Quem é
Ezequiel é o filho único de Bentinho e Capitu, batizado em homenagem a Escobar depois que tio Cosme toma para si o posto de padrinho (capítulo CVIII). É a personagem cuja existência inteira, no livro, se resume à pergunta que Bentinho faz e nunca prova: se ele é ou não filho biológico de Escobar. Nenhuma cena do romance mostra qualquer fato que resolva essa pergunta; o que existe é impressão de parecença, e quem a registra é sempre alguém interessado no resultado.
Trajetória
Nasce depois de anos de espera dos pais e é batizado com o nome de Escobar (capítulo CVIII); aos cinco anos, os olhos claros e já inquietos aparecem na descrição sem reparo nenhum (capítulo CIX). Menino, imita gestos de várias pessoas da casa, José Dias, prima Justina (capítulo CXII), e o próprio texto registra a imitação de Escobar entre as outras, sem marcar suspeita nenhuma na cena (capítulo CXVI).
Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como o das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria
É Capitu quem diz em voz alta, à mesa de jantar, que o olhar do menino é esquisito e que só viu igual em duas pessoas, um amigo do pai dela e o defunto Escobar, no ano de 1872 conforme a datação que o próprio texto dá ao capítulo CXXXI.
Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? [...] Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defunto Escobar
Bentinho, provocado pelo comentário, examina o filho e concorda que são os olhos de Escobar, mas nota, na hora, que não achou nisso nada de esquisito, "não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo" (capítulo CXXXI). É só depois, sozinho com o próprio ciúme, que ele passa a ler a mesma semelhança como prova (capítulo CXXXII). Ezequiel é então mandado para colégio interno, de onde só vinha aos sábados: no caminho chora, pergunta se o pai irá vê-lo e recebe a promessa de Bentinho de que irá vê-lo; o livro não diz se foi cumprida, mas conta que, em casa, aos sábados, o pai foge dele à medida que a semelhança com Escobar se acentua (capítulo CXXXII).
Meses depois, numa manhã em que planeja se envenenar, Bentinho aproxima o filho da xícara de café preparada com veneno e pergunta se ele já tomou café; recua no último instante e, em vez disso, diz ao menino, sem nenhuma explicação (capítulo CXXXVII): Não, não, eu não sou teu pai!
Depois da separação e do exílio na Europa com a mãe (capítulo CXLI), volta adulto ao Brasil já órfão de Capitu, com o mesmo rosto de Escobar, diz Bentinho, salvo as cores, um pouco mais baixo e menos cheio de corpo, com a mesma cara metida no prato ao comer e a mesma paixão por números aplicada agora à arqueologia (capítulo CXLV). Bentinho o recebe, hesita, e acaba se fazendo pai dele de fato (capítulo CXLV). Ezequiel morre onze meses depois, de febre tifoide, numa viagem de estudos à Palestina, e é enterrado perto de Jerusalém sob uma inscrição tirada do profeta Ezequiel, "Tu eras perfeito nos teus caminhos"; Bentinho confere depois na Vulgata e acha o complemento, "desde o dia da tua criação", que o leva a uma última pergunta sem resposta, registrada por ele mesmo (capítulo CXLVI): Quando seria o dia da criação de Ezequiel?
Temas que encarna
Os temas que passam por ele são Aparência e realidade e Ciúme.
Ezequiel é o personagem que mais sofre a estrutura do romance sem nunca ter voz própria sobre o que importa: ele fala, brinca, chora, cresce, mas nunca é perguntado sobre a única coisa que decide seu lugar na história, porque essa decisão nunca depende de nada que ele diga ou faça. Toda prova contra ele é impressão visual e sonora relatada por quem já quer chegar a uma conclusão; o próprio texto nunca produz um fato, uma carta, uma confissão, um documento, só olhos, gestos e o jeito de comer.
É significativo que seja Capitu quem aponta a semelhança à mesa, e não Bentinho: se ela fosse tão calculista quanto a leitura acusatória supõe, dificilmente levantaria o assunto sozinha, à mesa (capítulo CXXXI), sem necessidade nenhuma. O livro registra o fato e não o resolve, deixando em aberto se foi ingenuidade dela ou se foi esse comentário solto que, replicado e ampliado pela imaginação de Bentinho ao longo de meses, terminou virando prova.
Leituras divergentes
Parte da crítica lê a cena da xícara de café (capítulo CXXXVI, capítulo CXXXVII) como o momento mais revelador do livro sobre o caráter de Bentinho, não sobre a paternidade de Ezequiel: um homem que, por uma dúvida que nenhuma prova jamais confirma, chega a oferecer veneno ao próprio filho. Outra parte da crítica, tomando a palavra do narrador como suficiente, lê a cena como confirmação indireta, o instinto paterno recuando diante da própria descoberta.
O texto não dá ao leitor nada além do que dá a Bentinho: nenhuma fala de Ezequiel adulto, nenhum documento, nenhuma confissão de Capitu, resolve a questão; o que resolve é só a decisão de Bentinho, primeiro de renegar o menino e depois, com o rapaz adulto à porta, de fazer-se pai dele deveras.
Relações
- Bentinho: pai legal que quase lhe dá o café envenenado e depois o rejeita com uma frase (capítulo CXXXVII), sem nunca ter prova contra ele além da própria leitura de rosto.
- Capitu: mãe que aponta, sem constrangimento, à mesa, a semelhança do filho com Escobar (capítulo CXXXI), e que o acompanha, sem o marido, no exílio até a própria morte (capítulo CXLI).
- Escobar: vê o seu primeiro nome dado ao menino, por escolha de Bentinho, ainda em vida (capítulo CVIII), sem saber que a coincidência se tornaria, depois de morto, a acusação principal do livro.
- José Dias: pede a Capitu, já velho, o retrato dele (capítulo CXLIII), projetando nele a continuidade da própria ligação com a família.