Clavis Libri

Personagem

Bentinho

Quem é

Bento Santiago, Bentinho, é ao mesmo tempo quem conta o livro e quem o livro julga: filho único de Pedro de Albuquerque Santiago e de Dona Glória, criado sob a promessa de virar padre (capítulo XI), apaixonado desde os quinze anos pela vizinha Capitu (capítulo XII), seminarista (capítulo L), depois bacharel em Direito (capítulo XCVIII), marido (capítulo CI), pai de Ezequiel (capítulo CVIII) e, décadas mais tarde, velho solitário no Engenho Novo escrevendo, sozinho com um criado, o livro que o leitor tem nas mãos (capítulo II). Não é o observador da história de Capitu e Escobar, é a parte interessada dela, e o próprio texto avisa isso antes de qualquer suspeita nascer.

No capítulo II ele declara o fim da casa que mandou construir, e desfaz o próprio projeto duas frases depois, confessando que falta ele mesmo à reconstituição.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.
Capítulos I a XII: A denúncia, a ópera e a promessa

Trajetória

A denúncia de José Dias, ouvida atrás da porta (capítulo III), e o amor descoberto na varanda (capítulo XII) abrem o livro num narrador que já se apresenta editando o que conta. No capítulo X, ainda antes de qualquer cena de amor ter acontecido, ele nomeia o próprio método: aceita a teoria do velho tenor Marcolini de que a vida é ópera (capítulo IX), e escreve Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor...

O beijo do capítulo XXXIII o faz correr ao quarto repetindo (capítulo XXXIV): Sou homem!

Essa é a escolha que ele mesmo lê, décadas depois, como o momento em que a categoria homem venceu a categoria padre. No seminário, ao ouvir de José Dias que Capitu anda alegre e que só falta algum peralta da vizinhança que a conquiste (capítulo LXII), ele dá ao capítulo o título "Uma ponta de Iago" e escreve: um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas.

Não é o adolescente do seminário quem escolhe esse título, é Bento Santiago escrevendo velho, e é a primeira vez que ele sugere, pelo título, a peça que tem em mente. Depois do casamento (capítulo CI), da amizade cada vez mais próxima com o casal Escobar e Sancha (capítulo CXVII) e do afogamento de Escobar (capítulo CXXI), Bentinho lê no velório, nos olhos da própria mulher, fixos no defunto, uma imagem que já usara antes, entre fascínio e ameaça (capítulo XXXII), agora aplicada ao olhar dela sobre o morto (capítulo CXXIII). A dúvida cresce por meses, com a semelhança de Ezequiel (capítulo CXXXI, capítulo CXXXII), até a noite em que assiste, pela primeira vez, a Otelo no teatro (capítulo CXXXV), e sai do teatro com a sentença já formada.

O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer
Capítulos CXXV a CXXXV: A semelhança e Otelo

Volta para casa com veneno comprado (capítulo CXXXIV), escreve uma carta de despedida a Capitu (capítulo CXXXV) e, à beira de bebê-lo, oferece a xícara ao próprio filho num impulso que ele mesmo chama de criminoso (capítulo CXXXVI, capítulo CXXXVII). Recua, e em vez de se matar, vira-se para o menino e diz: Não, não, eu não sou teu pai!

Diante de Capitu, ele acusa, ela pede que ele diga tudo para poder se defender, e ele recusa contar o resto, aceitando a separação que ela mesma propõe (capítulo CXXXVIII, capítulo CXL). Leva mulher e filho à Europa e os deixa lá, não procura Capitu nas duas viagens seguintes (capítulo CXLI), que morre na Suíça; recebe Ezequiel já adulto, com o mesmo rosto de Escobar, segundo ele, salvo as cores, um pouco mais baixo e menos cheio de corpo, hospeda-o por seis meses (capítulo CXLV) e paga a viagem em que ele morre de febre tifoide, perto de Jerusalém (capítulo CXLVI). O livro fecha com Bentinho velho, sem ter atado coisa nenhuma (capítulo CXLVIII): quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...

Temas que encarna

Os temas que passam por ele são Memória e passado, Ciúme e Linguagem e narração.

A pergunta que este romance faz não é "Capitu traiu", é "o que um homem que se julga traído faz com a própria memória quando é ele quem escreve a história". Bentinho não é o narrador transparente que assiste ao drama de outra pessoa, ele é o único personagem com acesso à pena, e o livro constrói essa condição de propósito: cada suspeita sobre Capitu, cada elogio a Escobar, cada leitura de gesto alheio passa por um homem que já decidiu, ao escrever, qual peça está contando. As duas alusões a Shakespeare que ordenam a história, o Iago que planta a suspeita no capítulo LXII e o Otelo que a executa no capítulo CXXXV, não são adornos eruditos: são o narrador confessando ao leitor, em público, o molde que está aplicando à própria vida antes de ter prova alguma.

A cena da xícara de café (capítulo CXXXVI, capítulo CXXXVII) é o ponto em que a estrutura do livro se mostra por inteiro: Bentinho chega a oferecer ao filho o café envenenado, recua, e resolve o próprio impasse não com uma investigação, mas com uma frase de rejeição que não prova nada sobre Ezequiel, só decide o que Bentinho vai fazer com ele. A mesma lógica rege o resto do livro: ele nunca produz uma prova, produz uma decisão, e escreve o livro inteiro para que o leitor a aceite como se fosse a mesma coisa.

Vale comparar com Simão Bacamarte: os dois são homens de método que nunca duvidam do próprio instrumento, só do objeto que ele examina. A diferença é que Bacamarte aplica a doutrina aos outros à luz do dia e acaba internando a si mesmo por coerência; Bentinho aplica a doutrina a Capitu em segredo, decide sozinho, e nunca se submete ao próprio critério.

Leituras divergentes

A crítica de Dom Casmurro se divide, há mais de um século, entre ler o livro como confissão indireta de um adultério real e ler Bentinho como um narrador que fabrica um crime sem provas para justificar o próprio ciúme, leitura que ganhou força sobretudo a partir da segunda metade do século XX, quando passou a se notar que todo o caso contra Capitu é montado por adjetivo e comparação, nunca por fato observado por outra testemunha. As duas leituras concordam no que o texto mostra (o olhar no velório, capítulo CXXIII; a semelhança do filho, capítulo CXXXI; o fim que Capitu dá à conversa depois de pedir que ele dissesse tudo, capítulo CXXXVIII) e divergem inteiramente no peso que dão a cada gesto, o que é, precisamente, o mecanismo que o próprio livro descreve em si mesmo. Nenhuma das duas leituras fecha a questão, porque o livro não a fecha.

Relações

  • Capitu: a mulher que ele acusa e nunca deixa se defender por completo, apesar de ela pedir isso várias vezes depois da cena da xícara (capítulo CXXXVIII).
  • Escobar: o amigo cuja morte muda o eixo do livro (capítulo CXXI), e cuja memória Bentinho persegue no rosto do próprio filho (capítulo CXXXII).
  • José Dias: planta a primeira suspeita sobre Capitu ainda na infância dela, por interesse próprio, mais de dez anos antes de haver motivo (capítulo XXV).
  • Ezequiel: o filho a quem ele quase dá o café envenenado e depois rejeita com uma frase (capítulo CXXXVII), sem nunca produzir prova da paternidade que nega.
  • Dona Glória: a mãe cuja promessa o define antes de ele nascer (capítulo XI), e que, a ver de Bentinho, se torna mais fria com Capitu e com Ezequiel (capítulo CXV).