O tema na obra
Quase todas as lealdades do livro são condicionais, e o romance as mostra em cena antes de qualquer acusação. José Dias confessa ao pai de Bentinho, no capítulo V, que não é médico, e fica na casa; muda de lado diante do vencedor no capítulo C, quando revela que sabe do namoro e que Dona Glória aprova. Dona Glória deve a Deus um padre e passa a esperar, conta o narrador como coisa que descobriu mais tarde, que o namoro do filho a desobrigue sem culpa dela (capítulo LXXX); a promessa acaba cumprida por um substituto proposto por Escobar (capítulo XCVI). Capitu e Bentinho juram no poço, no capítulo XLVIII, que se casarão haja o que houver, fórmula que ela corrige para que obrigue a casar, e não só a esperar. Bentinho tem contra a mãe, em pensamento, a ideia de que, com ela morta, acaba o seminário (capítulo LXVII), e contra Escobar o instante de vertigem e pecado ao apertar a mão de Sancha (capítulo CXVIII). Confessa os dois e os absolve depressa.
O que o livro não mostra é a cena da traição de que Bentinho acusa Capitu e Escobar. Mostra o conjunto de lealdades pequenas e reais que a história atravessa: o segredo por segredo, em que Escobar recebe o do amigo e entrega outro igual (capítulo LXXVIII); a ajuda de Escobar como terceiro na troca das cartas (capítulo XCVIII); a dedicatória do retrato, que tranquiliza Bentinho minutos antes de chegar a notícia da morte do amigo (capítulo CXX); o elogio fúnebre que ele compara ao gesto de Príamo (capítulo CXXV). No capítulo CXXXVIII, Capitu pede várias vezes que ele diga tudo e ouve que há coisas que não se dizem. A acusação não recebe defesa porque o acusador não chega a formulá-la.
O último capítulo condensa o veredicto numa frase em que o destino é o sujeito do querer: a primeira amiga e o maior amigo acabaram juntando-se e enganando-o (capítulo CXLVIII). Mesmo no ponto mais próximo da sentença, o querer é entregue a uma força de fora, e o ato fica com os dois.
O tema se divide em dois livros: o das lealdades que as cenas verificam e o da deslealdade que só o narrador afirma. Pode-se ler a assimetria como falha de um homem que não concede ao outro o benefício que dá a si, ou como figura de uma verdade que o texto não tem como mostrar. O romance sustenta as duas leituras.
Onde aparece
- Capítulo V: José Dias confessa ao pai de Bentinho que não era médico, justamente quando é mandado ver os escravos doentes, e fica na casa, tornando-se necessário sem exigir nada.
- Capítulo XLVIII: Capitu corrige a fórmula do juramento de Bentinho: em vez de só excluir outro casamento, os dois juram que se hão de casar um com o outro, haja o que houver.
- Capítulo LXV: Capitu impede Bentinho de contar o segredo a Escobar, porque o segredo não é só dele, e explica a dissimulação diante de Dona Glória e de D. Justina, dizendo que lhe basta o juramento do poço.
- Capítulo LXVII: No caminho de casa, a Esperança sopra a Bentinho a ideia de que, com a mãe morta, acaba o seminário, pensamento que ele chama de sugestão da luxúria e do egoísmo.
- Capítulo LXXVIII: Bentinho confessa a Escobar que não pode ser padre, e Escobar, em troca, revela que não quer acabar o curso; só depois Bentinho lhe conta o namoro, num pacto em que cada um fica preso ao silêncio do outro.
- Capítulo LXXX: O narrador conta, como coisa que descobriu mais tarde, que Dona Glória passou a esperar que o namoro do filho desfizesse a promessa sem culpa dela, e compara Capitu ao portador que fica com o dinheiro da dívida.
- Capítulo XCVI: Escobar propõe que Dona Glória cumpra a promessa dando a Deus um órfão ordenado à sua custa, e anuncia na mesma conversa que também sairá do seminário.
- Capítulo XCVIII: Escobar serve de terceiro na troca de cartas entre Bentinho e Capitu, que preferia José Dias como portador, e depois se casa com Sancha, a amiga dela.
- Capítulo CXVIII: O aperto demorado da mão de Sancha dá a Bentinho um instante de vertigem e pecado; sozinho, diante do retrato de Escobar, ele se chama de desleal e em vinte minutos chega a nada.
- Capítulo CXX: Bentinho se cura das abominações da véspera estudando uns autos e relendo a dedicatória do retrato de Escobar, e poucos minutos depois chega a notícia da morte do amigo.
- Capítulo CXXV: Bentinho compara a sua situação à de Príamo, que beija a mão de quem lhe matou o filho, e trata o elogio fúnebre a Escobar como esse gesto.
- Capítulo CXXXVIII: Capitu pede várias vezes que Bentinho diga tudo; ele recusa e alude a amores sem dar nome, e ela responde que nem os mortos escapam aos ciúmes dele.
- Capítulo CXLVIII: Bentinho conclui que a primeira amiga e o maior amigo acabaram juntando-se e enganando-o, e atribui ao destino apenas o querer, em frase que as reticências deixam em suspenso.
Passagens
Capitu e Bentinho juram no poço.
juremos que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver
Capitu explica a dissimulação que protege o namoro.
Com D. Glória e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse, elas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro.
O pensamento que Bentinho confessa contra a mãe.
foi então que a Esperança, para combater o Terror, me segredou ao coração, não estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras, mas uma ideia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta, acaba o seminário.”
Escobar troca um segredo por outro.
Segredo por segredo; também eu tenho o propósito de não acabar o curso; meu desejo é o comércio, mas não diga nada, absolutamente nada; fica só entre nós.
A esperança que o narrador atribui a Dona Glória.
Era como se, tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor, o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada.
A saída que Escobar propõe.
Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você...
Escobar entra na troca das cartas.
Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu.
O instante com Sancha, contado contra si.
Foi um instante de vertigem e de pecado.
A dedicatória que tranquiliza Bentinho.
Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar. 20-4-70.
A comparação com Príamo.
Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho
Capitu ouve a acusação pela única alusão que Bentinho deixa passar.
Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!
A frase que fecha o veredicto, com o destino por sujeito.
a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...