de nascer: chegou a Itaguaí vendendo-se por médico homeopata, confessou depois ser um charlatão (capítulo V), e ficou na família por uma mistura calculada de afeto e conveniência que o próprio narrador nunca deixa de marcar. É quem abre o livro denunciando o namoro de Bentinho com Capitu (capítulo III), é quem primeiro descreve os olhos dela como suspeitos (capítulo XXV), e é um dos personagens cujo interesse próprio o texto expõe repetidas vezes antes de dar peso a qualquer coisa que ele diga.

Trajetória

A denúncia que abre o romance é dele: no capítulo III, escondido dos dois, Bentinho ouve José Dias alertar Dona Glória de que o namoro com "a gente do Pádua" pode ficar tarde demais para separar. Logo depois, o narrador descreve o próprio andar do agregado como retórica (capítulo IV): um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão.

Ex-charlatão que confessou a farsa e recusou continuar clinicando, José Dias vive na casa há décadas sem outro estipêndio fixo, e o narrador nota que suas cortesias vinham "antes do cálculo que da índole" (capítulo V). No Passeio Público, Bentinho lhe pede ajuda para escapar do seminário (capítulo XXV); José Dias hesita até ouvir a proposta de estudar leis em São Paulo, que ele mesmo estende a uma universidade de fora e que reacende o sonho antigo dele de voltar à Europa (capítulo XXVI), mas a descrição de Capitu já viera antes, no começo da conversa (capítulo XXV).

Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.
Capítulos XXIII a XXXIV: Os olhos de cigana e os olhos de ressaca

É a mesma boca que, pouco antes, abrira o livro denunciando o namoro dela com Bentinho (capítulo III), e a fala muda de posição no instante em que um interesse próprio, a viagem, entra em jogo (capítulo XXVI). No seminário, ele visita Bentinho e promete de novo a Europa (capítulo LXI); provocado, comenta que Capitu anda alegre e só falta pretendente na vizinhança, comentário que planta em Bentinho o primeiro ciúme puro do livro (capítulo LXII). Meses depois, propõe a saída mais cara e vistosa para a promessa da mãe, uma viagem a Roma para pedir dispensa ao papa (capítulo XCV), ideia que perde para a de Escobar, mais barata e prática (capítulo XCVI). Confirma, sem que ninguém peça, que D. Glória já aprova o casamento com Capitu (capítulo C), e acompanha a família até a velhice: fica com o tio Cosme e com a mãe de Bentinho quando este viaja (capítulo CXLII), vai morar com ele depois da morte de D. Glória e pede por carta a Capitu, já na Europa, o retrato de Ezequiel, ele que se dizia "destinado pelo céu a amar o mesmo sangue" (capítulo CXLIII). Morre em casa, antes do regresso de Ezequiel, pedindo que abrissem a janela para ver o céu, e a última palavra que pronuncia no livro é: Lindíssimo!

Temas que encarna

Os temas que passam por ele são Linguagem e narração, Lealdade e traição e Aparência e realidade.

José Dias é o motor de toda a intriga sem nunca ser o protagonista dela: é ele quem separa Bentinho de Capitu com a denúncia inicial (capítulo III), ele quem primeiro lê os olhos dela como dissimulados (capítulo XXV), ele quem planta o ciúme do capítulo LXII, e cada um desses movimentos coincide com um interesse dele mesmo, a fidelidade calculada à família que o sustenta, a promessa de uma viagem à Europa (capítulo XXVI, capítulo LXI). O texto raramente acusa José Dias de mentir; mostra apenas que ele fala quando falar lhe convém, e que suas frases, ditas de passagem, viram os alicerces sobre os quais Bentinho, décadas depois, constrói a própria acusação contra Capitu.

A frase "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" é o dado mais citado do livro sobre Capitu (capítulo XXV), e importa lembrar sempre de quem ela é: não do narrador, e não de uma observação desinteressada, mas de um agregado que, no mesmo fôlego, troca de posição sobre o seminário por causa de uma promessa de viagem. Bentinho não a contesta no momento em que ouve, põe-na à prova dias depois (capítulo XXXII), nega-a no capítulo L e, mesmo assim, retoma-a na última página (capítulo CXLVIII); é o próprio narrador, que a testou e a negou, mas a devolve no fim sem lembrar a fonte interessada, quem faz a frase pesar tanto quanto pesa no resto do livro.

Leituras divergentes

Há leitores que tratam José Dias como comic relief, o agregado bajulador de superlativos fáceis, cuja denúncia inicial é vaidade de quem gosta de intrigar, sem peso moral maior. Outros o leem como o verdadeiro operador da tragédia, o Iago da primeira metade do livro (capítulo LXII), cuja frase sobre os olhos de Capitu é o gatilho que, replicado décadas depois pela memória de Bentinho, decide o destino dela.

As duas leituras não se excluem: é justamente por ser cômico, humilde, dependente e nunca ameaçador que José Dias consegue plantar suspeitas quase sem ser questionado, e é essa mistura de inofensividade aparente e interesse real que o torna, no fim das contas, mais perigoso do que um vilão declarado seria.

Relações

  • Bentinho: cria e serve desde que ele acabou de nascer, denuncia o namoro com Capitu ainda menino, e planta o primeiro ciúme puro do adolescente no seminário (capítulo III, capítulo LXII).
  • Dona Glória: recebe dele a denúncia que abre o livro e a insistência, ao longo de anos, na promessa e no seminário (capítulo III, capítulo XXI).
  • Capitu: é o primeiro a chamar os olhos dela de dissimulados, num momento em que criticava Pádua, pouco antes de a Europa entrar na conversa (capítulo XXV, capítulo XXVI).
  • Ezequiel: pede o retrato dele já velho (capítulo CXLIII), e projeta nele a continuidade da própria ligação com a família, sem viver para ver o menino crescer.