Quem é
Ezequiel de Sousa Escobar entra no seminário de S. José como colega de Bentinho (capítulo LVI), torna-se seu melhor amigo (capítulo LXV, capítulo LXXVIII), casa-se com Sancha, amiga de colégio de Capitu (capítulo XCVIII), prospera no comércio (capítulo CXVII), e morre afogado ao nadar em mar bravio, mais longe do que de costume (capítulo CXXI). É o segundo vértice do romance: o amigo cuja morte muda o eixo do livro, e cujo nome o filho de Bentinho recebe (capítulo CVIII). Como Capitu, ele só existe no texto pelo relato de um narrador que, décadas depois, já suspeita dele; ao contrário dela, Escobar nunca chega a ouvir a acusação.
Trajetória
A apresentação, no seminário, já marca o personagem pelo movimento, não pela firmeza (capítulo LVI): Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.
Visita a casa de Bentinho na doença de D. Glória e é aprovado por toda a família (capítulo LXXI); o narrador reafirma um elogio de juventude, mantendo a palavra apesar dos quarenta anos que ela "traz em cima de si": Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos [...] e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que traz em cima de si.
No seminário, quando Bentinho lhe conta o namoro, ele responde com o próprio segredo, o de não querer acabar o curso e preferir o comércio (capítulo LXXVIII).
Prima Justina faz um dos poucos julgamentos desfavoráveis a ele antes da suspeita final, chamando-o "metediço" com "uns olhos policiais a que não escapava nada" (capítulo XCIII), comentário que o narrador registra e segue adiante sem peso, o mesmo tratamento que nega às suspeitas equivalentes sobre Capitu quando vêm de terceiros.
No pátio do seminário, ele mostra a cabeça aritmética, calculando de memória a soma exata dos aluguéis de nove casas de D. Glória (capítulo XCIV).
É Escobar quem propõe a solução para a promessa de Dona Glória, não José Dias, não Bentinho (capítulo XCVI).
Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você...
Torna-se o carteiro informal das cartas entre Bentinho e Capitu, antes e depois de casar com Sancha (capítulo XCVIII), e mais tarde vizinho de confiança do casal já casado (capítulo CIV, capítulo CXVII); ajuda Capitu a guardar dinheiro em segredo, sem que Bentinho, à época, veja nisso problema (capítulo CVI).
Na noite anterior à própria morte, Sancha aperta a mão de Bentinho, que não sabe explicar o que sente (capítulo CXVIII), e no dia seguinte morre afogado (capítulo CXXI); no velório, é o olhar de Capitu sobre o corpo dele, não qualquer gesto do próprio Escobar, que planta a suspeita retroativa (capítulo CXXIII). Morto, ele volta a crescer na narrativa (capítulo CXXXII): Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã [...]
Isso acontece à medida que o filho de Bentinho e Capitu passa a repetir os gestos dele (capítulo CXVI, capítulo CXXXII).
Temas que encarna
Os temas que passam por ele são Lealdade e traição, Aparência e realidade e Ciúme.
Escobar é o único dos três vértices do triângulo suspeito que nunca fala por si na cena da acusação, porque já está morto quando ela acontece (capítulo CXXXVIII); toda a culpa que recai sobre ele é fabricada inteiramente às costas dele, e o livro não guarda uma única cena em que ele e Capitu troquem palavra a sós. A prova contra Escobar, tanto quanto a prova contra Capitu, é feita de coincidência lida a posteriori: os olhos claros do filho (capítulo CIX), o cálculo mental que Bentinho relembra (capítulo XCIV), nenhum desses fatos exige a leitura que Bentinho lhes dá, e nenhum a exclui.
É Escobar, e não José Dias nem Bentinho, quem resolve com uma frase o impasse da promessa que ocupou capítulos inteiros de angústia (capítulo XCVI); o texto não marca esse momento como virada, ele passa em duas linhas de diálogo, o que revela o quanto a arquitetura do romance depende de homens de fora resolvendo, por atos e não por sentimento declarado, o que a família de Bentinho nunca resolve sozinha.
Leituras divergentes
A leitura que condena Capitu tende a condenar Escobar do mesmo lance: a proximidade das duas casas (capítulo CXVII), a competência dele com números (capítulo XCIV) e com Sancha, o nome dado ao filho (capítulo CVIII), tudo vira evidência coesa de um caso. A leitura que absolve Capitu tende a notar que nenhum gesto do próprio Escobar, em cena, é ambíguo: ele é descrito quase sempre como generoso, prático e leal, com as ressalvas dos olhos fugitivos, do metediço de prima Justina e do boato de uma atriz ou bailarina, inclusive nomeando o próprio segredo (não querer ser padre) a Bentinho em troca de confiança (capítulo LXXVIII).
Vale notar uma assimetria que a crítica costuma tratar de passagem: o narrador aplica a Capitu um escrutínio cético que nunca aplica ao rosto e à conduta de Escobar, cujo elogio físico e moral atravessa o livro com poucas ressalvas, até o momento em que a mesma beleza que fora louvor vira, sem nenhum fato novo, motivo de desconfiança retroativa.
Relações
- Bentinho: colega de seminário (capítulo LVI) e melhor amigo adulto, de quem recebe confiança e a quem, morto, é atribuída a paternidade de Ezequiel sem prova alguma além da semelhança.
- Capitu: guarda com a ajuda dele as economias secretas do casamento (capítulo CVI), e é o olhar dela sobre o corpo dele, no velório (capítulo CXXIII), que detona a suspeita póstuma contra os dois.
- Ezequiel: recebe o primeiro nome dele (capítulo CVIII) e, crescendo, passa a repetir seus gestos (capítulo CXVI) e depois seus traços físicos (capítulo CXLV), sem que ninguém em cena trate isso, a princípio, como mais que semelhança comum.
- Sancha, esposa, cujo aperto de mão com Bentinho na véspera da morte dele (capítulo CXVIII) é o episódio em que o narrador confessa desejo e culpa diante da mulher do melhor amigo.