O tema na obra
A religião, em Dom Casmurro, aparece como uma economia de dívidas e de trocas, e quem a usa a fala em linguagem de crédito. A origem é a promessa do capítulo XI: Dona Glória, com o primeiro filho nascido morto, promete a Deus fazer padre o segundo, se for varão, esconde a promessa do marido, busca testemunhas depois de viúva e adia a entrada do filho no seminário. O capítulo XLI mostra a mãe como devedora: a promessa foi feita em pagamento a Deus e não pode faltar, e ela não aceita pedir que a dispensem.
Bentinho trata o céu do mesmo modo. No capítulo XX, promete mil padre-nossos e mil ave-marias se José Dias o livrar do seminário, embora deva as orações de promessas anteriores; no capítulo LXVII, depois do pensamento de que, com a mãe morta, acaba o seminário, promete dois mil padre-nossos pela vida dela; no capítulo LXIX, vai à missa se reconciliar e conclui que Jeová é um Rothschild muito mais humano e não faz moratórias. No capítulo XLIX, planeja o oratório e a vela aos sábados em parte por religiosidade, em parte para compensar a batina e em parte para captar a proteção do céu.
As autoridades que decidem usam a mesma moeda. O Padre Cabral propõe, no capítulo L, dois anos para provar a vocação, porque Deus quer que as promessas se cumpram conforme a vontade dele; José Dias propõe, no capítulo XCV, pedir ao papa que desligue a mãe; Escobar propõe, no capítulo XCVI, o substituto, um órfão ordenado à custa dela; a troca vale, no capítulo XCVII, depois que Cabral consulta o bispo. A promessa não é rompida, é quitada por procuração. A vocação de Bentinho, enquanto isso, é outra: no capítulo LI, ele diz que a vocação era Capitu.
O texto sustenta duas leituras da fé da mãe e do filho: piedade verdadeira que se exprime na língua das contas, ou cálculo que se absolve em nome de um credor generoso. A diferença entre os dois é de desfecho: os dois adiam, mas ela acaba pagando por um substituto e ele não. O que a cena mostra é a mãe temente a Deus que não cede e o filho que negocia; o que o narrador acrescenta, velho, é o sorriso com que conta.
Onde aparece
- Capítulo XI: Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, Dona Glória promete a Deus fazer padre o segundo, se for varão, e o adia com as primeiras letras em casa; Bentinho brinca de missa com Capitu.
- Capítulo XX: Bentinho promete ao céu mil padre-nossos e mil ave-marias se José Dias arranjar que ele não vá ao seminário, carregado de promessas não cumpridas, e trata o céu como credor.
- Capítulo XXXV: O Padre Cabral é nomeado protonotário apostólico, título só de honras que todos repetem, e Dona Glória responde a José Dias que o filho há de ser padre.
- Capítulo XXXIX: José Dias e o Padre Cabral discutem o que é vocação, o agregado dizendo que se serve a Deus fora do sacerdócio, o padre vendo em Bentinho vocação manifesta.
- Capítulo XLI: Dona Glória responde que a vocação vem com o costume, que vai cumprir a promessa e que não pede a Deus que a dispense, marcando a entrada para o primeiro ou segundo mês do ano.
- Capítulo XLIX: Bentinho promete à futura esposa uma casa com oratório de jacarandá e vela aos sábados, por religiosidade, para compensar a batina e por intuito de captar a proteção do céu.
- Capítulo L: O Padre Cabral propõe dois anos para provar a vocação e, se ela não aparecer, outra carreira, porque Deus quer que as promessas se cumpram conforme a vontade dele.
- Capítulo LI: Na véspera da partida, Bentinho e Capitu juram de novo que se casarão e selam o contrato com um beijo, e o narrador diz que entrou no seminário puro e que a vocação era Capitu.
- Capítulo LXIX: Bentinho vai sozinho à missa para pedir perdão pelo pecado, agradecer o restabelecimento da mãe e livrar-se da promessa dos padre-nossos, e acha que Jeová não faz moratórias.
- Capítulo LXXX: Dona Glória, temente a Deus, adia a entrada do filho no seminário como quem reforma uma letra, e passa a esperar, conta o narrador, que o namoro desfizesse o contrato.
- Capítulo XCV: José Dias propõe que ele e Bentinho vão a Roma pedir ao papa que desligue Dona Glória da promessa, com cartas do internúncio e do bispo.
- Capítulo XCVI: Escobar propõe que a mãe cumpra a promessa dando a Deus um padre que não seja o filho, um órfão ordenado à custa dela, e Bentinho responde que entende, é isto mesmo.
- Capítulo XCVII: Dona Glória cede depois que o Padre Cabral, tendo consultado o bispo, diz que a troca vale, e Bentinho sai do seminário no fim do ano.
- Capítulo CXLII: Bentinho manda esculpir a sepultura da mãe sem nome, só com as palavras Uma santa, e o vigário cede ao ser lembrado do protonotário Cabral, bom parceiro de gamão.
Passagens
O narrador diz por que Dona Glória adiou a promessa.
Prazos largos são fáceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos.
Bentinho resume o ciclo das suas próprias promessas.
O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga.
Dona Glória é devedora e não acha outra moeda.
Quisera um modo de pagar a dívida contraída, outra moeda, que valesse tanto ou mais, e não achava nenhuma.
Bentinho imagina a casa de casado com oratório.
Havíamos de acender uma vela aos sábados...
O narrador diz o que Bentinho buscava no seminário.
Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.
Bentinho trata Deus como credor.
Jeová, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz moratórias
A esperança que o narrador atribui a Dona Glória.
Era como se, tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor, o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada.
A saída que Escobar propõe.
Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você...
No casamento, a lição de São Pedro.
As mulheres sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro, mas o homem que está escondido no coração... Do mesmo modo, vós, maridos, coabitai com elas, tratando-as com honra, como a vasos mais fracos, e herdeiras convosco da graça da vida...
José Dias elogia a morta até o fim.
Não a conheceram; se a conhecessem mandariam esculpir santíssima.